
As paredes do Grand Canyon, nos Estados Unidos, guardam camadas de rocha que contam cerca de 2 bilhões de anos de história da Terra. Mas há um buraco nessa história: entre 520 milhões e 1,8 bilhão de anos atrás, o registro quase desaparece. É como se alguém tivesse invadido um museu e levado uma ala inteira. Um estudo propõe um suspeito para o roubo: um penhasco gigante que se estendia por quase toda a América do Norte.
O trabalho foi publicado em agosto na revista científica Geology por uma equipe liderada pelo geólogo Thomas Gernon, da Universidade de Southampton, no Reino Unido.
A Grande Discordância
Os geólogos chamam esse salto de Grande Discordância. No Grand Canyon, ele é visível como uma linha: rochas muito antigas e deformadas, embaixo, cobertas diretamente por arenitos bem mais recentes, sem as camadas intermediárias. Explicar para onde foi esse bilhão de anos é um dos casos mais antigos e difíceis da geologia.
Um penhasco de continente inteiro
Com modelos de computador que simulam a evolução da Terra ao longo de centenas de milhões de anos, a equipe propõe que uma escarpa gigantesca começou a se formar há cerca de 800 milhões de anos, quando o supercontinente Rodínia se partiu. Ela teria se estendido por grande parte de Laurentia, o antigo núcleo da América do Norte, do que hoje é o Alasca até o Arizona, com um a dois quilômetros de altura.
Encostas tão íngremes são ideais para a erosão. Chuva, gelo e gravidade foram arrancando camada após camada, como ondas apagando a areia da praia, até sumir com um bilhão de anos de rochas. Segundo Gernon, nenhum estudo anterior tinha sugerido uma escarpa de escala continental na região, e a hipótese é uma explicação simples e plausível para a erosão imensa.
A ajuda do gelo
O desaparecimento coincidiu com a Terra Bola de Neve, um período de glaciação extrema em que mantos de gelo podem ter avançado dos polos até perto do equador. As geleiras, ao se expandir, arrastam enormes quantidades de rocha. E a própria escarpa, por ser alta, criava condições ideais para o gelo se formar e crescer.
Em outro estudo, publicado na Science, Gernon e colegas mostraram como uma escarpa formada por movimentos tectônicos ajudou a iniciar o manto de gelo da Antártida Oriental há cerca de 34 milhões de anos. Os picos expostos funcionaram como fábricas de geleiras.
O Brasil tem uma grande escarpa
Escarpas desse tipo não são raridade. O Brasil tem uma das mais famosas do mundo: a Serra do Mar, que acompanha boa parte do litoral do Sudeste e do Sul e surgiu ligada à separação entre a América do Sul e a África. Suas encostas íngremes também são moldadas pela erosão e pelos deslizamentos, como mostram as tragédias de chuva no litoral paulista e fluminense.
Perguntas frequentes
O que é a Grande Discordância?
É uma lacuna no registro de rochas, em que camadas de centenas de milhões a mais de um bilhão de anos simplesmente não existem, visível no Grand Canyon.
O que foi a Terra Bola de Neve?
Um período, há mais de 600 milhões de anos, em que o gelo pode ter coberto quase todo o planeta.
Com informações da Universidade de Southampton e do estudo publicado na Geology.
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