O asteroide matou os dinossauros, mas os crocodilos sobreviveram; estudo com 7 mil fósseis mostra que o calor dos trópicos salvou o grupo

O asteroide matou os dinossauros, mas os crocodilos sobreviveram; estudo com 7 mil fósseis mostra que o calor dos trópicos salvou o grupo
Crocodilo-do-orinoco, parente sul-americano dos crocodilos que atravessaram a extinção. Foto: Wilfredor, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Há 66 milhões de anos, um asteroide caiu onde hoje é a península de Yucatán, no México, e acabou com a era dos dinossauros. Os crocodilos, que surgiram mais ou menos na mesma época que eles, passaram pela catástrofe e continuam aí. Um estudo publicado na revista Science Advances propõe uma explicação simples para essa sobrevivência: os crocodilos sempre gostaram de calor, e o calor estava justamente onde o planeta continuou habitável.

A pesquisa foi liderada pelo paleontólogo Alfio Alessandro Chiarenza, da University College London, no Reino Unido. A equipe reuniu mais de 7 mil fósseis e registros de mais de 400 espécies vivas e extintas e cruzou esses dados com modelos de computador que reconstroem o clima e a geografia da Terra ao longo de 245 milhões de anos.

Seguindo o calor por 250 milhões de anos

O resultado mostra um padrão muito estável. Em vez de se adaptar a temperaturas muito diferentes, os crocodilos e seus parentes antigos passaram a maior parte da história evolutiva acompanhando o clima quente. Quando a Terra esquentava, eles se espalhavam para novas regiões. Quando esfriava, recuavam para os trópicos.

Há cerca de 50 milhões de anos, no início do Eoceno, a temperatura média do planeta era aproximadamente 10 graus mais alta que a atual, e os polos não tinham gelo permanente. Nessa época, parentes dos crocodilos viviam em altas latitudes da América do Norte, da Europa e até da Antártida. Com o resfriamento lento dos milhões de anos seguintes, a área disponível para eles foi encolhendo em direção ao Equador.

O que aconteceu depois do impacto

Os pesquisadores simularam as décadas e os séculos logo após a queda do asteroide de Chicxulub. Testaram cenários com poeira e cinzas bloqueando a luz do Sol e com aumento de gás carbônico por causa de erupções vulcânicas.

Quando a luz do Sol caiu 5% ou 10%, as regiões perto do Equador continuaram quentes o suficiente para os crocodilos. Esses lugares teriam funcionado como refúgios, onde populações sobreviventes resistiram e depois voltaram a se espalhar. Só no cenário mais extremo, com redução de 15% da luz solar, os refúgios desapareceriam, e esse nível hoje é considerado improvável. O aumento de gás carbônico não mudou o resultado.

Trabalhos anteriores do mesmo grupo já tinham mostrado que, para os dinossauros não avianos, os ambientes adequados encolheram muito mais depois do impacto. Nas palavras de Chiarenza, o asteroide não tornou o planeta igualmente hostil para todos os grupos. A preferência antiga por calor colocou os crocodilos exatamente onde o clima resistiu melhor.

Muito mais do que os crocodilos de hoje

Chamados muitas vezes de fósseis vivos, os crocodilos tiveram parentes de formas muito variadas. A linhagem ampla, chamada de pseudossúquios, incluiu herbívoros com armadura, caçadores que viviam só em terra e gigantes de mais de uma tonelada. O Sarcosuchus, apelidado de supercroco, podia chegar a 12 metros. O Postosuchus andava em terra e conseguia se deslocar sobre duas ou quatro patas.

Mesmo com tanta diversidade, a relação com o clima ficou quase constante. O estudo identificou só duas exceções. Há cerca de 94 milhões de anos, no Máximo Térmico do Cretáceo, quando a Terra chegou a ficar 14 graus mais quente que hoje, um ramo da família passou a tolerar temperaturas ainda mais altas. E há cerca de 34 milhões de anos, na Austrália, um grupo hoje extinto se adaptou a ambientes secos, parecidos com desertos, quando o continente esfriou e perdeu chuva.

A força que pode virar fraqueza

A mesma dependência do calor que salvou os crocodilos no passado preocupa os pesquisadores no presente. Hoje, a maioria das espécies vive nos trópicos e em ambientes alagados que sofrem com caça, destruição de habitat e mudanças no clima. Saber que o grupo sobrevive acompanhando faixas de clima ajuda a entender quais populações têm para onde ir e quais podem ficar encurraladas.

No Brasil, o grupo é representado pelos jacarés, como o jacaré-açu da Amazônia e o jacaré-do-pantanal, descendentes da mesma linhagem que atravessou, com sorte e geografia a favor, uma das piores extinções da história da Terra.

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