Reino Unido aprova o campo de gás Jackdaw, que atenderá 2% da demanda do país, e abre a disputa decisiva por Rosebank

Reino Unido aprova o campo de gás Jackdaw, que atenderá 2% da demanda do país, e abre a disputa decisiva por Rosebank
Foto: Divulgação

A decisão do governo britânico contraria a promessa de 2024 de não emitir novas licenças no Mar do Norte e coloca o campo de petróleo de Rosebank no centro do debate climático.

Um campo que deve responder por cerca de 2% da demanda de gás do Reino Unido, segundo a organização Friends of the Earth Scotland, recebeu sinal verde do governo britânico nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026. A aprovação do campo Jackdaw, no Mar do Norte, provocou protestos em Londres e uma enxurrada de críticas de entidades ambientais, que agora miram a decisão pendente sobre o campo de petróleo de Rosebank.

O anúncio foi feito às 7h da manhã. Manifestantes ligados ao Fossil Free London se reuniram em frente ao Departamento de Segurança Energética e Net Zero em reação ao anúncio.

Uma promessa de campanha e uma brecha técnica

O Partido Trabalhista, hoje no governo do primeiro-ministro Andy Burnham, prometeu em seu manifesto de 2024 não emitir novas licenças de petróleo e gás no Mar do Norte. Defensores de Jackdaw e Rosebank sustentam que nenhum dos dois é um campo “novo”, já que os pedidos foram apresentados antes de o partido assumir o poder.

É essa distinção que sustenta a aprovação. A secretária de Energia, Miatta Fahnbulleh, concordou que o regulador North Sea Transition Authority pudesse autorizar o projeto. Segundo a empresa Adura, dona do empreendimento, o campo poderia entregar cerca de 6% da produção de gás do Mar do Norte britânico. O gás deve começar a fluir até o fim do mês.

Do tribunal escocês à aprovação

Jackdaw e Rosebank foram aprovados pelo governo conservador anterior. Ambos receberam licenças de perfuração em junho de 2022, mas a decisão foi anulada pela Justiça escocesa após contestação de ambientalistas.

O revés judicial veio após uma decisão da Suprema Corte segundo a qual os desenvolvedores precisam considerar, nos pedidos de licenciamento, o impacto climático da queima dos combustíveis fósseis produzidos. Novas consultas públicas sobre as propostas ocorreram neste ano e foram encerradas em agosto.

Os números em disputa

Os dois lados usam argumentos econômicos opostos. A diretora de política do Greenpeace UK, Ami McCarthy, afirmou: “Andy Burnham promised pragmatism, but there is nothing pragmatic about rubber-stamping a project that won’t lower energy bills, won’t boost energy security and will create just 27 full-time jobs.”

Simon Francis, coordenador da End Fuel Poverty Coalition, lembrou que o gás será vendido a preços do mercado internacional. Para ele, as famílias continuam presas à mesma volatilidade que causou a quase constante crise de contas de energia. Ele também descreveu o Mar do Norte como uma bacia em declínio, que a nova perfuração não reverterá.

Reino Unido aprova o campo de gás Jackdaw, que atenderá 2% da demanda do país, e abre a disputa decisiva por Rosebank
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O deputado trabalhista Alex Sobel disse: “My view hasn’t changed. Jackdaw won’t draw gas for many years. It won’t make an impact on global prices and will give mixed messages in terms of investment of both renewables and decarbonization of home heating.”

Segundo o texto da Ecologist, universidades, centros de pesquisa e think tanks publicaram relatórios questionando a metodologia das alegações da indústria sobre os benefícios econômicos de Jackdaw e Rosebank.

O argumento dos empregos

Do outro lado, o sindicato Unite apoiou a decisão. A secretária-geral Sharon Graham disse: “I have been very clear that whilst we of course support net zero, we cannot have a jobless transition…that is why we have argued for this decision on Jackdaw.”

Ela defendeu o investimento em indústrias como a fabricação de turbinas eólicas e o refino de combustível de aviação verde: “We simply cannot let go of one rope until we have hold of another.” O governo, por sua vez, anunciou um novo fundo para direcionar receitas tributárias do Mar do Norte a projetos de energia verde.

Rosebank vira o teste final

Para as entidades, Jackdaw é apenas a primeira etapa. A líder do Partido Verde da Inglaterra e do País de Gales, Zack Polanski, classificou a aprovação como “climate vandalism”. A diretora-executiva do grupo Uplift, Tessa Khan, afirmou que a credibilidade climática trabalhista está “on the line now”, com Rosebank como o teste definidor.

A chefe da Oxfam Escócia, Katherine May, disse que as emissões de Rosebank superariam as de Jackdaw e que aprová-lo seria “reprehensible and reckless”. A decisão sobre Rosebank, o maior campo petrolífero ainda não explorado do Mar do Norte, ao largo das ilhas Shetland, será tomada separadamente.

O que isso significa para a Amazônia

A discussão britânica tem eco na região amazônica, onde a exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial, na foz do Amazonas, também opõe expectativa de receitas e empregos a riscos ambientais e climáticos. O argumento de que novos projetos garantem segurança energética e transição justa é o mesmo, assim como o contra-argumento de que cada barril adicional compromete as metas do Acordo de Paris.

O caso britânico também mostra o papel da Justiça: foi a exigência de contabilizar as emissões da queima do combustível, e não apenas da extração, que levou à anulação das licenças originais. Esse precedente tende a ser observado por ambientalistas em outros países produtores.

Os próximos passos dependem do governo de Burnham, que ainda precisa decidir sobre Rosebank, e as organizações já anunciaram que manterão a pressão pela rejeição do projeto.

Com informações de The Ecologist.

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