
Datação por radiocarbono coloca o esqueleto entre 987 e 1052 e reduz a dois os candidatos à identidade do homem enterrado na abadia londrina.
Um nome gravado no calcário parecia resolver o enigma: Valerius Amandinus. Mas o esqueleto que repousava dentro do sarcófago romano da Abadia de Westminster, em Londres, não era dele. Uma pesquisa publicada no Journal of the British Archaeological Association indica que os ossos pertencem a um homem medieval, possivelmente um dos dois abades que comandaram o mosteiro beneditino no fim da época anglo-saxã.
O estudo, intitulado Westminster Abbey’s Roman Sarcophagus and its Afterlife, reúne escavações e análises feitas ao longo de anos no entorno da antiga sacristia de Henrique III.
Um caixão que mudou de dono
A inscrição homenageia Amandinus, um britânico de posses que viveu entre os anos 300 e 400 da nossa era. A tampa, porém, carrega uma grande cruz latina, símbolo de um sepultamento cristão que, pelo estilo, data de aproximadamente os séculos X ou XI. A conclusão é que a peça de pedra foi reaproveitada séculos depois por outra pessoa.
A trajetória moderna do sarcófago é quase tão complicada quanto a antiga. Operários toparam com ele por acaso em 1820 e quebraram a tampa em seis pedaços. Em 1869, a peça foi escavada formalmente e a tampa, reparada.
Depois disso, o paradeiro do ocupante ficou incerto. Os pesquisadores chegaram a acreditar que o esqueleto havia desaparecido, até 2016, quando o sarcófago chegou a um ateliê de conservação. Ao levantar a tampa, a equipe encontrou um esqueleto quase completo ainda lá dentro.
O contorno de cal que revelou um caixão dentro do caixão
Em 2016 apareceu outra pista: um contorno retangular desenhado por resíduos de cal branca, material historicamente usado em sepultamentos. Não restava nenhum vestígio físico da estrutura, mas o arqueólogo consultor da abadia, Warwick Rodwell, tem uma explicação.
“Although no physical traces of that feature remained, it can only have been a timber coffin, which has completely decayed over the course of the seven centuries that the sarcophagus was buried in the sacristy courtyard.”
Em tradução livre, Rodwell afirma que, embora não restem vestígios, só pode ter sido um caixão de madeira, totalmente decomposto ao longo dos sete séculos em que o sarcófago ficou enterrado no pátio da sacristia. O enterro, portanto, era um caixão dentro de outro: um recipiente romano adaptado para um ocupante cristão.

O que dizem os ossos e o radiocarbono
Um especialista em ossos humanos estimou que o homem morreu entre os 35 e os 49 anos e tinha cerca de 1,75 m de altura (5 pés e 9 polegadas). A avaliação corrige a feita no século XIX, que descrevia um homem mais jovem e mais baixo.
A datação por radiocarbono forneceu a evidência cronológica decisiva. Segundo o estudo publicado no Journal of the British Archaeological Association, o esqueleto pertence a um intervalo entre 987 e 1052. Para Rodwell, isso confirma que a reutilização do sarcófago e a remodelação da tampa ocorreram no período anglo-saxão tardio.
O trabalho usa dados de investigações no entorno da antiga sacristia de Henrique III, incluindo o trabalho do programa Time Team, do Channel 4, em 2009, e escavações concluídas em 2025.
Dois abades na lista de suspeitos
O sepultamento elaborado sugere alguém de grande prestígio. Os pesquisadores favorecem Aelfwig, monge de Westminster que se tornou abade e morreu por volta de 1020. Seu sucessor, Wulnoth, morto em 1049, é a outra possibilidade.
“We have two viable contenders for the occupant of the sarcophagus. We do not know the date of birth of either. But either would fit equally well if we assume the Abbot was in his early twenties when the appointment was made and close to fifty when he died. The fact that Aelfwig was already a monk of Westminster might favor him.”
Rodwell diz, em resumo, que há dois candidatos viáveis, que nenhuma data de nascimento é conhecida e que ambos se encaixariam igualmente na hipótese de um abade nomeado aos vinte e poucos anos e morto perto dos cinquenta. O fato de Aelfwig já ser monge de Westminster pode favorecê-lo.
Nenhuma identificação está confirmada. Trata-se de hipótese, não de conclusão.
Um fenômeno que também conversa com a Amazônia
O reaproveitamento de objetos e espaços de culto por novas gerações não é exclusivo da Europa. Na Amazônia, sítios arqueológicos com urnas funerárias de populações pré-coloniais também passam por reocupações e reinterpretações, e exigem datação cuidadosa para que não se atribua a um povo o que pertence a outro. O caso de Westminster mostra o mesmo princípio: uma inscrição, sozinha, pode contar só parte da história, e a cronologia científica é o que separa a lenda do registro.
Segundo a Abadia de Westminster e os autores do estudo, o esqueleto foi datado entre 987 e 1052 e continua sem identidade confirmada. Novas análises sobre os restos e sobre os registros da abadia podem reforçar a candidatura de Aelfwig ou de Wulnoth.
Com informações de Journal of the British Archaeological Association e Abadia de Westminster.
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