Estudo da Embrapa mapeia como calor, seca e chuva extrema do El Niño atingem 5 grupos de hortaliças e propõe 6 eixos de adaptação

Estudo da Embrapa mapeia como calor, seca e chuva extrema do El Niño atingem 5 grupos de hortaliças e propõe 6 eixos de adaptação
Foto: Gislene Alencar

Diretrizes de pesquisadores da Embrapa Hortaliças indicam o que muda no manejo de tomate, alface, cenoura e outras culturas em cada região do Brasil.

Tomate que deixa de florescer no calor, alface que queima sob sol direto, cenoura deformada por excesso ou falta de água. Esses são alguns dos efeitos que pesquisadores da Embrapa Hortaliças, em Brasília (DF), mapearam em um estudo sobre como o El Niño e outros eventos climáticos extremos afetam a produção de hortaliças no Brasil. O trabalho reúne diretrizes para tornar a olericultura mais resiliente e organiza as recomendações em seis eixos de atuação para os produtores.

O estudo é assinado por Marcos Brandão Braga, Samuel Cordeiro Vitor Martins e Carlos Eduardo Pacheco Lima. Ele integra um esforço institucional da Embrapa que reúne mais de 160 medidas para a gestão de riscos climáticos diante de fenômenos extremos.

Por que a hortaliça sente tanto o clima

Segundo a Embrapa, a maioria das hortaliças consumidas no país precisa de temperaturas amenas, entre 18 ºC e 25 ºC, água de boa qualidade e disponibilidade hídrica regular. Elas também não toleram bem nem o excesso de chuva nem o estresse hídrico.

Os pesquisadores analisaram as bases fisiológicas e operacionais de diversas culturas para propor respostas a uma sequência contínua de eventos extremos, como ondas de calor mais longas e intensas, chuvas volumosas e secas agrícolas.

No cenário de calor, a evaporação e a demanda por água aumentam, e a escassez hídrica eleva os riscos de salinização do solo e de surtos de pragas. Já as chuvas intensas causam encharcamento, o que compromete o desenvolvimento das raízes e o ciclo das plantas e favorece doenças fúngicas e bacterianas.

Cinco grupos, cinco fragilidades

Como as espécies têm exigências diferentes, o estudo detalhou as vulnerabilidades de cada grupo:

  • Solanáceas (tomate, pimentão e batata): muito sensíveis a temperaturas elevadas, que afetam o florescimento e a frutificação.
  • Folhosas e brássicas (alface, coentro, couve, brócolis, couve-flor e repolho): a área foliar fica exposta ao calor extremo e à falta de água.
  • Aliáceas (alho e cebola): dependem de irrigação regular e reagem fortemente às variações de temperatura.
  • Raízes e tubérculos (cenoura, beterraba e batata-doce): precisam de estabilidade hídrica, pois excesso ou escassez de água prejudica a formação das raízes.
  • Cucurbitáceas (melão, melancia, pepino, abóbora e abobrinha): exigem água de forma uniforme, e o calor excessivo prejudica da germinação ao desenvolvimento dos frutos.

Os seis eixos de adaptação

Para reduzir esses riscos, os pesquisadores indicam seis frentes prioritárias:

  • Monitoramento constante do risco climático e das condições locais.
  • Ajuste de calendário e genética, com calendários agrícolas flexíveis, diversificação de culturas e materiais geneticamente adaptados.
  • Manejo integrado de recursos, que combina gestão da água, conservação do solo e drenagem.
  • Manejo microclimático, para proteger as lavouras da exposição direta aos extremos térmicos.
  • Manejo fitossanitário orientado ao risco, com monitoramento e controle preventivo de pragas e doenças a partir do diagnóstico climático.
  • Validação de tecnologias conservacionistas, com fortalecimento do cultivo mínimo e do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH).

De acordo com Braga, sistemas conservacionistas reduzem a temperatura e a amplitude térmica na superfície do solo, ou seja, a diferença entre as temperaturas máxima e mínima em determinado período. Também amortecem o impacto das gotas de chuva, favorecem a infiltração e reduzem evaporação, escoamento superficial e erosão.

O que muda no Norte do país

As diretrizes variam conforme o risco de cada região. Segundo a Embrapa, no Norte e no Nordeste a prioridade é a irrigação localizada e o manejo da salinidade. No Sul, o foco está no controle de encharcamentos e doenças. No Centro-Oeste e no Sudeste, as recomendações incluem sensores de umidade, telas anti-insetos e cultivo protegido.

Para quem produz hortaliças na Amazônia, onde calor e umidade já impõem desafios próprios ao cultivo, o enquadramento no Norte indica que o uso racional da água e o cuidado com o solo ganham peso em anos de El Niño. O estudo não traz detalhamento por estado, de modo que a adaptação ao contexto local depende de orientação técnica.

O trabalho também sistematiza calor excessivo, déficit hídrico, chuvas intensas, salinidade, alta radiação e pressão fitossanitária em uma matriz que associa cada risco aos grupos mais vulneráveis e aos eixos de resposta, do ajuste da época de plantio à melhoria da drenagem.

Um desafio que vai além do El Niño

Braga alerta que os problemas climáticos da olericultura superam os limites de episódios isolados do fenômeno. Calor, alta demanda evaporativa, oscilações hídricas e pressão de pragas ocorrem juntos e pedem soluções integradas.

“As recomendações propostas não devem ser enxergadas como uma opção pontual, mas sim como o início de uma transição na forma como se cultivam hortaliças no Brasil, por meio de sistemas mais resilientes e adaptados climaticamente”, sugere o pesquisador Marcos Brandão Braga.

Ele resume o caminho: “Por isso, a resiliência depende da integração entre genética adaptada, manejo eficiente da água, conservação e drenagem do solo, manejo do microclima, diversificação, cultivo protegido e gestão fitossanitária”.

Produtores e técnicos interessados em aprofundar o tema podem consultar as publicações científicas da Embrapa. A validação das tecnologias conservacionistas, como o plantio direto de hortaliças, segue como etapa a ser fortalecida nas próximas pesquisas da instituição.

Com informações de Embrapa Hortaliças.

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