
Estimativas associadas a pesquisas do Inpa indicam uma ocupação urbana muito maior do que a imagem de floresta intocada.
Quando os primeiros europeus percorreram grandes rios da Amazônia, encontraram sinais de uma ocupação que não cabia na ideia de uma floresta sem cidades. Havia aldeias extensas, circulação intensa por rios e caminhos terrestres que conectavam diferentes comunidades. Uma estimativa divulgada em 2015, associada a pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, calculou que a região poderia reunir pelo menos 8 milhões de habitantes antes da colonização europeia.
O número máximo citado no estudo chegava a 50 milhões de pessoas. A margem ampla revela uma dificuldade central da arqueologia amazônica: muitas construções foram feitas com madeira, palha e terra, materiais que desapareceram ou foram incorporados ao ambiente ao longo de séculos.
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A ocupação descrita não correspondia necessariamente a uma única cidade com milhões de moradores. Tratava-se de uma rede de centros habitados, formada por diferentes povos e distribuída em uma área estimada de 150 mil km². As comunidades mantinham conexões por rios e estradas abertas na mata, formando um sistema regional de circulação.
Para dimensionar o território, a área mencionada é aproximadamente 100 vezes maior que o município de São Paulo. A comparação ajuda a entender que a hipótese não fala apenas de aldeias isoladas, mas de uma paisagem ocupada de maneira contínua ou articulada em vários pontos.
Segundo o estudo associado ao Inpa, a Amazônia reunia entre 8 milhões e 50 milhões de habitantes antes da chegada dos europeus ao continente, em uma área aproximada de 150 mil km². Essa é a frase central da estimativa divulgada em 2015.
Os sinais que sobreviveram ao desaparecimento das construções
Um dos principais vestígios dessa presença humana é a chamada terra preta de índio. O solo escuro costuma concentrar resíduos orgânicos, carvão, fragmentos de cerâmica e outros materiais relacionados à atividade humana. Também pode apresentar maior fertilidade do que os solos naturais de áreas próximas.
Essas características indicam que determinados trechos foram ocupados e manejados durante longos períodos. A presença de áreas cultivadas e de solo modificado amplia a compreensão sobre o modo como os povos amazônicos produziam alimentos sem necessariamente substituir toda a floresta por grandes áreas abertas.
O registro arqueológico também questiona a separação rígida entre natureza e cidade. Na Amazônia antiga, o espaço habitado podia combinar moradias, áreas de cultivo, caminhos, locais de reunião e ambientes florestais manejados. A urbanização, nesse caso, não precisava reproduzir o modelo de concreto e ruas pavimentadas conhecido hoje.
Relatos do século XVI ajudam a reabrir a discussão
Descrições feitas durante as expedições europeias são usadas como pistas para interpretar esse passado. Em junho de 1542, o missionário espanhol Gaspar de Carvajal relatou ter visto uma cidade que se estendia por 24 quilômetros, sem espaço entre uma casa e outra.
Em outro trecho, Carvajal afirmou ter sido recebido por mais de 200 canoas, cada uma com até 40 indígenas, ao atravessar um rio. O relato é uma fonte histórica, não uma medição demográfica precisa. Ainda assim, oferece uma descrição compatível com a existência de comunidades numerosas e conectadas por vias fluviais.
“Uma cidade que se esticava por 24 quilômetros sem qualquer espaço entre uma casa e outra”, escreveu Gaspar de Carvajal em seu relato de 1542.
O mesmo cronista mencionou “estradas largas, em ótima conservação” que cortavam a floresta e ligavam cidades povoadas e fortificadas. Como outros registros coloniais, o texto precisa ser analisado com cautela, pois foi produzido sob a perspectiva de um integrante da expedição europeia.
Doenças, violência e abandono mudaram a paisagem
A chegada de espanhóis e portugueses provocou rupturas profundas. Doenças introduzidas pelos europeus atingiram populações sem imunidade para diversos agentes infecciosos. A violência, a escravização e os conflitos também contribuíram para o colapso de comunidades inteiras.
Com a redução ou o deslocamento das populações, centros habitados foram abandonados. A vegetação avançou sobre casas, caminhos e estruturas construídas com materiais perecíveis. Depois de aproximadamente 500 anos, quase nada dessas formas urbanas permanecia visível na superfície.
O paradoxo é que parte das descobertas modernas só se tornou possível com a abertura de áreas provocada pelo desmatamento. A retirada da cobertura vegetal expõe marcas no solo e formas do terreno, mas também destrói o contexto arqueológico que permitiria estudar esses vestígios com mais segurança. A floresta, portanto, protege e esconde o patrimônio, enquanto a degradação pode revelá-lo e ameaçá-lo ao mesmo tempo.
O que essa história representa para a Amazônia atual
Para os estados amazônicos brasileiros, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, a principal consequência dessa pesquisa é a mudança de perspectiva. A floresta não deve ser tratada como um espaço historicamente vazio ou sem transformações humanas.
Isso não significa afirmar que toda a Amazônia era ocupada da mesma maneira, nem que existia uma única civilização organizada como uma metrópole moderna. A própria diferença entre 8 milhões e 50 milhões mostra que os pesquisadores trabalham com incertezas. A distribuição populacional variava conforme os rios, os tipos de solo, os recursos disponíveis e as formas de organização de cada povo.
A descoberta também reforça a importância de proteger sítios arqueológicos, terras indígenas e áreas de floresta. Vestígios como a terra preta podem ajudar a reconstruir técnicas agrícolas, padrões de mobilidade e relações entre comunidades que viveram na região muito antes da formação dos atuais países e estados.
A estimativa foi divulgada em 1º de setembro de 2015, em uma publicação que citou um estudo do Inpa e relatos de Gaspar de Carvajal. O avanço das pesquisas arqueológicas e das tecnologias de mapeamento deverá definir com mais precisão onde estavam esses antigos centros e como funcionava a rede que os conectava.
Com informações de Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
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