Cidade de 4.500 anos ficou mais igualitária com o tempo: casas de Mohenjo-daro mostram desigualdade caindo à medida que a metrópole crescia

Cidade de 4.500 anos ficou mais igualitária com o tempo: casas de Mohenjo-daro mostram desigualdade caindo à medida que a metrópole crescia
Foto: Saqib Qayyum/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0). Ruínas de Mohenjo-daro, no Paquistão.

Mohenjo-daro, uma das maiores cidades da Idade do Bronze, no vale do rio Indo, no atual Paquistão, parece ter ficado mais igualitária com o passar dos séculos, e não o contrário. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Antiquity, por Adam Green, Iqtedar Alam e Cameron Petrie, da Universidade de Cambridge, mediu o tamanho das casas da cidade e calculou o índice de Gini, a mesma régua usada hoje para medir desigualdade de renda nos países. Em um dos bairros, o índice caiu de 0,39, por volta de 2500 a.C., para 0,23, por volta de 2100 a.C.

No índice de Gini, zero significa igualdade total e 1, desigualdade máxima. Ver a desigualdade diminuir enquanto uma cidade cresce e enriquece contraria a ideia mais comum sobre as primeiras civilizações.

Uma cidade sem palácios

Mohenjo-daro foi construída pela civilização do Indo, também chamada de harappiana, e floresceu há cerca de 4.500 anos. Tinha ruas em grade, casas de tijolo, poços e um sistema de esgoto coberto, além de pesos padronizados usados no comércio. Ao contrário do Egito ou da Mesopotâmia, não há sinais claros de palácios, tumbas reais ou templos exclusivos de uma elite.

Por isso, muitos arqueólogos já suspeitavam que a sociedade do Indo fosse mais igualitária. Faltava uma medida.

Como o estudo mediu a desigualdade

A equipe usou as plantas das casas desenhadas pelos arqueólogos que escavaram a cidade há cerca de um século. Os desenhos foram transformados em polígonos com coordenadas, e a área de cada residência entrou num banco de dados internacional de desigualdade no passado, o projeto GINI. Assim, Mohenjo-daro pôde ser comparada com outras cidades antigas usando o mesmo método.

O resultado geral da cidade foi 0,44. Para comparação:

  • Ur, na Mesopotâmia, e Ugarit, na atual Síria, também da Idade do Bronze, passam de 0,6;
  • a cidade maia de Palenque chega a 0,75;
  • Cnossos, em Creta, com seu grande palácio, marca 0,86.

Segundo Adam Green, nos últimos anos da cidade a diferença de riqueza tinha caído a níveis típicos das primeiras aldeias agrícolas.

O bairro que permitiu ver o tempo passar

A tendência de queda vem de uma área chamada DK-G Sul, onde o arqueólogo Ernest Mackay usou pontos de referência fixos nas escavações. Isso permite separar as casas por época, algo difícil no resto da cidade. Ali, o índice cai de 0,39 para 0,23 em cerca de 400 anos. Para os autores, a queda coincide com o período em que a cidade ficou mais próspera e o traçado das ruas mais organizado, o que sugere uma forma de governo que distribuía recursos de modo mais amplo.

As críticas

O estudo tem limitações reconhecidas pelos próprios autores, que dizem que a relação entre prosperidade e igualdade não é estatisticamente robusta. A amostra do bairro é pequena: 12 casas no período mais antigo e 35 no mais recente. Outro bairro, DK-G Norte, tem índice quase duas vezes maior.

Há ainda um debate de fundo. O arqueólogo Massimo Vidale defende que as áreas escavadas são os montes elevados da cidade, onde vivia a elite, enquanto a população comum morava em subúrbios hoje enterrados sob cerca de oito metros de sedimento. Se for assim, o estudo estaria comparando casas de gente rica entre si. Além disso, o tamanho da casa é só um indicador: riqueza também se guarda em joias, contas de pedra e acesso a trabalho.

Entenda

O índice de Gini foi criado no início do século 20 pelo estatístico italiano Corrado Gini. Na arqueologia, ele é calculado a partir de dados como o tamanho das casas ou a quantidade de objetos nos túmulos, para estimar como a riqueza estava distribuída em sociedades sem registros escritos de renda.

Perguntas frequentes

Onde fica Mohenjo-daro?

Na província de Sindh, no Paquistão, às margens do rio Indo.

O que o estudo descobriu?

Que, num dos bairros, a desigualdade medida pelo tamanho das casas caiu de 0,39 para 0,23 entre cerca de 2500 e 2100 a.C.

Mohenjo-daro era mais igualitária que outras cidades antigas?

Pelo índice geral de 0,44, sim, comparada a Ur, Ugarit, Palenque e Cnossos. Mas há críticas sobre a amostra.

Quem fez a pesquisa?

Adam Green, Iqtedar Alam e Cameron Petrie, com publicação na revista Antiquity.

Novos projetos que reaproveitam os registros das escavações antigas devem ajudar a testar se a cidade inteira seguiu o mesmo caminho.

Com informações do estudo “Inequality declined in the Bronze Age city of Mohenjo-daro”, publicado na revista Antiquity, e de análises de pesquisadores da civilização do Indo.

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