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Estudo com 34 anos de dados revela como fragmentos e chuva moldam a regeneração da Mata Atlântica

Estudo com 34 anos de dados revela como fragmentos e chuva moldam a regeneração da Mata Atlântica
Ilustração: IA

Levantamento liderado pela Unesp mostra que paisagens mais conectadas favorecem a chegada de sementes e a diversidade florestal.

Em uma floresta fragmentada, a recuperação pode começar com um movimento quase invisível: sementes que caem no solo carregadas pelo vento, pela gravidade ou por animais. Um estudo liderado pela Unesp reuniu dados coletados entre 1987 e 2021 para mapear, em escala inédita, os fatores que influenciam a chuva de sementes na Mata Atlântica e concluiu que a quantidade de vegetação nativa na paisagem, além da precipitação, é decisiva para a regeneração natural do bioma.

O levantamento foi coordenado por Marco Aurélio Pizo, professor do Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro, e contou com informações produzidas por dezenas de pesquisadores em diferentes áreas da Mata Atlântica. Os resultados foram publicados em 11 de agosto de 2026 no artigo “Landscape features predict broad-scale seed rain patterns across fragments of the Brazilian Atlantic Forest”, no Journal of Ecology.

O processo que determina quais florestas conseguem recomeçar

A chamada chuva de sementes é formada pelo conjunto de sementes que chega ao chão de uma determinada área. Esse material dá origem a novas árvores, recompõe a vegetação depois de distúrbios e permite que espécies ocupem trechos onde desapareceram. Aves, morcegos e primatas, incluindo bugios, estão entre os principais agentes desse transporte.

O problema é que esse processo costuma ser estudado em áreas pequenas. Os pesquisadores instalam coletores, identificam as sementes e tentam relacioná-las aos animais ou às condições ambientais que explicam sua dispersão. O método funciona em escala local, mas oferece poucas respostas sobre o que ocorre quando se compara um bioma inteiro, formado por milhares de fragmentos com tamanhos e graus de isolamento diferentes.

Segundo a Unesp, a área de vegetação nativa presente na paisagem é um dos principais fatores que predizem os padrões de chuva de sementes na Mata Atlântica, de acordo com a análise dos dados coletados entre 1987 e 2021.

Como a pesquisa transformou estudos dispersos em uma análise ampla

Em vez de iniciar uma nova coleta de campo, que exigiria uma operação extensa e demorada, o grupo procurou pesquisas já realizadas ao longo de mais de três décadas. Depois, entrou em contato com os autores para obter os registros originais, incluindo a identificação das sementes encontradas em cada coletor e a quantidade registrada.

“O que precisávamos saber não estava publicado. Era necessário conhecer, exatamente, quais sementes chegaram a cada coletor e em que quantidade. Esses dados brutos raramente são disponibilizados publicamente”, afirmou Marco Aurélio Pizo, da Unesp.

A estratégia permitiu combinar informações que, isoladamente, estavam restritas a áreas específicas. O ganho não foi apenas numérico. Ao comparar diferentes paisagens, os pesquisadores conseguiram avaliar se fatores como chuva e quantidade de mata permaneciam associados à dispersão de sementes em regiões com condições distintas.

Mais mata na paisagem significa maior possibilidade de regeneração

Os resultados apontam que a precipitação influencia a chegada de sementes, mas a quantidade de vegetação nativa tem peso especialmente importante. Paisagens com mais cobertura florestal tendem a abrigar maior variedade de plantas e animais dispersores, ampliando as chances de que sementes de espécies diferentes alcancem áreas em recuperação.

A conexão entre fragmentos também aparece como elemento central. Quando remanescentes de floresta estão ligados por corredores ou por uma matriz menos hostil, aves, morcegos e mamíferos conseguem se deslocar com mais facilidade. Esse trânsito aumenta a probabilidade de sementes atravessarem áreas abertas e chegarem a trechos onde a regeneração é necessária.

O efeito é relevante porque uma floresta não se recompõe apenas com o crescimento das árvores que já estão no local. A chegada de novas espécies pode elevar a diversidade, melhorar a estrutura da mata e aumentar sua capacidade de oferecer abrigo e alimento. Sem dispersores e sem conexão, áreas restauradas podem ficar dependentes de poucas espécies, o que limita a recuperação ecológica.

O histórico de fragmentação amplia a conta da restauração

A Mata Atlântica ocupava originalmente uma faixa contínua de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados no litoral brasileiro, além de avançar por áreas da Argentina e do Paraguai. A ocupação humana, a expansão agrícola, a urbanização e a exploração madeireira reduziram esse território e deixaram a maior parte dos remanescentes isolada.

Restam aproximadamente 23% da cobertura original, segundo os dados apresentados pela pesquisa, e a maioria dos fragmentos tem menos de 50 hectares. Essa dimensão ajuda a explicar por que a conservação de cada área remanescente está ligada à existência de outras matas próximas. Um fragmento isolado pode manter árvores adultas, mas ter dificuldade para receber sementes de espécies que dependem de animais capazes de percorrer distâncias maiores.

Dados da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais indicam uma redução nas taxas anuais de desmatamento desde 2020. Entre 2023 e 2024, houve queda de 40% na área desflorestada, o menor índice registrado nos últimos 40 anos de monitoramento. A melhora, porém, não elimina o passivo acumulado pela fragmentação.

O que a descoberta muda para a restauração

O estudo oferece uma base para definir prioridades em projetos de restauração. Em vez de considerar apenas o tamanho de uma área degradada, gestores podem avaliar a quantidade de mata existente no entorno, a distância até outros fragmentos e a possibilidade de criar corredores ecológicos. Essas variáveis ajudam a estimar se a regeneração natural terá condições de avançar ou se será necessário plantar espécies e transportar sementes.

A conclusão interessa diretamente aos estados brasileiros que abrigam remanescentes de Mata Atlântica, incluindo áreas do Nordeste, Sudeste, Sul e do interior do país. Para a Amazônia, onde a fragmentação também cresce em zonas de expansão urbana, rodoviária e agropecuária, o trabalho reforça uma lição aplicável a outros biomas: preservar conexões entre habitats pode ser tão importante quanto proteger áreas isoladas.

O levantamento não elimina as diferenças locais nem substitui o acompanhamento de campo. O tipo de solo, a composição da floresta, a presença de dispersores e o histórico de uso da terra continuam influenciando cada área. Ainda assim, a escala da análise reduz uma lacuna importante e pode orientar novas pesquisas sobre a eficiência da restauração natural.

Os próximos passos dependem de ampliar a integração entre bancos de dados, monitoramentos de longo prazo e políticas de conexão entre fragmentos, especialmente em regiões onde a queda do desmatamento ainda não foi acompanhada pela recuperação da paisagem.

Com informações de Unesp.

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