
A Grande Esfinge de Gizé não é o único rosto antigo e de pedra da região a ter perdido o nariz. Um crânio fóssil de crocodiliano, encontrado no mesmo calcário de cerca de 45 milhões de anos que os egípcios usaram para esculpir a Esfinge, também está sem a ponta do focinho. E, mesmo quebrado, revelou ser um novo ramo da família dos gaviais.
A espécie foi batizada de Herugavialis cairensis e descrita em outubro de 2026 na revista científica Royal Society Open Science.
Um fóssil de 1927
O crânio foi recolhido em colinas perto do Cairo e descrito em 1927 por pesquisadores alemães, que o classificaram como uma espécie extinta de Tomistoma, gênero que hoje tem uma única espécie viva, no Sudeste Asiático. Estudos evolutivos mais recentes, porém, indicavam que essa classificação não se encaixava.
Em 2023, durante o doutorado na University College London, o paleontólogo Paul Burke foi à Alemanha estudar o fóssil em detalhe. A equipe mediu o crânio com cuidado e usou tomografia por raios X para examinar o interior das cavidades do cérebro e do nariz.
Um novo gênero
As medidas foram comparadas com as de gaviais vivos e fósseis. O resultado mostrou que o suposto Tomistoma egípcio era, na verdade, um gênero de gavial ainda não descrito. O nome homenageia Heru, como os egípcios chamavam o deus Hórus, associado à Grande Esfinge. A coincidência do focinho quebrado completou a ligação com a estátua.
Segundo Burke, hoje no Museu Sueco de História Natural, em Estocolmo, a mesma formação geológica já forneceu fósseis de peixes, tubarões e mamíferos, mas este é o primeiro com um nome ligado à Esfinge.
Um predador do litoral
Hoje, os gaviais vivem apenas em água doce. Dezenas de milhões de anos atrás, porém, esses répteis também ocupavam ambientes de água salgada perto da costa. O Herugavialis parece ter sido um predador costeiro numa época em que o antigo oceano Tétis cobria o norte do Egito. O calcário onde ele foi encontrado se formou justamente no fundo desse mar.
Para o paleontólogo Khalafallah Salih, da Universidade Al Neelain, no Sudão, que não participou do estudo, a descoberta reforça que a evolução dos gaviais na África foi mais complexa do que se pensava. O Herugavialis não parece próximo de outros gaviais conhecidos da África ou do Mediterrâneo e teria se separado cedo da linhagem.
Gaviais na Amazônia
A família também tem história na América do Sul. Há cerca de 10 milhões de anos, gaviais gigantes como o Gryposuchus viviam no grande sistema de lagos e pântanos que cobria o oeste da Amazônia, com focinhos longos e finos especializados em pescar. Seus fósseis aparecem em rochas do Acre, do Amazonas e de países vizinhos.
Parentes ameaçados
Hoje restam poucos gaviais no mundo. O gavial da Índia e do Nepal, de focinho fino cheio de dentes em forma de agulha, é criticamente ameaçado. Burke lembra que esses animais quase não aparecem para o público, ao contrário de crocodilos e jacarés, mas continuam vivos e precisam de atenção.
Perguntas frequentes
De que rocha foi feita a Esfinge?
De calcário formado no fundo de um mar antigo há cerca de 45 milhões de anos, o mesmo onde o Herugavialis foi encontrado.
O que é um gavial?
É um crocodiliano de focinho longo e fino, especializado em comer peixes. Hoje vive em rios do sul da Ásia.
Com informações da University College London e do estudo publicado na Royal Society Open Science.
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