
Quando os 21 touros bravos de cerca de 500 quilos entraram nas ruas de Huamantla no dia 22 de agosto, a multidão da 72ª edição da festa tradicional se abriu em debandada desordenada, e dois espectadores não conseguiram se esquivar a tempo dos ataques que os levaram à morte em poucos instantes; o homem de 29 anos e o de 57 sucumbiram aos ferimentos enquanto outras onze pessoas saíam feridas do encontro com os animais no planalto central do México, onde a celebração mistura fé, folclore e risco físico de maneira quase ritual.
O cenário não era de arena fechada nem de curral com barreiras altas, mas de vias estreitas de cidade colonial tomadas por gente que corre, grita e se aperta nas calçadas enquanto o gado bravo avança em grupo, criando uma dinâmica em que a linha entre participação e exposição se dissolve a cada curva.
A tradição, repetida há mais de setenta edições, carrega consigo a memória de festas taurinas que atravessaram séculos no altiplano e ainda hoje reúnem moradores e visitantes dispostos a testar reflexos diante de animais cujo peso e impulsão deixam pouca margem para erro humano.
Leia também
Ele viu as cerejas vermelhas pendendo sobre o próprio jardim e pensou que já eram suas; na França colher o fruto ainda preso ao galho do vizinho é proibido e só o que cai sozinho no chão passa a ser seu
Há 100 anos, ele caminhava por dias puxando uma carroça para abastecer a floricultura da família enquanto as flores voltavam de trem; quatro gerações depois, a loja continua aberta no mesmo endereço no litoral da França
A primeira pista exigiu a retirada de 16 milhões de m² de vegetação; décadas depois, engenheiros atravessaram a mesma serra removendo 97,5% menos mata, usando túneis e viadutos de até 70 metros na Rodovia dos Imigrantes, em São PauloA corrida de rua que mistura povo e gado bravo há mais de setenta edições
A Huamantlada faz parte das festas patronais de Huamantla, no estado de Tlaxcala, cidade a pouco mais de uma hora e meia de carro da capital mexicana, distância parecida com a de São Paulo a Campinas, e carrega raízes nas tradições taurinas coloniais que se fundiram ao calendário popular do altiplano ao longo de gerações de celebração religiosa e comunitária.
O formato lembra os encierros espanhóis, com trechos de via preparados para a passagem dos touros e participação intensa de moradores e visitantes que correm ou observam de perto, muitas vezes sem a proteção de grades contínuas que separam o público do percurso em eventos mais controlados.
Naquele 22 de agosto a soltura daqueles 21 animais marcou o ponto alto de uma programação que já passou de 70 edições e costuma reunir dezenas de touros ao longo dos dias de celebração, sempre com o risco embutido de gado bravo solto em espaço aberto e estreito, onde a velocidade do bando e a densidade da multidão se combinam de modo imprevisível.
Quem conhece o calendário local sabe que a festa não se resume a um único momento de corrida, mas a uma sequência de atos em que a presença dos touros se torna o eixo de uma identidade regional que resiste a mudanças de época e de gosto urbano.
A continuidade dessa prática no corredor Puebla-Tlaxcala mostra como o altiplano mexicano preserva formas de celebração em que o corpo humano e o animal compartilham o mesmo chão de pedra e asfalto, sem a mediação completa de uma arquitetura de segurança típica de espetáculos pagos.
Meio tonelada em movimento e o corpo humano no caminho
Um touro de aproximadamente 500 quilos concentra massa e impulsão suficientes para derrubar e chifrar um adulto com facilidade quando ganha velocidade nas ruas, e os ferimentos graves nessas festas costumam vir de chifradas no tronco, esmagamento contra muros ou quedas em meio à debandada de dezenas de pessoas tentando escapar ao mesmo tempo.
A física do encontro é brutalmente simples: o animal acelera em trechos retos, muda de direção em frações de segundo e usa os chifres como extensão natural de um corpo treinado para empurrar e furar, enquanto o espectador ou corredor depende apenas de reflexo, espaço livre e sorte para não ser atingido.
Segundo o Ouest-France, o saldo da 72ª Huamantlada foi de dois mortos e onze feridos após os ataques, números que ilustram o que acontece quando a tradição de rua encontra um dia em que a margem de erro se esgota para parte da multidão.
Ferimentos torácicos, fraturas e traumatismos por impacto repetido aparecem com frequência em relatos de encierros semelhantes, porque o touro não distingue quem corre por desafio de quem apenas observava na calçada no instante em que o bando virou.
A idade das vítimas fatais, 29 e 57 anos, mostra que o risco não escolhe perfil etário específico; basta estar no caminho errado quando o animal decide avançar ou quando a pressão da multidão impede a fuga lateral. Em vias estreitas de cidades históricas, o espaço de escape se reduz ainda mais, transformando cada esquina em ponto crítico e cada grupo de pessoas em obstáculo móvel para quem tenta se afastar.
Festa de calçada que não é arena nem curral de rodeio
Diferente de uma tourada em praça fechada ou de uma vaquejada com barreiras de curral e tempo cronometrado, o cenário em Huamantla é o de animais soltos em vias da cidade durante a celebração local, o que aproxima a experiência do encierro clássico e expõe tanto quem corre quanto quem assiste nas calçadas ao avanço dos touros sem a mediação de um ringue.
As vítimas deste ano foram identificadas apenas pelas idades de 29 e 57 anos na cobertura inicial, e o episódio reforça o caráter imprevisível de uma tradição que se repete há décadas no corredor Puebla-Tlaxcala, onde o calendário religioso e o folclore taurino caminham lado a lado.
Em uma arena, o público permanece atrás de barreiras altas e o torero trabalha em espaço delimitado; na rua, a festa se dissolve no tecido urbano e a responsabilidade pela própria segurança recai sobre cada participante de modo quase individual.
Essa diferença estrutural explica por que mortes e ferimentos graves continuam a ocorrer mesmo em edições organizadas com décadas de experiência local, porque o controle total sobre o comportamento de dezenas de touros em movimento coletivo é ilusório.
Visitantes que chegam de outras cidades mexicanas ou do exterior muitas vezes subestimam a velocidade com que o clima de festa se transforma em caos pontual, quando um animal se separa do grupo ou quando a multidão trava em um gargalo de rua.
A Huamantlada, nesse sentido, funciona como espelho de outras corridas de touros em espaço aberto na América Latina e na Península Ibérica, onde a emoção do risco compartilhado convive com a estatística recorrente de acidentes graves.
O altiplano, a fé e o gado bravo no mesmo calendário
Huamantla situa-se em região de altitude elevada no estado de Tlaxcala, com clima e paisagem típicos do planalto central mexicano, e suas festas patronais costumam combinar procissões, adornos de rua e momentos de soltura de gado que reforçam laços comunitários antigos.
A presença dos touros não é um apêndice turístico recente, mas parte de uma herança que remonta a práticas coloniais adaptadas ao gosto e à devoção locais, criando um híbrido em que o sagrado e o perigo físico se encontram no mesmo fim de semana de celebração.
Moradores crescem vendo a preparação das ruas, a chegada dos animais e a tensão que precede a corrida, de modo que a Huamantlada se torna marco de identidade tanto quanto atrativo para quem vem de fora em busca de adrenalina ou de registro fotográfico.
O fato de a edição ter chegado à marca de 72 anos de continuidade indica uma capacidade de renovação anual que poucas festas populares mantêm com o mesmo formato de rua aberta, apesar das críticas periódicas sobre segurança animal e humana.
Cada nova edição reabre o debate implícito entre preservação cultural e mitigação de risco, sem que a estrutura básica da soltura em vias públicas tenha sido abandonada em favor de um modelo exclusivamente de arena.
Nesse equilíbrio instável, a festa segue atraindo multidão e gado, e o desfecho trágico de agosto apenas torna visível o que a tradição sempre carregou em seu interior: a possibilidade real de que o corpo humano não resista ao encontro com meio tonelada de animal em velocidade.
Quando a debandada não basta para salvar a todos
Em corridas de rua, a primeira reação coletiva costuma ser a fuga em bloco, com pessoas empurrando umas às outras em direção a portas, muros baixos ou trechos mais largos da via, mas essa mesma debandada pode criar novos pontos de esmagamento e impedir que alguém caído se levante a tempo.
Os dois homens que morreram na 72ª Huamantlada ilustram o limite dessa estratégia espontânea de sobrevivência, porque bastou um instante de atraso, um tropeço ou uma chifrada certeira para que o socorro posterior já não alterasse o desfecho.
Os onze feridos, por sua vez, compõem o espectro intermediário de quem sobreviveu com lesões que exigem atendimento hospitalar, desde contusões profundas até traumatismos que podem deixar sequelas.
Equipes de emergência locais e voluntários costumam se posicionar ao longo do percurso em edições desse tipo, porém a velocidade dos acontecimentos e a dispersão da multidão dificultam o acesso imediato a todas as vítimas no momento exato do impacto.
A repetição anual da festa não elimina a aleatoriedade do encontro entre touro e ser humano; apenas torna previsível que, em algum momento da série de edições, o saldo volte a incluir mortes.
Para quem observa de longe, o episódio de Huamantla entra na longa lista de acidentes em festas taurinas de rua; para a cidade e para as famílias atingidas, ele interrompe de modo definitivo a narrativa de celebração que deveria ter terminado apenas em cansaço e memória compartilhada.
Tradição que se mede em edições e também em risco acumulado
Chegar à 72ª edição significa que gerações sucessivas de huamantlecos e visitantes aceitaram, de forma explícita ou tácita, conviver com a possibilidade de ferimentos graves em nome da continuidade de um rito coletivo que mistura coragem ostentada, devoção e espetáculo de rua.
Essa aceitação não é idêntica em todos os grupos etários ou sociais, mas se manifesta na lotação das calçadas e na disposição de muitos em entrar no fluxo dos touros em vez de permanecer atrás de proteções mais rígidas.
O contraste com espetáculos equestres ou rodeios brasileiros, onde o público em geral assiste de arquibancada e os animais atuam em arenas delimitadas, ajuda a entender por que a Huamantlada choca quem não está habituado ao modelo de encierro urbano.
Ali, a festa não se contenta em ser vista de longe; ela pede proximidade, e essa proximidade é exatamente o que transforma um desfile de gado bravo em evento de alto risco sanitário e policial.
Ampliar o fato das duas mortes e dos onze feridos com o contexto da tradição, da geografia do altiplano e da física do animal de 500 quilos não suaviza o luto, mas explica como uma programação cultural reiterada pode produzir, em um único dia de agosto, um saldo que a cidade levará anos para esquecer.
A 72ª Huamantlada entra assim para a memória local não apenas como mais uma festa patronal concluída, mas como a edição em que a mistura de espectadores e touros nas ruas cobrou o preço máximo de dois homens que não conseguiram sair do caminho a tempo.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














