
Estudo liderado por biólogo evolutivo da Johns Hopkins Medicine sugere duas trajetórias distintas para a origem do voo entre répteis e aves
O primeiro voo pode ter acompanhado o surgimento dos pterossauros
Um animal com asas membranosas atravessava o céu muito antes de existirem aves modernas, e a origem dessa habilidade pode ter sido mais rápida do que a observada na linhagem que levou aos pássaros. Um estudo liderado por um biólogo evolutivo da Johns Hopkins Medicine sugere que os pterossauros talvez tenham adquirido capacidade de voo já no surgimento do grupo, há cerca de 220 milhões de anos. A hipótese contrasta com a trajetória dos ancestrais pré-históricos das aves, nos quais estruturas associadas ao voo teriam sido incorporadas de maneira gradual ao longo da evolução.
Os pterossauros eram répteis voadores, não dinossauros, embora tenham vivido no mesmo mundo e compartilhassem com eles uma origem muito antiga dentro dos répteis. O grupo apareceu no período Triássico e ocupou ambientes terrestres, costeiros e marinhos durante a Era Mesozoica. A proposta analisada pelo estudo não afirma que cada espécie tenha voado da mesma maneira nem que todos os detalhes estejam resolvidos. Ela indica que o plano corporal básico dos primeiros pterossauros pode já ter reunido as condições necessárias para o voo ativo, em vez de ter passado por uma longa sequência de fases intermediárias.
Leia também
Uma pororoca sobe o rio por dezenas de quilômetros, derruba barrancos e ameaça pequenas embarcações sob a influência da lua
Quilombos amazônicos combinam 2 referências geográficas e 1 reconhecimento territorial enquanto mantêm comunidades e práticas produtivas até hoje
Urnas funerárias do Amapá foram depositadas em um abrigo rochoso e algumas receberam uma tampa em forma de cabeça humanaAs asas dos pterossauros funcionavam de outro modo
A asa de um pterossauro não era formada por penas. Tratava-se de uma membrana de pele sustentada principalmente por um dedo muito alongado, o quarto dedo da mão, que se estendia até as laterais do corpo e, conforme a espécie, alcançava regiões próximas às pernas traseiras. Essa estrutura criava uma superfície ampla para produzir sustentação quando o animal movimentava as asas no ar. Ossos ocos ajudavam a reduzir o peso do esqueleto, enquanto músculos do peito, do ombro e dos membros anteriores participavam do controle do voo e da decolagem.
O corpo também reunia características que precisavam funcionar em conjunto. O pescoço relativamente alongado, o crânio frequentemente grande e a distribuição do peso influenciavam o equilíbrio durante o voo. Diferentemente de uma simples queda planada, o voo ativo exige produzir força com as asas, ajustar a direção e controlar a aterrissagem. Por isso, a hipótese sobre o surgimento precoce do voo depende da combinação entre fósseis, anatomia comparada e reconstruções evolutivas. Uma asa isolada não bastaria para demonstrar a capacidade. O conjunto do esqueleto é o que permite avaliar se um animal poderia decolar, bater as asas e permanecer no ar.
As aves seguiram uma sequência evolutiva mais longa
Na linhagem que deu origem às aves, várias características associadas ao voo apareceram antes de o voo plenamente desenvolvido. Dinossauros terópodes próximos das aves já apresentavam penas ou estruturas semelhantes em diferentes regiões do corpo, mas a presença de penas não prova, sozinha, que o animal voava. Elas podiam ajudar no isolamento térmico, na exibição visual, na proteção do corpo ou no controle de movimentos durante corridas e saltos. Ao longo do tempo, alterações no esqueleto, nos braços, na cauda, no peito e na forma das penas teriam criado condições cada vez mais adequadas ao voo.
Essa diferença é o ponto central da comparação. O estudo sugere que os ancestrais das aves modernas construíram a capacidade de voar por etapas, com mudanças acumuladas em animais que nem sempre apresentavam o mesmo desempenho dos pássaros atuais. Em vez de uma única transformação, a linhagem aviária teria reunido gradualmente penas mais apropriadas, membros anteriores mais eficientes e um corpo adaptado ao controle no ar. Nos pterossauros, por outro lado, a hipótese é que a configuração necessária tenha surgido de maneira mais concentrada no início do grupo. Isso não significa evolução instantânea de todos os aspectos, mas uma possível diferença no momento em que o voo funcional apareceu.
O que os fósseis permitem afirmar sobre a hipótese
O registro fóssil dos pterossauros é decisivo, mas apresenta limites. As membranas das asas, os músculos e outros tecidos moles raramente são preservados, enquanto os ossos podem aparecer comprimidos, quebrados ou incompletos. Mesmo assim, proporções do crânio, da coluna, dos membros e dos dedos ajudam a reconstruir o funcionamento do animal. Comparações com parentes fósseis e com animais voadores atuais também permitem testar se determinada anatomia seria compatível com sustentação, impulso e controle. O resultado, porém, é uma inferência científica, não uma observação direta de um pterossauro em voo.
Por isso, o verbo adequado permanece no campo da hipótese. A análise sugere que o voo pode ter estado presente desde o surgimento dos pterossauros, mas não elimina interpretações concorrentes sobre as etapas anteriores ou sobre a forma como os primeiros membros do grupo decolavam. Também não permite concluir que a evolução produziu uma solução superior em um caso e inferior no outro. Pterossauros e aves pertencem a linhagens diferentes e resolveram problemas parecidos com estruturas distintas. A comparação mostra que a evolução pode alcançar o voo por caminhos separados, combinando mudanças anatômicas em ritmos que não precisam ser iguais.
Uma história que começou antes das aves e também alcançou o Brasil
Os pterossauros viveram em continentes que estavam em transformação, quando massas de terra ainda se reorganizavam e diferentes ambientes costeiros e continentais ofereciam áreas para alimentação, reprodução e deslocamento. Fósseis encontrados no Brasil ajudam a documentar a diversidade do grupo, especialmente em áreas da Bacia do Araripe, no Nordeste. Esses registros incluem esqueletos e impressões relacionadas a pterossauros de diferentes formatos, mas a conexão brasileira não muda automaticamente a interpretação sobre a origem do voo.
A história foi divulgada em um release da Johns Hopkins Medicine reproduzido pela Newswise, com base no estudo liderado por um biólogo evolutivo da instituição. A consequência mais importante da proposta é mudar o foco da pergunta: a origem do voo não precisa seguir uma única receita. Entre a asa membranosa de um pterossauro e a asa emplumada de uma ave, há duas experiências evolutivas separadas, cada uma registrada de forma incompleta nos fósseis e ainda aberta a novos testes. É nessa lacuna, e não em uma certeza artificial, que a história ganha valor científico.
Com informações da Newswise.
Trouxeram aves de outro país para tentar salvar uma espécie que estava desaparecendo, mas os animais morreram após serem soltos; agora ambientalistas querem recuperar a floresta antes de tentar novamente nos Vosges, na França
Uma pequena ave coletada à direita do baixo Tocantins atravessou uma fronteira invisível e levou a ciência a prever perda de habitat nos próximos 40 anos
Um peixe subterrâneo avermelhado aparece em poços de 4 a 13 metros de Belém e Marajó, embora quase nunca seja encontrado por cientistasGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














