
Quem entra numa mata amazônica e encontra muitas castanheiras, açaizeiros ou pés de cacau talvez esteja vendo a herança de um pomar plantado há centenas ou milhares de anos. Um estudo publicado na revista Science cruzou a localização de sítios arqueológicos com a abundância de árvores em toda a bacia amazônica e concluiu que a floresta atual foi moldada, em boa parte, pela domesticação de plantas feita pelos povos indígenas antes da chegada dos europeus.
A pesquisa foi liderada pela ecóloga Carolina Levis e reuniu cientistas de instituições do Brasil e do exterior, entre elas o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, além do arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo, e do pesquisador Charles Clement, especialista em plantas domesticadas da Amazônia.
85 espécies domesticadas
A equipe trabalhou com 85 espécies lenhosas, entre árvores e palmeiras, que foram domesticadas em algum grau pelos povos amazônicos. Isso inclui plantas conhecidas de qualquer feira do Norte, como a castanha-do-pará, o açaí, o cacau, a pupunha, o tucumã e o bacuri.
Depois, sobrepôs a distribuição e a abundância dessas espécies, registradas em parcelas de inventário florestal, ao mapa de sítios arqueológicos conhecidos na bacia.
Cinco vezes mais chance de dominar
O primeiro resultado chama atenção. A Amazônia tem cerca de 16 mil espécies de árvores, mas apenas 227 delas, chamadas de hiperdominantes, respondem por metade de todas as árvores da floresta. As espécies domesticadas têm cinco vezes mais chance de estar nesse grupo seleto do que as não domesticadas.
O segundo resultado reforça o primeiro. Em toda a bacia, a abundância e a riqueza de espécies domesticadas aumentam nas florestas que ficam sobre sítios arqueológicos ou ao redor deles. No sudoeste e no leste da Amazônia, a distância até os sítios influencia fortemente quantas árvores domesticadas existem na mata.
Uma floresta com história humana
Para os autores, as comunidades de árvores da Amazônia moderna foram estruturadas, em grande medida, por uma longa história de domesticação de plantas pelos povos amazônicos. Isso não significa que a floresta seja artificial. Significa que gerações de indígenas plantaram, protegeram e selecionaram espécies úteis, e que esse manejo deixou marcas que continuam visíveis séculos depois.
O estudo se soma a outras evidências que vêm mudando a imagem da Amazônia como uma mata intocada. Terras pretas férteis, aterros, estradas antigas e geoglifos mostram que a região abrigou populações numerosas, que conviviam com a floresta e a transformavam sem destruí-la.
Do quintal à floresta
Os pesquisadores lembram que domesticar uma planta não é só plantá-la em fila. Na Amazônia, o processo passou por quintais, roças e capoeiras em que as famílias escolhiam as árvores com frutos maiores, mais doces ou com menos espinhos, protegiam mudas e espalhavam sementes ao longo de caminhos e aldeias. Quando as aldeias eram abandonadas, a floresta crescia de novo, mas mantinha as espécies favorecidas. Por isso, áreas com concentração de castanheiras ou de açaizais muitas vezes coincidem com antigas ocupações humanas.
Um debate que continua
O tamanho do impacto humano na floresta ainda é discutido entre cientistas. Parte dos pesquisadores argumenta que fatores como solo e clima também explicam a distribuição dessas árvores, e o artigo recebeu comentários e respostas na própria revista. O consenso que se formou, porém, é que a história humana precisa entrar na conta de quem estuda a ecologia amazônica.
O que isso muda hoje
A conclusão tem consequências práticas. Se boa parte da riqueza da floresta é resultado do conhecimento indígena, proteger territórios e comunidades tradicionais também é proteger a própria composição da Amazônia. Muitas das espécies que sustentam a economia da floresta, do açaí à castanha, carregam no DNA e na distribuição a marca de quem as cultivou primeiro.
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