
Clonagem da ovelha escocesa revelou que células adultas podem ser reprogramadas e abriu caminho para novas terapias.
Uma célula retirada de uma glândula mamária de uma ovelha adulta acabou produzindo um animal inteiro. O resultado, que parecia contrariar a própria lógica da especialização celular, aconteceu em julho de 1996, no Instituto Roslin, na Escócia. Trinta anos depois, o nascimento de Dolly continua influenciando pesquisas que vão muito além da clonagem: da criação de animais de produção à possibilidade de fabricar tecidos e órgãos personalizados.
A ovelha não foi apenas uma cópia biológica. Seu nascimento demonstrou que uma célula já especializada ainda guardava todas as instruções genéticas necessárias para iniciar o desenvolvimento de um novo indivíduo. A descoberta alterou o entendimento sobre o que acontece dentro das células e transformou a reprogramação celular em uma das áreas mais promissoras da Biologia moderna.
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Antes de Dolly, outros organismos já haviam sido clonados a partir de células adultas. Um sapo, por exemplo, foi produzido por esse método em 1962, em um experimento conduzido por um cientista inglês. A novidade escocesa foi aplicar o princípio a um mamífero, grupo cuja reprodução envolve estruturas embrionárias e mecanismos celulares mais complexos.
O professor Moysés dos Santos Miranda, do Programa de Pós-Graduação em Reprodução Animal na Amazônia, da Universidade Federal do Pará, explica que o feito teve duas consequências principais. A primeira foi técnica, por mostrar uma nova possibilidade de reprodução animal. A segunda foi conceitual, por comprovar em mamíferos que uma célula somática adulta poderia ser levada de volta a um estado semelhante ao embrionário.
“A Dolly foi o primeiro mamífero produzido a partir de uma célula somática de outro mamífero já adulto”, afirma Moysés Miranda.
Na prática, a equipe precisou retirar o núcleo da célula adulta e inseri-lo em um óvulo sem núcleo. O óvulo funcionou como ambiente capaz de reorganizar o material genético e iniciar o desenvolvimento embrionário. Essa operação ficou conhecida como transferência nuclear de célula somática.
Da ovelha clonada às células que podem mudar de função
A consequência mais curiosa de Dolly não foi a multiplicação de animais idênticos, mas a abertura de uma rota para a medicina regenerativa. O experimento ajudou a sustentar a ideia de que células maduras poderiam ser reprogramadas sem a necessidade de produzir um clone completo.
Essa linha de pesquisa levou, em 2007, ao desenvolvimento das células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas pela sigla iPS. O cientista japonês Shinya Yamanaka conseguiu transformar células adultas em células com capacidade de originar diferentes tipos celulares. A técnica aproveitou o princípio demonstrado por Dolly, mas dispensou a clonagem e o uso de um óvulo.
Segundo a UFPA, o nascimento de Dolly, em julho de 1996, no Instituto Roslin, comprovou em mamíferos a possibilidade de reprogramar o núcleo de uma célula adulta. Esse conhecimento passou a ser associado a estudos sobre desdiferenciação, rediferenciação e reprogramação epigenética.
As células iPS podem ser direcionadas em laboratório para formar células do coração, do sistema nervoso, do pâncreas e de outros tecidos. A expectativa é que, no futuro, sejam usadas em terapias individualizadas, com material do próprio paciente. A técnica também pode ajudar a estudar doenças e testar medicamentos sem depender exclusivamente de modelos animais ou de células embrionárias.
A importância dessa mudança foi reconhecida pelo Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2012, dividido por Shinya Yamanaka e John Gurdon, pioneiro nos estudos de clonagem de anfíbios. O prêmio ajudou a consolidar a ligação histórica entre os experimentos anteriores e a medicina regenerativa contemporânea.
A idade de Dolly e um temor que perdeu força
O nascimento da ovelha também alimentou uma dúvida que acompanhou a clonagem por anos: um clone herdaria a idade biológica do animal que forneceu a célula? A preocupação estava relacionada aos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos e usadas como um dos indicadores do envelhecimento celular.
De acordo com Moysés Miranda, o processo de reprogramação inclui a reorganização da idade celular. Estudos posteriores indicaram que clones não têm, por definição, expectativa de vida menor do que animais não clonados. A saúde de cada indivíduo, porém, também depende das condições de gestação, do manejo, da espécie e da eficiência do procedimento.
Essa última variável continua sendo um obstáculo. Produzir um mamífero a partir de uma única célula somática exige várias etapas e apresenta limitações de eficácia. Ao longo de três décadas, pesquisadores aprimoraram protocolos para ajudar o óvulo a reprogramar o núcleo, mas a técnica ainda não se tornou simples, barata ou previsível em todas as situações.
O legado chegou aos laboratórios da Amazônia
Na Universidade Federal do Pará, a influência de Dolly apareceu primeiro em pesquisas com animais de produção. Entre 2004 e 2014, uma linha coordenada pelo professor Otávio Ohashi, do Instituto de Ciências Biológicas, produziu diversos clones bovinos em parceria com a iniciativa privada. Ohashi morreu, mas a linha científica continuou influenciando novos trabalhos.
No Laboratório de Embriologia Animal, no Instituto de Medicina Veterinária da UFPA, em Castanhal, Moysés Miranda coordena pesquisas que acompanham a passagem da clonagem tradicional para métodos de reprogramação celular. Em parceria com a Universidade de São Paulo, o grupo trabalha para estabelecer a técnica de células iPS em búfalos.
O interesse amazônico é direto. A possibilidade de multiplicar características genéticas desejáveis pode acelerar a reprodução de animais adaptados às condições regionais, embora isso dependa de avaliações de saúde, produtividade, diversidade genética e impacto econômico. A tecnologia não substitui o manejo nem resolve sozinha os desafios da pecuária nos estados da Amazônia Legal.
Em uma etapa ainda mais avançada, pesquisadores imaginam produzir gametas em laboratório. Se essa possibilidade se tornar segura e eficiente, poderá ampliar a reprodução de animais de produção e preservar materiais genéticos de interesse. Ainda assim, trata-se de uma perspectiva científica, não de uma aplicação disponível em escala comercial.
O que a clonagem humana não significa
A repercussão de Dolly também provocou debates sobre a reprodução de seres humanos. A clonagem humana reprodutiva é proibida, e o avanço das pesquisas com células iPS não equivale à criação de pessoas clonadas. O objetivo mais discutido atualmente é produzir células, tecidos e, eventualmente, estruturas capazes de atender pacientes específicos.
O futuro anunciado pelo experimento de 1996, portanto, não está necessariamente em fabricar cópias de animais ou pessoas. A transformação mais profunda está em compreender como uma célula especializada pode mudar de identidade. É essa evolução, iniciada por uma ovelha escocesa e hoje investigada também em Castanhal, que mantém Dolly presente na ciência três décadas depois.
Com informações de Universidade Federal do Pará.
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