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Estudo com dados de dezenas de países mostra como sistemas…

Três espécies de mosquitos escolhem pessoas diferentes e revelam o papel das bactérias da pele

Três espécies de mosquitos escolhem pessoas diferentes e revelam o papel das bactérias da pele
Foto: acervo

Estudo com 119 voluntários mostra que não existe um único perfil humano preferido por todos os mosquitos analisados.

Uma pessoa pode atrair muito um mosquito e quase não chamar a atenção de outro. Essa diferença apareceu em um estudo da Florida International University, nos Estados Unidos, que comparou a reação de três espécies comuns do sul da Flórida a 119 voluntários. O resultado indica que a preferência dos insetos depende da combinação entre odores liberados pelo corpo e microrganismos que vivem na pele.

A pesquisa foi publicada em 4 de setembro de 2026 e analisou Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus. Nenhum participante foi picado: os braços ficaram separados dos mosquitos por uma tela, em um equipamento que permitiu medir quais pessoas atraíam mais insetos.

O mesmo cheiro não funciona para todas as espécies

Os pesquisadores esperavam encontrar alguns participantes que fossem particularmente atraentes para todos os mosquitos. Isso não aconteceu. Nenhuma das 119 pessoas foi um “ímã universal” para as três espécies, sinal de que cada inseto combina pistas químicas diferentes antes de se aproximar de uma possível refeição.

Segundo a Florida International University, a pesquisa foi realizada no sul da Flórida em 2026 e comparou a atração de três espécies de mosquitos por odores humanos e bactérias da pele. A conclusão não significa que uma pessoa esteja protegida das picadas, mas mostra que repelentes desenvolvidos para interferir em um odor específico podem não produzir o mesmo efeito em todas as espécies.

O Aedes aegypti é conhecido por viver próximo das pessoas e preferir sangue humano. A espécie pode transmitir dengue e zika, doença associada a complicações graves durante a gestação. O Aedes albopictus, chamado de mosquito-tigre-asiático, também se alimenta de seres humanos, mas ocupa ambientes urbanos e áreas mais afastadas. Entre as doenças relacionadas a ele estão dengue e chikungunya.

Já o Culex quinquefasciatus, conhecido como pernilongo doméstico do sul dos Estados Unidos, costuma preferir aves, embora também pique pessoas. Por participar do ciclo entre aves e seres humanos, pode contribuir para a transmissão do vírus do Nilo Ocidental, que em casos graves afeta o sistema nervoso.

Três espécies de mosquitos escolhem pessoas diferentes e revelam o papel das bactérias da pele
Foto: Kaylee Marrero

Como os pesquisadores mediram a preferência

O teste usou um olfatômetro, aparelho de acrílico dividido em compartimentos. O voluntário colocava o braço em uma caixa, enquanto os mosquitos eram soltos em um tubo conectado a uma câmara de atração. Uma tela impedia o contato direto, mas deixava os insetos perceberem os compostos presentes no odor da pele.

Em cada rodada, 30 mosquitos eram liberados. Cada espécie foi testada três vezes por participante, totalizando 90 insetos de cada grupo e 270 mosquitos avaliados para cada pessoa. Os pesquisadores consideraram mais atraentes os voluntários que faziam um número maior de mosquitos entrar na câmara.

Para evitar que perfumes, desodorantes e banho alterassem o resultado, os participantes não usaram fragrâncias e ficaram pelo menos 12 horas sem tomar banho antes da experiência. Depois dos testes, a equipe coletou o odor do braço e examinou amostras da pele para identificar as bactérias presentes.

O que cada mosquito procurou

O Aedes aegypti apresentou uma leve preferência por homens, mas os autores afirmam que ainda não é possível explicar essa diferença. A espécie se aproximou mais de pessoas com menor quantidade de certos álcoois cíclicos, compostos encontrados em algumas fragrâncias e produtos cosméticos. Ao mesmo tempo, mostrou maior atração quando havia mais bactérias do gênero Staphylococcus. A presença de algumas Pseudomonas esteve associada a menor atração.

O Aedes albopictus foi menos seletivo em relação à quantidade geral de odores. Ainda assim, preferiu participantes com níveis elevados de cetonas, incluindo a mesityl oxide, substância com cheiro adocicado semelhante ao mel. Também se aproximou mais de pessoas com maior quantidade de microrganismos, especialmente Streptococcus intermedius e Anaerococcus octavius. O gênero Mogibacterium apareceu associado à menor atração.

O Culex quinquefasciatus, por sua vez, preferiu pessoas com menos odor no conjunto. Entre os compostos relacionados à atração estavam monoterpenos como o alfa-pineno, encontrado com frequência em óleos essenciais. Não houve uma bactéria associada à maior atração, mas participantes menos procurados apresentaram mais microrganismos do gênero Actinomyces.

Três espécies de mosquitos escolhem pessoas diferentes e revelam o papel das bactérias da pele
Foto: Kaylee Marrero

Também surgiram elementos comuns às três espécies. O composto ethyl 2-methylbutanoate, que tem aroma frutado e é usado em fragrâncias, esteve relacionado à atração dos três grupos. Já o 1-penten-3-ol, associado a produtos com cheiro fresco, apareceu ligado a menor interesse. A bactéria Corynebacterium kefirresidentii também foi encontrada em maior quantidade na pele das pessoas mais atraentes para os três mosquitos.

Por que isso importa para a Amazônia

O estudo foi feito na Flórida, e seus resultados não permitem afirmar que moradores da Amazônia tenham exatamente os mesmos perfis de odor ou microbioma. Ainda assim, a questão tem importância direta para cidades da região, onde dengue, zika e chikungunya fazem parte dos desafios de saúde pública e onde ambientes quentes favorecem a presença de mosquitos urbanos.

Para moradores de Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, a principal mensagem prática continua sendo evitar água parada, usar telas e roupas que cubram a pele e aplicar repelentes conforme as instruções do rótulo. A pesquisa não substitui essas medidas nem apresenta um produto pronto para uso.

Uma pista para novos repelentes

Os autores levantam a hipótese de que o microbioma da pele ajude a formar a “assinatura” química que orienta os mosquitos. Como essas bactérias produzem ou modificam moléculas de odor, alterar essa comunidade poderia, no futuro, reduzir a atração dos insetos. A possibilidade é descrita como caminho de pesquisa, não como tratamento disponível.

Uma das linhas imaginadas pelos pesquisadores envolve repelentes probióticos, capazes de modificar os microrganismos da pele. Antes de qualquer aplicação prática, porém, seria necessário confirmar se os padrões se repetem em outras populações, climas e condições de exposição. Estudos posteriores também terão de separar os efeitos da alimentação, da saúde, da genética, do suor e dos produtos usados no corpo.

A pesquisa ajuda a explicar por que a experiência de uma picada não é igual para todos, mas ainda não permite prever individualmente qual mosquito escolherá cada pessoa. Os próximos passos devem testar essas associações em outros ambientes e verificar se os compostos identificados podem ser usados com segurança em estratégias de controle.

O artigo científico relacionado ao estudo está disponível em Mosquitoes can be picky about their favorite food.

Com informações de Florida International University.

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