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Sementes de melão preservadas em porto submerso revelam rota antiga da Ásia e gosto da China imperial

Sementes de melão preservadas em porto submerso revelam rota antiga da Ásia e gosto da China imperial
Ilustração: Revista Amazônia

DNA recuperado de sementes medievais indica que os melões chegaram ao leste asiático pelo sul e eram pouco doces.

Uma carga de sementes esquecida sob a água por séculos está ajudando a redesenhar a história do melão. Recuperadas em um antigo porto de Wenzhou, no sudeste da China, sementes associadas à dinastia Song conservaram material genético que permitiu identificar sua provável origem no sul da Ásia. O mesmo estudo indica que os melões cultivados entre os séculos 10 e 13 tinham polpa verde-clara, casca amarela e pouco açúcar, mais próximos de um alimento usado em preparos salgados do que das frutas doces vendidas hoje.

A descoberta foi apresentada por pesquisadores da Washington University in St. Louis e publicada em 8 de setembro de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. A análise não apenas acompanha o deslocamento de uma planta por antigas rotas comerciais. Ela também relaciona características agrícolas a preferências culturais da China medieval.

O porto que preservou uma história agrícola

As sementes vieram das escavações realizadas em 2024 no porto de Gugang, também conhecido como Shuomen Gugang. O local funcionava como ponto de ligação entre a China continental, o oceano Pacífico e o oceano Índico durante a dinastia Song, período que se estendeu aproximadamente de 960 a 1279.

A área arqueológica guardava embarcações naufragadas, porcelanas e restos de frutas importadas. Entre os materiais estavam uvas, azeitonas, lichias, kiwis e melões. O sedimento encharcado criou uma condição rara: com pouco contato com oxigênio, tecidos vegetais e fragmentos de DNA tiveram mais chances de sobreviver.

Segundo a Washington University in St. Louis, sementes de melão recuperadas no porto de Gugang, em Wenzhou, na China, preservaram DNA antigo analisado em um estudo publicado em 8 de setembro de 2026.

Uma rota pelo sul aparece como hipótese mais forte

Durante muito tempo, a origem dos melões foi associada à África. A hipótese parecia plausível porque o gênero Cucumis, ao qual a fruta pertence, reúne várias espécies silvestres africanas. Estudos posteriores, porém, encontraram parentes próximos em regiões da Austrália e no entorno do oceano Índico.

A bióloga Susanne Renner, da Washington University in St. Louis, pesquisa a evolução dos melões há mais de 25 anos. Em 2010, ela analisou cerca de 100 amostras de espécies de Cucumis da África, da Austrália e da Ásia. O trabalho apontou que os melões provavelmente surgiram na Ásia, e não na África, como se imaginava.

Os dados atuais indicam que a domesticação ocorreu de forma independente uma vez no nordeste da África e duas vezes na Índia. Também existe a possibilidade de um processo adicional no sudeste da China. As sementes do porto, contudo, apontam para a chegada de variedades já cultivadas no sul da Ásia, em vez de uma domesticação local a partir de plantas silvestres chinesas.

Os pesquisadores consideram duas rotas possíveis. A primeira seguiria ao norte, pelos caminhos ligados à chamada Rota da Seda, acompanhando as montanhas do interior da Ásia e a margem setentrional do planalto tibetano. A segunda avançaria pelo sul, por uma rota associada ao intercâmbio entre o sul da Ásia, o Sudeste Asiático e os vales do sudoeste da China.

Xinyi Liu, professor de arqueologia da Washington University in St. Louis e coautor do estudo, considera a rota meridional a hipótese mais bem apoiada pelos vestígios conhecidos. Os primeiros restos de melão encontrados na China estão em tumbas reais das épocas Han e pré-Han, no sul do país. Eles antecedem em cerca de 800 a 1.000 anos achados comparáveis em áreas ligadas à rota setentrional.

Antes da fruta doce, um alimento de polpa verde

A genética também ajudou a investigar como eram esses melões. Os sinais associados à cor sugerem uma polpa verde-clara e uma casca amarela. Essa combinação não corresponde necessariamente ao perfil das variedades modernas escolhidas para sobremesa, geralmente selecionadas por maior concentração de açúcar.

Na região do baixo Yangtzé, ainda existem tradições culinárias que usam o melão em conservas, picles e pratos salgados. A descoberta ajuda a mostrar que a fruta não tinha uma única função histórica. Além de ser consumida fresca, podia fornecer sementes ou entrar na alimentação como vegetal de sabor suave.

Essa diferença muda a leitura sobre a agricultura antiga. Quando arqueólogos encontram apenas sementes, é difícil saber se a planta era cultivada por causa da polpa, das sementes, da casca ou de alguma característica visual. O DNA acrescenta pistas sobre os genes ligados à cor e permite aproximar a planta encontrada de variedades que circulavam em outras regiões.

Quando a aparência da fruta encontra a porcelana

O estudo levanta ainda uma conexão entre agricultura e estética. A polpa verde-clara dos melões pode ter dialogado com o tom do jade, material de alto valor simbólico na cultura chinesa, e com os esmaltes verdes das cerâmicas celadon produzidas na região do baixo Yangtzé.

Durante a dinastia Song, peças de celadon eram moldadas com frequência no formato de melões. Muitos exemplares foram encontrados em Gugang, e esse tipo de porcelana circulou por diferentes pontos do leste asiático, incluindo China, Coreia e Japão. Para Liu, a preferência pela cor e pelo formato pode ter acompanhado a associação dos melões à fertilidade e à abundância.

A relação não prova que a cerâmica tenha determinado a seleção agrícola, nem que os agricultores tenham escolhido as variedades apenas por motivos decorativos. O que os dados oferecem é uma hipótese de influência mútua entre hábitos culturais e características das plantas. Os autores classificam o caso como um raro exemplo de conexão entre mudanças genéticas e valores estéticos.

O que a descoberta ensina para a arqueologia

Obter DNA de plantas antigas é difícil. O material genético costuma se degradar, e poucas escavações reúnem umidade, baixa oxigenação e proteção sedimentar suficientes para conservar sementes. Por isso, ainda são raros os estudos que ligam DNA antigo à evolução de características específicas de uma cultura agrícola.

Resultados semelhantes já foram obtidos para cevada, alguns tipos de trigo, algodão, milho e feijão. No caso do melão, a pesquisa amplia a possibilidade de reconstruir não apenas onde uma planta estava, mas também quais atributos eram valorizados pelas sociedades que a cultivavam e consumiam.

Essa abordagem interessa à arqueologia da alimentação em várias regiões, inclusive à Amazônia. Sítios com sedimentos úmidos, margens de rios e áreas alagáveis podem preservar restos orgânicos em condições especiais. A aplicação de técnicas genéticas, quando houver material adequado, pode complementar sementes, cerâmicas, ferramentas e outros vestígios usados para investigar a circulação de plantas e alimentos na região amazônica. O estudo chinês, porém, não apresenta evidências sobre a origem ou a circulação de melões na Amazônia.

A investigação publicada pela Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que uma semente aparentemente comum pode guardar informações sobre comércio, migração, agricultura e gosto. Os próximos estudos devem comparar mais amostras antigas para testar se a rota meridional foi o principal caminho de entrada dos melões na China e esclarecer se houve domesticação independente no sudeste do país.

Com informações de Washington University in St. Louis.

O que você precisa saber

Como as sementes foram preservadas?

Elas estavam em depósitos encharcados do antigo porto de Gugang, em Wenzhou. A baixa exposição ao oxigênio favoreceu a conservação de material vegetal e de fragmentos de DNA.

Os melões antigos eram iguais aos atuais?

Não necessariamente. A análise indica polpa verde-clara, casca amarela e menor doçura, características compatíveis com o consumo como vegetal, em conservas ou como fruta de sabor suave.

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