Vostok, a base no meio da Antártida onde o termômetro marcou -89,2 °C, o frio mais extremo já medido na Terra

Vostok, a base no meio da Antártida onde o termômetro marcou -89,2 °C, o frio mais extremo já medido na Terra
Foto: Akulovz/Wikimedia Commons (CC BY 4.0). Membro da expedição corta blocos de neve para abastecer a base Vostok de água, em 2017.

Num ponto do interior da Antártida, a mais de 3 mil metros de altitude e a 1.350 quilômetros da estação russa mais próxima, um termômetro marcou -89,2 °C em 21 de julho de 1983. É a temperatura do ar mais baixa já medida na Terra, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), e o lugar é a estação Vostok, base científica russa fundada em 1957 no alto do platô da Antártida Oriental.

Como o recorde foi medido

A medição foi feita com um termômetro de máxima e mínima instalado num abrigo meteorológico padrão, a caixa de madeira branca e ventilada usada em estações do mundo todo. O recorde foi confirmado pelo Instituto de Pesquisa do Ártico e da Antártida da Rússia (AARI) e passou por avaliação formal da OMM em 2011.

Durante anos circulou o valor de -89,4 °C. Segundo nota registrada no arquivo de extremos da OMM, o pesquisador Stephen Warren, da Universidade de Washington, verificou em 2007 que esse número vinha de um erro de conversão, e que o caderno de registros da estação mostra -89,2 °C.

Como é viver em Vostok

Segundo o AARI, a temperatura média na estação é de -35,9 °C no verão e de -66,7 °C no inverno. O ar é rarefeito por causa da altitude, e a base fica isolada durante boa parte do ano. A água usada no dia a dia vem da própria neve, cortada em blocos e derretida, como mostra a foto que abre esta reportagem.

A rotina extrema chamou a atenção de cientistas que estudam missões espaciais. Segundo uma publicação do AARI de 2019, o Instituto de Problemas Biomédicos da Rússia, que pesquisa a saúde de cosmonautas, fez estudos biomédicos em Vostok entre 1966 e 1972 e, no fim de 2017, desenvolveu um conceito para usar a estação como análogo de uma futura base habitada de longa duração na Lua.

O lago escondido sob o gelo

Debaixo da estação, sob quase 4 quilômetros de gelo, fica o Lago Vostok, isolado da superfície há milhões de anos. Segundo o AARI, é o quinto maior corpo de água doce do mundo em volume. A Revista Amazônia contou a história da perfuração que chegou ao lago em reportagem sobre o lago isolado sob o gelo.

Satélites viram lugares ainda mais frios

Em 2018, um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, liderado pelo glaciologista Ted Scambos, do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos Estados Unidos (NSIDC), analisou imagens de satélite do platô da Antártida Oriental entre 2004 e 2016. Os pesquisadores encontraram cerca de 100 pontos onde a superfície da neve chegou perto de -98 °C em noites de inverno.

Esses pontos ficam em pequenas depressões de 2 a 3 metros de profundidade, onde o ar frio e pesado se acumula em noites sem vento e com céu limpo. Os autores estimaram que, a 2 metros do chão, o ar nesses lugares fica em torno de -94 °C.

Por que o recorde continua sendo de Vostok

A diferença está no tipo de medição. Os satélites medem a temperatura da superfície da neve, e não a do ar. O recorde oficial da OMM exige temperatura do ar medida por instrumento em abrigo meteorológico padrão, como em Vostok. Por isso, os -98 °C mostram que existem lugares mais frios na Antártida, mas não substituem o recorde de 1983 no arquivo da organização.

Entenda

  • Recorde oficial: -89,2 °C, em 21 de julho de 1983, na estação Vostok, segundo a OMM.
  • Onde fica: no platô da Antártida Oriental, a mais de 3 mil metros de altitude.
  • Médias: -35,9 °C no verão e -66,7 °C no inverno, segundo o AARI.
  • Mais frio por satélite: superfície da neve perto de -98 °C, medida entre 2004 e 2016, que não conta como recorde do ar.

Com informações da Organização Meteorológica Mundial (OMM), do Instituto de Pesquisa do Ártico e da Antártida (AARI) e do estudo de Scambos e colegas na Geophysical Research Letters.

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