
Pesquisa publicada na Science Advances questiona o papel do último ancestral comum de todos os seres vivos.
E se a vida na Terra não tivesse encontrado um único caminho para se tornar independente? Um estudo publicado em 6 de agosto de 2026 na revista Science Advances sugere que bactérias e arqueias podem ter desenvolvido, de forma separada, os mecanismos químicos necessários para sobreviver por conta própria. A hipótese foi formulada a partir da comparação entre proteínas presentes nos genomas desses dois grupos antigos e desafia a ideia de que todas as ferramentas metabólicas vieram prontas de um único ancestral comum.
A pesquisa trata de uma das perguntas mais difíceis da ciência: como a matéria sem vida passou a formar organismos capazes de obter energia, manter funções internas e se reproduzir? O trabalho não afirma que a origem independente da vida está comprovada, mas apresenta evidências de que a autonomia biológica pode ter surgido em dois momentos distintos da história do planeta.
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Bactérias e arqueias estão entre as formas de vida mais antigas conhecidas. As bactérias são encontradas em praticamente todos os ambientes, do solo e da água ao interior de outros organismos. As arqueias também são microrganismos, mas possuem características químicas e estruturas celulares próprias, que as diferenciam das bactérias.
Apesar dessas diferenças, os dois grupos realizam tarefas fundamentais para a sobrevivência. Eles precisam transformar substâncias, obter energia e produzir os componentes necessários para manter seus processos internos. Esse conjunto de reações é chamado de metabolismo e pode ser entendido como o sistema que sustenta o funcionamento de um organismo.
Segundo o estudo publicado na Science Advances, bactérias e arqueias utilizam enzimas estruturalmente diferentes para realizar reações biológicas semelhantes. As enzimas são proteínas que aceleram e controlam reações químicas dentro das células. A presença de ferramentas distintas para funções parecidas chamou a atenção dos pesquisadores.
O que a análise das proteínas revelou
Se bactérias e arqueias tivessem herdado de um único ancestral todo o conjunto metabólico necessário para se tornar independente, seria esperado encontrar maior semelhança estrutural entre as enzimas usadas pelos dois grupos. No entanto, a comparação apontou caminhos diferentes para alcançar resultados biológicos semelhantes.
Essa diferença pode indicar que os dois ramos receberam de um ancestral muito antigo apenas uma parte das capacidades necessárias. Depois, cada grupo teria desenvolvido suas próprias soluções químicas para obter energia e manter a vida. É uma possibilidade que lembra uma mesma invenção sendo criada por pessoas diferentes, com ferramentas e estratégias próprias.
Segundo a Science Advances, a diferença estrutural entre enzimas de bactérias e arqueias sugere que funções metabólicas essenciais podem ter evoluído de modo independente nesses dois grupos, antes que ambos alcançassem a autonomia biológica.
Entenda o caso
O LUCA, sigla em inglês para Último Ancestral Comum Universal, é o organismo hipotético do qual descendem todos os seres vivos atuais. Ele não seria necessariamente a primeira forma de vida, mas o ancestral mais recente compartilhado por bactérias, arqueias e os demais ramos conhecidos.
Na visão tradicional, o LUCA já teria um sistema metabólico relativamente completo e transmitido grande parte dessas características aos descendentes. A nova hipótese propõe um cenário diferente: o LUCA pode ter sido menos complexo, enquanto bactérias e arqueias teriam completado sua adaptação à vida independente separadamente.
Por que a hipótese é importante
A proposta muda a maneira de imaginar os primeiros capítulos da evolução. Em vez de uma única linhagem acumulando, passo a passo, todas as ferramentas químicas da vida e transmitindo-as aos descendentes, o cenário sugerido pelo estudo admite mais de uma experiência evolutiva bem-sucedida.
Isso não significa que tenham existido duas “Terras” ou dois eventos totalmente isolados de origem da vida. A interpretação apresentada é mais específica: a transição para organismos metabolicamente autônomos pode ter ocorrido de maneira independente em dois grupos que, posteriormente, passaram a fazer parte da mesma árvore da vida.
A discussão também ajuda a explicar por que a diversidade microbiana é tão importante para compreender a história do planeta. Bactérias e arqueias ocupam ambientes variados, inclusive locais extremos, e preservam características que podem ajudar os cientistas a reconstruir etapas muito antigas da evolução.
O que ainda precisa ser investigado
Como se trata de uma hipótese baseada em análises comparativas e reconstruções evolutivas, novas evidências serão necessárias para confirmar ou rejeitar a proposta. O desafio é separar características herdadas de um ancestral remoto daquelas que podem ter surgido de forma independente ao longo do tempo.
Também será necessário ampliar a comparação para outros grupos de organismos e para um número maior de proteínas relacionadas ao metabolismo. Quanto mais padrões independentes forem encontrados, mais robusta poderá ficar a interpretação sobre a origem dessas funções.
Para a Amazônia, onde a diversidade de microrganismos ainda é pouco conhecida em muitos ambientes, a discussão reforça a importância de pesquisas sobre solos, rios, áreas alagadas e locais com condições químicas incomuns. Estudos desse tipo podem revelar organismos e processos úteis para entender a evolução, além de contribuir para a biotecnologia.
Os próximos passos dependem da análise de novos genomas, da comparação entre diferentes enzimas e da busca por evidências que permitam reconstruir com mais precisão a trajetória metabólica dos primeiros seres vivos.
Perguntas frequentes
O estudo provou que a vida surgiu duas vezes?
Não. A pesquisa apresenta uma hipótese segundo a qual a autonomia biológica de bactérias e arqueias pode ter evoluído separadamente. A confirmação depende de novas evidências.
O que é o LUCA?
LUCA é a sigla em inglês para Último Ancestral Comum Universal. Trata-se do ancestral hipotético compartilhado por todos os seres vivos atuais, e não necessariamente da primeira forma de vida da Terra.
Por que bactérias e arqueias são importantes?
Os dois grupos estão entre as linhagens mais antigas conhecidas e realizam processos metabólicos fundamentais. A comparação entre eles ajuda a investigar como a vida adquiriu independência e diversidade.
Com informações de Science Advances.
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