O guepardo americano da era do gelo não era guepardo: DNA mostra que o felino era parente da onça-parda e, no Ártico, vivia de pescar salmão

O guepardo americano da era do gelo não era guepardo: DNA mostra que o felino era parente da onça-parda e, no Ártico, vivia de pescar salmão
Reconstrução artística do Miracinonyx. Ilustração: Baperookamo, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Na América do Norte da era do gelo vivia um felino esguio, de pernas longas, com proporções parecidas com as de um guepardo. Por isso ganhou o apelido de guepardo americano. Um estudo da Universidade da Califórnia em Santa Cruz mostra que ele não era guepardo coisa nenhuma: era um parente próximo da onça-parda, o puma, a mesma espécie que vive no Brasil.

O trabalho, publicado em setembro na revista científica Current Biology, usou genomas antigos e análises de isótopos e trouxe outra surpresa: no Ártico, o felino se alimentava principalmente de peixes como o salmão.

Irmão do puma

A pesquisa confirmou que o Miracinonyx trumani era uma espécie irmã do puma moderno e se separou dessa linhagem há cerca de 2,6 milhões de anos. A semelhança com o guepardo africano era, portanto, um caso de evolução convergente: animais não aparentados que ficam parecidos por terem modos de vida semelhantes.

Os adultos pesavam em média cerca de 68 quilos, tinham perto de 90 centímetros de altura e uns 2,4 metros do focinho à ponta da cauda. O corpo esguio e as patas dianteiras longas ajudavam a percorrer as paisagens abertas do Pleistoceno, mas o animal também tinha membros anteriores fortes para agarrar e segurar presas. Era muito mais versátil do que um corredor especializado.

Pescador do Yukon

O estudo ampliou a área conhecida da espécie em cerca de 20 graus de latitude para o norte. Em lugares como Wyoming e Flórida, o felino vivia em pradarias temperadas como um predador generalista. No Yukon, no Ártico canadense, ocupava um papel diferente: os isótopos indicam que se especializou em peixes que sobem os rios para desovar, como o salmão.

Segundo a doutoranda Molly Cassatt-Johnstone, autora principal, esses felinos eram notavelmente flexíveis, como os pumas atuais em toda a sua área. A equipe também encontrou mutações em genes que regulam o ritmo circadiano, o relógio biológico, o que sugere adaptação aos dias e noites extremos do verão e do inverno do norte.

O fantasma do predador

A descoberta mexe com uma teoria famosa. O antilocapra, animal parecido com um antílope, é o mamífero terrestre mais rápido das Américas. Por décadas, cientistas explicaram essa velocidade com a ideia dos fantasmas de predadores do passado: ele teria evoluído correndo de um caçador parecido com o guepardo, que depois desapareceu. Se o Miracinonyx era mais um puma versátil do que um velocista especializado, essa explicação perde força.

A onça-parda brasileira

O puma, chamado no Brasil de onça-parda, suçuarana ou leão-baio, é o mamífero terrestre de distribuição mais ampla das Américas, do Canadá ao sul do Chile, e ocorre em todos os biomas brasileiros. Sua capacidade de viver em ambientes tão diferentes, de florestas a desertos, parece ter sido herdada da mesma linhagem que produziu o falso guepardo da era do gelo.

Perguntas frequentes

Existiu guepardo na América?

Não. O chamado guepardo americano era, segundo o DNA, um parente próximo do puma.

A onça-parda é parente do guepardo?

São parentes distantes dentro da família dos felinos, mas o puma é bem mais próximo do extinto Miracinonyx.

Com informações da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e do estudo publicado na Current Biology.

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