Elefantes perderam 70% da população na savana africana e baleias guardam carbono por décadas, mas cientistas alertam que o clima não é argumento para salvá-los

Elefantes perderam 70% da população na savana africana e baleias guardam carbono por décadas, mas cientistas alertam que o clima não é argumento para salvá-los
Foto: Wayne and Pam Osborn via

Revisão publicada na Current Biology avalia até que ponto restaurar elefantes e baleias ajuda contra o aquecimento global e aponta o que ainda é incerto.

Um elefante-da-savana pode pesar várias toneladas, e uma baleia-azul tem o tamanho de um ônibus. Em seus corpos, esses animais guardam carbono que, de outra forma, estaria na atmosfera. Isso faria de protegê-los uma ferramenta contra o aquecimento global? Uma revisão científica publicada em 19 de outubro na revista Current Biology, liderada por Andrew Abraham, pesquisador da Northern Arizona University, nos Estados Unidos, responde com cautela: ainda não há números sólidos para sustentar essa promessa.

O que os cientistas avaliaram

Os autores reuniram a pesquisa disponível sobre como a megafauna influencia o ciclo do carbono, com foco em elefantes e baleias. O trabalho está publicado na Current Biology. A conclusão central é que a restauração de populações animais é fundamental sobretudo para frear o declínio e a extinção de espécies, e não como estratégia climática isolada.

Os pesquisadores classificam como de "alto risco" investir em restauração animal expressamente por ganhos climáticos. Também levantam preocupação com a possível ligação desses benefícios a instrumentos controversos, como créditos e compensações de carbono.

"We all want money to go towards wildlife conservation", disse Ethan Duvall, coautor e diretor executivo do Amazon Research and Conservation Collaborative, ao Mongabay. "We want elephants to be restored. We want whales to be restored."

Um declínio de séculos

Os elefantes africanos já percorreram o continente em grandes manadas. Embora seja difícil chegar a números exatos, alguns cientistas estimam que, nos últimos cinco séculos, a ação humana provocou a perda de 98% dos elefantes do continente.

Um número mais recente e muito citado, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), indicava 1,3 milhão de elefantes na África nos anos 1970. Pesquisas posteriores sugerem que os elefantes-da-savana (Loxodonta africana) caíram 70%, por caça e perda de habitat. Os elefantes-da-floresta (Loxodonta cyclotis) provavelmente recuaram 90%.

Carbono no corpo, nas fezes e no fundo do mar

As baleias aparecem na discussão por motivos parecidos. Por serem os maiores animais que já existiram, seus corpos funcionam como reservatórios de carbono ao longo de décadas de vida. Outras pesquisas descrevem uma "bomba de baleias": os dejetos ricos em nutrientes alimentam o fitoplâncton, que absorve grandes quantidades de gás carbônico. Quando morrem e afundam, as carcaças alimentam organismos de águas profundas e mantêm o carbono longe da atmosfera.

Os animais, porém, também exalam CO2 e liberam carbono pela digestão. No caso dos elefantes, o efeito varia conforme a região. Na bacia do Congo, os elefantes-da-floresta dispersam sementes e favorecem o crescimento e a recuperação da mata. Já a tendência de derrubar vegetação pode destruir árvores que sequestram carbono, mas, ao conter o avanço da biomassa lenhosa, também pode reduzir o risco de incêndios que liberam grandes volumes de carbono. Por essa complexidade, os autores chamam os elefantes de "dynamic engineers in carbon cycling".

Por que as florestas ainda dominam a conta

Durante muito tempo, o debate sobre carbono em ecossistemas terrestres girou em torno das plantas. As florestas tropicais guardam enormes estoques: os cerca de 65 bilhões de toneladas da bacia do Congo equivalem a mais de seis anos de emissões globais de CO2 da indústria e dos combustíveis fósseis. Pesquisas sobre o papel dos grandes animais ganharam força pouco mais de uma década atrás, incluindo espécies a partir de 45 quilos, como lobos, chimpanzés e orangotangos.

Quanto vale um elefante?

Os autores desaconselham atribuir um papel fixo de fonte ou sumidouro de carbono a um animal, ou um valor financeiro. Um relatório de 2020 liderado por Ralph Chami, do Fundo Monetário Internacional, estimou em US$ 1,75 milhão o valor de um elefante-da-floresta no combate à mudança climática, e em US$ 2 milhões o de uma baleia.

Oswald Schmitz, professor da Universidade Yale e autor de um artigo de referência de 2014, "Animating the Carbon Cycle", que não participou do relatório, diz que a intenção era mostrar que cada animal tem valor. "This is real dollars and cents", afirma, mesmo que os números não sejam exatos.

Abraham pondera: "It’s interesting to explore, but we just need to make sure that these things have full backing [of science] before we go all in on them."

Tempo e escala

Os autores apontam dois obstáculos. Os efeitos desses animais sobre a paisagem levam décadas ou séculos para aparecer, enquanto a redução das emissões, principalmente pelo fim do uso de combustíveis fósseis, é urgente. Além disso, a restauração animal dificilmente alcançaria escala suficiente para ajudar a atingir a meta de emissões líquidas zero até 2050, acordada no Acordo de Paris, de 2015.

Segundo Duvall, há também o risco de "false confidence" e de resultados "perversos", como mudar o manejo da fauna para priorizar ganhos de carbono em detrimento da saúde do ecossistema. Ele alerta para possível reação negativa dentro de uma década, caso se conclua que os benefícios prometidos não se materializaram.

O que ainda falta medir

Schmitz concorda que "the science isn’t settled" e que é preciso calcular a incerteza. Ele defende horizontes de 50 a 100 anos, não de cinco ou dez. Pesquisas em andamento sugerem que o retorno sustentado de grandes animais pode estabilizar a dinâmica do carbono ao longo de décadas, o que, para ele, reforça a restauração da vida selvagem tanto pela biodiversidade quanto pelo clima.

Schmitz, Abraham e Duvall estiveram entre mais de 350 especialistas que, em junho, formularam um "Scientific Consensus on Wildlife and Climate". O consenso, segundo Schmitz, é qualitativo. "We don’t know for an individual animal species in this kind of ecosystem how much carbon will they control in terms of capture and storage, and that really needs to be better quantified", diz.

O que isso significa para a Amazônia

Duvall dirige uma organização dedicada à pesquisa e conservação na Amazônia, e a lógica da revisão vale para a região: proteger fauna e floresta é essencial para a biodiversidade, mas o debate sobre créditos de carbono atrelados a animais exige base científica antes de virar política. Os autores não apresentam dados sobre espécies amazônicas, e a necessidade de medir densidade de animais e seus efeitos, apontada por Schmitz, segue em aberto. O próximo passo é a realização de experimentos de longo prazo que quantifiquem quanto carbono cada espécie realmente captura e armazena.

Com informações de Mongabay.

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