Crânio mumificado de 2.700 anos guarda vestígios químicos de aloe em apenas 2 de 24 objetos e reabre dúvida sobre a medicina medieval

Crânio mumificado de 2.700 anos guarda vestígios químicos de aloe em apenas 2 de 24 objetos e reabre dúvida sobre a medicina medieval
Foto: Divulgação

Análise molecular feita na Alemanha sugere que textos medievais sobre múmias e aloe podem ter base histórica, mas o achado ainda é raro.

Durante séculos, boticários europeus venderam pó de múmia como remédio e escritores medievais afirmaram que o material continha aloe. Para muitos estudiosos, era palpite. Agora, um crânio mumificado do século VIII a.C., com cerca de 2.700 anos, deu à ciência uma pista química de que a ideia pode não ter surgido do nada. A análise foi feita por pesquisadores da Universidade de Marburg, na Alemanha, e publicada na revista PNAS.

Um crânio guardado numa coleção zoológica

O crânio pertence à Coleção Zoológica da Universidade de Marburg, no estado de Hesse. Datação por radiocarbono o situou no século VIII a.C. Nele, a equipe encontrou compostos que apontam para produtos do gênero Aloe.

Segundo a Universidade de Marburg, é a primeira vez que a análise molecular identifica compostos ligados ao aloe em material de embalsamamento egípcio, em estudo publicado em 2026 na PNAS.

O trabalho tem Tim Berger como primeiro autor e reuniu química, egiptologia e história da farmácia. Ao todo, foram examinados 24 objetos históricos de coleções universitárias e de museus.

Quando múmias viraram remédio

No fim da Idade Média e no início da era moderna, a medicina europeia usava uma substância chamada Mumia vera aegyptiaca. Ela podia vir de restos de múmias ou dos materiais usados para conservá-las. Também podia ser um produto comercializado como preparação medicinal.

Escritores da época associavam esse material ao aloe, planta conhecida por seus usos terapêuticos. Só que boa parte do conhecimento prático sobre a mumificação egípcia já tinha se perdido. Por isso, parte dos especialistas desconfiava de que os autores apenas repetiam relatos bíblicos de sepultamento.

“It was previously assumed that the authors of these texts were speculating and relying on biblical passages (e.g., John 19:39), as knowledge about ancient Egyptian embalming had been lost. The new findings suggest that this association may have deeper historical roots.”

A frase é de Tanja Pommerening, diretora do Instituto de História da Farmácia e da Medicina da Universidade de Marburg.

Aloe ou agarwood: uma ambiguidade antiga

Nos textos antigos, a palavra “aloe” é traiçoeira. Pode designar plantas do gênero Aloe, mas também o agarwood, material aromático de árvores do gênero Aquilaria. Os compostos achados apontam especificamente para produtos de Aloe, e não para o agarwood.

A equipe também voltou a textos egípcios e estudou uma substância chamada ꜥnḫ-jm.j. Suas propriedades e usos descritos sugerem que ela possa ter sido aloe ou um extrato vegetal parecido, mas essa identificação continua incerta.

Só dois objetos entre 24

O estudo não demonstra que o aloe fosse ingrediente comum na mumificação. Compostos que apontam para ele apareceram em apenas dois dos 24 objetos. O uso pode ter dependido de tradições de embalsamamento específicas, de períodos históricos ou do acesso a matéria-prima.

Crânio mumificado de 2.700 anos guarda vestígios químicos de aloe em apenas 2 de 24 objetos e reabre dúvida sobre a medicina medieval
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O segundo caso é uma preparação de Mumia vera aegyptiaca do século XVIII, da Farmácia Löwen, em Offenbach am Main, hoje no Museu Alemão da Farmácia, em Heidelberg.

As amostras históricas de Mumia vera aegyptiaca variaram bastante. Várias continham compostos típicos de resinas envelhecidas de coníferas, já conhecidas como material de embalsamamento no Egito.

O teste contra a gripe

Os pesquisadores também investigaram se alguma preparação combatia infecções. Um extrato da Coleção Medicinal Wigand, em Marburg, deu proteção moderada contra danos celulares associados à influenza em culturas de células de laboratório.

Seu principal composto isolado, o ácido 7-oxodehidroabiético, não teve o mesmo efeito sozinho. Por isso, a equipe não conseguiu dizer quais ingredientes eram responsáveis. Os resultados de laboratório não provam que remédios de múmia funcionassem em pessoas contra a gripe.

Os textos históricos registram o uso para sintomas fortes de resfriado, como dor de cabeça, tosse, dor de garganta e tontura.

Metabolômica e uma ligação perdida

Os cientistas usaram metabolômica não direcionada, técnica que compara a impressão química completa de uma amostra em vez de procurar compostos pré-definidos. Métodos computacionais e de aprendizado de máquina deram suporte ao trabalho.

No Museu Alemão da Farmácia, eles notaram semelhanças marcantes entre uma cabeça mumificada e uma amostra de pó catalogada separadamente. Os registros do museu não ligam os dois objetos, mas a química sugere que podem ter compartilhado material ou origem.

E a Amazônia nisso?

O caso não envolve a região diretamente, mas conversa com um tema familiar ao leitor amazônico: a memória de saberes sobre plantas medicinais, transmitida por tradição e muitas vezes duvidada até a ciência medir o que ela descrevia. Aqui, resinas, cascas e óleos vegetais também têm longa história de uso terapêutico, e análises químicas modernas seguem testando o que o conhecimento popular já praticava.

O grupo quer transformar o estudo em método. Raphael Reher, do Instituto de Biologia e Biotecnologia Farmacêutica de Marburg, resumiu a meta:

“In the long term, we aim to establish a research approach that combines historical written sources, archaeological objects, and modern natural product analysis.”

Os próximos passos serão aplicar essa abordagem a mais objetos de coleções, na tentativa de saber em que períodos e tradições o aloe realmente entrou no embalsamamento egípcio.

Com informações de Universidade de Marburg.

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