
Método em desenvolvimento tenta impedir que tubarões sejam fisgados na pesca de espinhel, sem retirar o equipamento usado para capturar espécies-alvo.
Um tubarão se aproxima de uma isca presa a um anzol, mas a proposta em desenvolvimento é fazer com que ele recue antes de ser fisgado. Esse é o princípio de um método repelente estudado pela Florida Atlantic University para enfrentar um dos problemas da pesca de espinhel, a captura acidental de animais que não eram o alvo da operação.
O objetivo não é retirar os anzóis do mar nem interromper toda a atividade pesqueira. A estratégia tenta separar o tubarão da isca e preservar a captura das espécies visadas pelos pescadores. O resultado esperado é uma mudança no encontro entre predador e equipamento: em vez de morder, o animal deve evitar o anzol ou abandoná-lo. A proposta ganha importância porque milhões de tubarões são capturados acidentalmente todos os anos, e muitos acabam descartados mortos, inclusive em operações realizadas nos Estados Unidos.
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Na pesca de espinhel, uma linha principal pode carregar muitos anzóis com iscas, formando uma sequência que permanece na água para atrair espécies comerciais. O equipamento não distingue perfeitamente o peixe procurado de outros animais que detectam a presa. Tubarões podem chegar à isca, mordê-la e ficar presos, mesmo quando não fazem parte do objetivo da pescaria.
Depois da captura, o animal pode ser liberado, mas a sobrevivência não é garantida. O manuseio, o tempo submerso e os ferimentos provocados pelo anzol representam riscos. Quando o tubarão é considerado sem valor comercial ou inadequado para retenção, ele pode ser descartado.
O método tenta alterar a decisão do animal
A abordagem da Florida Atlantic University trabalha com a ideia de repelir o tubarão antes do contato decisivo com a isca. Em termos práticos, o equipamento continuaria cumprindo sua função para a pesca, mas incorporaria uma barreira sensorial capaz de tornar o anzol menos atraente para o predador. A intenção é interromper a sequência que leva à mordida, ao fisgamento e à retirada do animal da água.
Essa diferença é importante porque uma solução de conservação precisa funcionar dentro da rotina da frota. Se o método exigir que cada anzol seja retirado ou que toda a técnica de pesca seja abandonada, sua aplicação tende a encontrar obstáculos operacionais e econômicos. O estudo parte de uma alternativa mais específica: afastar o tubarão do anzol errado. A expressão descreve justamente o alvo da intervenção, já que o animal capturado não era a espécie procurada pelo pescador.
Milhões de perdas atingem animais de crescimento lento
Tubarões não se recuperam rapidamente de reduções populacionais. Em muitas espécies, o crescimento é lento, a maturidade reprodutiva demora e o número de filhotes é limitado quando comparado ao de peixes que produzem grandes quantidades de ovos. Por isso, cada captura acidental pode ter um peso maior do que indicaria apenas a contagem de animais retirados do mar.
O problema também ultrapassa a sobrevivência de indivíduos. Tubarões ocupam posições relevantes nas redes alimentares marinhas e interagem com populações de presas e competidores. Quando as perdas se acumulam, populações vulneráveis podem ficar sob pressão adicional, com efeitos sobre o equilíbrio ecológico. A proposta da universidade procura agir antes da morte ou do ferimento, o que representa uma diferença em relação a medidas concentradas apenas no tratamento ou na liberação de animais já fisgados.
O resultado ainda depende de comprovação em condições reais
O verbo central neste caso é desenvolver.
Essas limitações impedem transformar a proposta em uma solução já comprovada para todas as pescarias. Um repelente pode funcionar para determinada espécie e perder eficiência para outra, além de alterar o comportamento de peixes que os pescadores pretendem capturar. A distância entre um teste controlado e o oceano envolve profundidade, correnteza, visibilidade, tipo de isca, tempo de imersão e comportamento dos animais. A redução efetiva da captura acidental precisará ser medida em operações representativas, com comparação entre equipamentos e acompanhamento da sobrevivência após a liberação.
A experiência dos Estados Unidos interessa à pesca brasileira
O caso estudado nos Estados Unidos tem conexão legítima com o Brasil porque a pesca oceânica brasileira também utiliza equipamentos com anzóis e pode registrar encontros entre espécies-alvo e animais capturados incidentalmente. Isso não permite afirmar que o método já foi testado ou validado em águas brasileiras. Permite, porém, observar uma direção de manejo que busca adaptar o aparelho de pesca em vez de depender apenas da identificação visual do animal depois que ele já foi fisgado.
Para o Brasil, a possível aplicação dependeria de testes locais, regras de fiscalização, participação dos pescadores e avaliação das espécies presentes em cada área. Um dispositivo que afaste tubarões sem prejudicar a captura autorizada teria de preservar também a segurança da operação e a viabilidade econômica da frota. A conservação seria mais consistente se a mudança reduzisse o encontro com o anzol, e não apenas tornasse mais rápida a retirada do animal depois da captura.
A origem da proposta está em um release universitário
A história tem origem em um release da Florida Atlantic University distribuído pela Newswise, apresentado como uma proposta capaz de reformar práticas pesqueiras ao conter a captura acidental de tubarões. Por isso, esta reportagem mantém a formulação de que a técnica está em desenvolvimento e pode reduzir o problema.
O ponto decisivo será saber se o repelente consegue produzir uma escolha diferente no momento em que o tubarão encontra a isca. Em uma pesca com muitos anzóis, uma pequena mudança repetida milhares ou milhões de vezes pode alterar o destino de animais que nunca deveriam ter sido capturados. A tecnologia não substitui limites de esforço, monitoramento ou proteção de áreas, mas pode acrescentar uma camada de prevenção. O ganho mais importante seria fazer com que o tubarão passe pelo equipamento e continue no mar, antes que a conservação dependa de soltá-lo vivo.
Com informações da Newswise, em release da Florida Atlantic University.
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