
Estudo publicado na Science Advances encontrou padrões estatísticos semelhantes em aves, baleias e fala humana.
Um estudo internacional identificou em cantos de canários-da-terra-de-Bengala uma organização estatística semelhante à encontrada na linguagem humana. Os pesquisadores analisaram como os filhotes aprendem os sons dos adultos e descobriram que sequências muito usadas tendem a ser mais curtas, enquanto combinações menos frequentes costumam ser mais longas. O mesmo padrão já foi observado em cantos de baleias jubarte, o que reforça a hipótese de que formas sofisticadas de comunicação podem evoluir culturalmente em espécies diferentes.
A pesquisa foi publicada na revista Science Advances e reuniu cientistas de instituições do Japão, do Reino Unido e de Israel. O trabalho aplicou conhecimentos usados para estudar a aquisição da linguagem por bebês humanos à análise de registros sonoros produzidos por aves durante diferentes etapas do desenvolvimento.
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O canário-da-terra-de-Bengala, conhecido em inglês como Bengalese finch, é uma ave frequentemente usada em pesquisas sobre aprendizagem vocal. Ao contrário de animais que nascem produzindo sons praticamente completos, os filhotes dessa espécie precisam ouvir adultos, memorizar trechos e praticar até formar o canto característico.
Esse processo tem semelhanças com a maneira como crianças humanas aprendem a falar. Primeiro, os jovens são expostos aos sons produzidos pelos adultos. Depois, passam por uma fase de tentativa, repetição e ajuste, até desenvolverem uma sequência mais estável.
Os cientistas acompanharam dados de diferentes fases desse aprendizado e observaram que as notas não apareciam de maneira aleatória. Elas eram organizadas em blocos recorrentes, com relações estatísticas que ajudam a estruturar uma comunicação complexa.
“Eu estudo o canto do canário-da-terra-de-Bengala há muitos anos e pensei que o conhecia muito bem. Foi uma surpresa agradável descobrir que ele compartilha outra propriedade com o canto das baleias e a linguagem humana”, afirmou Kazuo Okanoya, da Universidade Teikyo.
O que a lei de Zipf revela
Uma das características encontradas é conhecida como lei de Zipf. Em sistemas de comunicação, ela descreve uma relação entre frequência e tamanho. Elementos usados com maior frequência tendem a ser mais curtos, enquanto unidades menos comuns podem ser maiores ou mais complexas.
Na fala humana, palavras muito frequentes costumam ser curtas. O mesmo princípio apareceu nos blocos de sílabas dos cantos analisados. Segundo os pesquisadores, essa organização pode tornar a comunicação mais eficiente e facilitar o aprendizado por parte dos indivíduos jovens.
Segundo a Science Advances, o padrão estatístico semelhante à linguagem humana foi identificado em cantos aprendidos por canários-da-terra-de-Bengala e comparado com estruturas já observadas em baleias jubarte, em estudo publicado em 2026.
Entenda o caso
A pesquisa não afirma que aves ou baleias tenham linguagem humana. Os animais não foram apresentados como capazes de conversar sobre ideias abstratas, construir frases com o mesmo significado dos humanos ou produzir uma gramática equivalente à nossa.
O resultado é mais específico: espécies que aprendem vocalizações de maneira social podem organizar seus sons usando padrões que também aparecem em sistemas linguísticos humanos. A semelhança está na estrutura estatística da comunicação, não necessariamente no significado transmitido.
Comunicação que muda entre gerações
O ponto central do estudo é a transmissão cultural. Aves canoras e baleias jubarte não dependem apenas de informações genéticas para produzir seus sons. Elas precisam conviver com indivíduos mais velhos, ouvir modelos e incorporar sequências que podem ser modificadas ao longo do tempo.
Em baleias jubarte, os cantos podem se espalhar por grandes áreas e sofrer alterações graduais. Um novo trecho incorporado por um grupo pode ser reproduzido por outros indivíduos, criando mudanças culturais dentro da população. Nas aves, o aprendizado também permite que os cantos sejam refinados e transmitidos entre gerações.
“Temos nos acostumado à ideia de que a linguagem é única no mundo natural. Ao usar conhecimentos sobre como os bebês aprendem a linguagem, conseguimos observar o canto das aves mais de perto e encontrar uma semelhança surpreendente entre espécies separadas por mais de 300 milhões de anos de evolução”, disse Simon Kirby, da Universidade de Edimburgo.
Para os autores, a descoberta pode mudar a forma de investigar a origem da linguagem. Em vez de procurar uma capacidade isolada e exclusiva dos seres humanos, os cientistas podem comparar os mecanismos de aprendizagem, transmissão social e organização sonora presentes em diferentes animais.
O que isso significa para a biodiversidade
A conclusão também amplia a importância de proteger espécies que dependem da aprendizagem social. Quando grupos de aves ou baleias desaparecem, não se perde apenas uma população. Podem desaparecer repertórios vocais, rotas de transmissão cultural e comportamentos desenvolvidos ao longo de muitas gerações.
O tema tem relação direta com a biodiversidade brasileira. A Amazônia abriga uma das maiores diversidades de aves do planeta, incluindo espécies com vocalizações complexas e comportamentos sociais ainda pouco estudados. O trabalho, porém, não analisou aves amazônicas nem apresentou evidência específica sobre espécies dos estados da região. A conexão está no campo de pesquisa: entender como os animais aprendem e transmitem sinais pode ajudar a valorizar formas de diversidade comportamental além da aparência e do número de espécies.
A pesquisa também não encerra o debate sobre a origem da linguagem. Os autores indicam que estruturas parecidas podem surgir quando uma espécie depende da aprendizagem e precisa tornar seus sinais mais fáceis de memorizar e reproduzir. Estudos futuros deverão comparar mais animais, populações e ambientes para verificar até onde essa semelhança se estende.
As próximas etapas devem incluir novas análises de cantos de aves, vocalizações de cetáceos e outros sistemas de comunicação que sejam transmitidos socialmente, com o objetivo de separar padrões universais de características específicas de cada espécie.
Perguntas frequentes
Canários têm uma linguagem como a dos humanos?
Não. O estudo encontrou padrões estatísticos semelhantes na organização dos sons, mas não demonstrou que os canários tenham linguagem humana, gramática equivalente ou capacidade de transmitir os mesmos tipos de conceitos.
O que aves e baleias têm em comum?
As duas linhagens aprendem vocalizações com outros indivíduos e transmitem esses repertórios culturalmente. Esse aprendizado pode modificar os cantos ao longo das gerações.
O que é a lei de Zipf?
É um padrão estatístico no qual elementos mais frequentes tendem a ser mais curtos, enquanto elementos menos frequentes podem ser mais longos ou complexos. Ele aparece na linguagem humana e foi identificado nos cantos analisados.
Com informações de Science Advances.
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