
Escavação em Pembrokeshire revela fortificação romana onde um poema medieval galês situava o acampamento do imperador Magnus Maximus.
Um pedaço triangular de ardósia saindo do chão, visto durante um passeio de bicicleta, foi o ponto de partida para a descoberta de um forte romano em Pembrokeshire, no sudoeste do País de Gales. O achado, anunciado pela Universidade de Oxford, ocorreu perto de Frenni Fawr, local que uma lenda medieval associa ao acampamento do imperador Magnus Maximus. Quem encontrou o sítio foi Mark Merrony, especialista em Roma antiga da instituição, e a possível ligação com a tradição galesa ainda depende de novas pesquisas.
Uma telha no meio do caminho
Segundo reportagem de 2024 do Pembrokeshire Herald, Merrony pedalava pela região quando notou a peça de formato triangular. A análise mostrou que se tratava de uma telha de cobertura romana, algo que ninguém esperava encontrar ali.
Imagens de satélite vieram em seguida e mostraram terraplenos com cerca de 7 acres e traçado em forma de carta de baralho, características típicas de fortes auxiliares romanos, as guarnições que abrigavam tropas recrutadas fora de Roma. A partir daí, começou a investigação arqueológica.
O que saiu da terra
Até agora, a equipe abriu cinco trincheiras. Em uma delas apareceram restos da base de uma muralha de defesa, o que reforça a leitura do local como fortificação.

Os objetos recuperados falam do cotidiano de quem viveu ali: uma pequena roda de fuso em chumbo, usada para fiar lã; um estilete de ferro, empregado para escrever em tábuas de cera; um machado de carpintaria; e uma peça de jogo.
Foram encontradas ainda três moedas, uma do século III e duas do final do século IV. Para os pesquisadores, esse intervalo coincide com o período em que Magnus Maximus atuou na Britânia.
Dois momentos possíveis para o mesmo forte
Em texto publicado no The Conversation, Merrony avalia que o conjunto de indícios sugere um forte de madeira, possivelmente instalado durante a campanha do governador Sextus Julius Frontinus, entre 74 e 78 d.C. Ou seja, a ocupação mais antiga seria do século I, enquanto as moedas tardias indicariam frequentação posterior.
O pesquisador também vê uma possível conexão com o acampamento descrito no Mabinogion, mas ressalta que é preciso mais investigação para confirmá-la. A pesquisa será descrita na revista Antiqvvs.

Quem foi Magnus Maximus
Segundo o Oxford Classical Dictionary, Magnus Maximus, de origem espanhola, foi reconhecido como imperador romano do Ocidente por cinco anos, entre 383 e 388 d.C. Oficial militar que provavelmente chegou à Britânia para comandar tropas, venceu pictos e escotos, invadiu a Gália e tomou o trono de Graciano. Sua tentativa fracassada de conquistar a Itália terminou com a execução.
Na tradição galesa, ele aparece como Macsen Wledig. No relato “O Sonho de Macsen Wledig”, parte do Mabinogion, coletânea de histórias que remonta à Idade Média, o imperador viaja até o País de Gales atrás de uma mulher que via em sonhos. Depois, com ajuda de aliados britânicos, toma a França, a Borgonha e, por fim, Roma. A narrativa situa o acampamento em Frenni Fawr.
Até agora, não havia evidência material de que um forte romano tivesse existido ali. O Mabinogion é literatura medieval, não crônica militar, e por isso o elo entre o forte e o imperador segue como hipótese.
Roma mais presente no oeste galês
Mesmo sem a confirmação da ligação com Maximus, o achado se soma a descobertas recentes que indicam que a presença e a influência romanas na região foram mais extensas do que se supunha. O Pembrokeshire Herald chegou a apontar que o forte sugere integração plena do País de Gales à Britânia romana.
O que isso diz ao leitor da Amazônia
O caso mostra como uma lenda registrada séculos depois dos fatos pode orientar a busca por vestígios reais, e como um sinal mínimo na superfície, como uma telha, é capaz de revelar uma estrutura inteira. Na Amazônia, a arqueologia vive movimento parecido: imagens de satélite e levantamentos de campo vêm ajudando pesquisadores a reconhecer ocupações antigas na floresta, e relatos orais de povos locais costumam indicar onde procurar. A comparação é de método, não de contexto histórico.
As próximas etapas dependem de novas escavações e da publicação dos resultados na Antiqvvs, que deverá detalhar a cronologia do forte e dizer se há base para ligá-lo ao acampamento de Macsen Wledig.
Com informações de Universidade de Oxford.
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