
O rio Negro é escuro porque carrega uma espécie de chá natural: matéria orgânica dissolvida, vinda da decomposição de folhas e raízes, que escorre de solos de areia branca da bacia e tinge a água de marrom. Como o rio leva pouco barro em suspensão, essa cor aparece quase preta quando vista em profundidade. É por isso que o maior rio de água preta do mundo parece um espelho escuro diante de Manaus.
A explicação junta geologia, química e floresta, e alguns detalhes só foram medidos nos últimos anos.
O chá da floresta
Quando folhas, galhos e raízes se decompõem, liberam compostos chamados substâncias húmicas, entre eles os ácidos húmicos e fúlvicos. São os mesmos que deixam escura a água de um chá ou de uma poça cheia de folhas. Na maior parte dos solos, a argila segura boa parte desses compostos. No alto rio Negro, porém, grandes áreas têm solos arenosos, cobertos por vegetação de campinarana, que deixam a matéria orgânica passar.
Esses solos são os podzóis, também chamados espodossolos: camadas espessas de areia clara por cima de horizontes mais escuros e ricos em matéria orgânica. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Toulon, na França, mostraram em 2011 que esses horizontes profundos da Amazônia guardam muito mais carbono do que se imaginava. A estimativa para as áreas de podzol da bacia chegou a cerca de 13,6 bilhões de toneladas de carbono.
Um estudo posterior do mesmo grupo, de 2017, concluiu que as zonas mais encharcadas desses solos são a principal fonte da matéria orgânica dissolvida que chega à rede de rios. Pelos cálculos, alguns desses horizontes levaram de 15 mil a 25 mil anos para se formar, e outros mais de 150 mil anos. Ou seja, a cor do rio Negro sai de solos muito antigos.
Água ácida e pobre em sais
A mesma matéria orgânica deixa a água ácida. E como as areias da bacia têm poucos minerais para liberar, o rio Negro é pobre em sais dissolvidos e em nutrientes. Isso se reflete na vida aquática: as águas pretas produzem menos alimento na base da cadeia do que os rios barrentos.
Águas brancas, pretas e claras
Nos anos 1950, o limnólogo alemão Harald Sioli dividiu os grandes rios amazônicos em três tipos, pela cor e pela química:
- águas brancas, na verdade barrentas, ricas em sedimentos que descem dos Andes, como o Solimões, o Madeira e o próprio Amazonas;
- águas pretas, escuras e ácidas, como o rio Negro;
- águas claras, transparentes e esverdeadas, como o Tapajós e o Xingu, no Pará.
Uma revisão de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), publicada em 2013, concluiu que a química dos rios varia mais do que Sioli supunha, mas que a classificação continua válida pela simplicidade. Em 2020, uma síntese de 400 publicações científicas sobre a química dos rios amazônicos, com participação do INPA, propôs cinco tipos: branco, preto, claro e dois intermediários.
A cor medida do alto
Em 2024, uma equipe liderada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pesquisadores franceses, mediu a matéria orgânica colorida em rios, afluentes e lagos da bacia do rio Negro. A intensidade da cor variou cerca de dez vezes entre os pontos e foi mais alta nos rios do curso superior. Segundo o estudo, tipo de solo, floresta densa, chuva abundante e pouca erosão são os fatores que mais influenciam essa produção.
A equipe mostrou ainda que a cor da água, captada por sensores, permite estimar quanto carbono orgânico está dissolvido no rio. É um passo para acompanhar o rio Negro por satélite.
O Encontro das Águas
Diante de Manaus, o rio Negro encontra o Solimões. A água preta e a água barrenta correm lado a lado por quilômetros antes de se misturar, por causa das diferenças de temperatura, velocidade e carga de sedimentos entre os dois rios. Dali em diante, o rio passa a se chamar Amazonas no Brasil. O fenômeno é um dos cartões-postais da Amazônia e mostra, a olho nu, os dois tipos de água de Sioli.
Perguntas frequentes
Por que a água do rio Negro é escura?
Por causa da matéria orgânica dissolvida, como ácidos húmicos e fúlvicos, que vem de solos arenosos da bacia e tinge a água.
A água do rio Negro é suja?
Não. A cor é natural e vem da floresta e do solo, não de poluição.
Por que o rio Negro e o Solimões não se misturam logo?
Porque têm temperatura, velocidade e quantidade de sedimentos diferentes, e por isso correm lado a lado por alguns quilômetros.
Existem outros rios de água preta?
Sim. A Amazônia tem muitos igarapés e rios de água preta, mas o rio Negro é o maior deles.
Com o carbono guardado nos solos e a cor medida por sensores, o rio Negro virou também um indicador de como a floresta e o clima se conectam na Amazônia.
Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), da Universidade de São Paulo (USP) e de estudos publicados nas revistas Biogeosciences e Remote Sensing.
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