
Achados em uma caverna de Yunnan revelam como um grupo humano pouco conhecido caçava e sobrevivia há até 190 mil anos.
Uma caverna parcialmente destruída por pedreiras acabou preservando uma das melhores cenas conhecidas da vida dos denisovanos: há milhares de anos, esse grupo humano caçava cervos, bovídeos e até rinocerontes em uma paisagem de floresta de coníferas e campos abertos. A descoberta ocorreu na caverna Bianfu, na província de Yunnan, no sudoeste da China, onde uma escavação encontrou restos humanos, 1.366 artefatos de pedra e milhares de ossos de animais.
Os vestígios indicam que os denisovanos ocuparam o local durante um longo período, entre 190 mil e 70 mil anos atrás. Os ossos humanos analisados têm entre 134 mil e 167 mil anos. O conjunto é importante porque permite associar, no mesmo sítio arqueológico, quem viveu ali, quais ferramentas usou, quais animais caçou e em que ambiente sobreviveu.
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A história da caverna poderia ter terminado com a retirada de grande parte da rocha. A entrada original foi destruída pela exploração da área, mas trabalhadores encontraram fósseis de animais em 2019 e avisaram as autoridades. O alerta levou Hao Li, do Instituto de Pesquisa do Platô Tibetano, em Pequim, e outros pesquisadores a iniciar uma escavação de emergência no verão daquele ano.
As equipes abriram três trincheiras e chegaram a 6,6 metros de profundidade. No caminho, identificaram 18 camadas de sedimentos, dez delas com artefatos produzidos por hominínios. Uma dessas camadas guardava quatro dentes humanos intactos, além de um conjunto muito maior de restos ósseos.

Ao todo, foram recolhidos mais de 64 mil fragmentos de ossos. A equipe liderada por Qiaomei Fu, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, examinou o material em busca de sinais de presença humana. Vinte e dois fragmentos foram considerados candidatos. Testes moleculares mostraram que três eram de hominínios: dois pedaços de crânio e uma parte do rádio, osso do antebraço.
Proteínas identificaram os moradores da caverna
O DNA não resistiu. O clima quente de Yunnan e a idade dos fósseis dificultaram a preservação do material genético. Mesmo assim, os pesquisadores conseguiram extrair proteínas de três ossos e de dois dentes. Todos apresentavam variantes associadas aos denisovanos, sem sinais específicos de Homo sapiens ou de neandertais.
Segundo o estudo publicado na revista Nature, os cinco restos analisados pertencem a denisovanos encontrados na caverna Bianfu, em Yunnan, China, durante escavações iniciadas em 2019. Como os ossos e dentes parecem ter idades diferentes, a equipe concluiu que o local foi usado por pelo menos quatro indivíduos.
Os dois dentes analisados também traziam variantes proteicas que indicam que pertenciam a homens. A identificação amplia o mapa conhecido desse grupo humano arcaico, que foi reconhecido pela primeira vez há 16 anos graças ao DNA preservado em um osso de dedo encontrado na caverna Denisova, na Sibéria.

Uma tecnologia simples para caçar animais grandes
A Bianfu é apenas o terceiro sítio arqueológico conhecido com três tipos de evidência reunidos: restos de denisovanos, ferramentas de pedra, ossos de animais e informações sobre o ambiente. Os outros dois são a caverna Denisova, na Sibéria, e a caverna cárstica de Baishiya, no planalto do Tibete.
Entre os achados de Yunnan estão 135 lascas e os núcleos de pedra de onde foram retiradas, além de raspadores e ferramentas cortantes simples. Em comparação com utensílios produzidos por neandertais que viviam em outras áreas da Eurásia no mesmo período, o conjunto parece pouco elaborado. Isso não significa, porém, que os moradores fossem caçadores ineficientes.
A escavação identificou 1.654 ossos de animais reconhecíveis. Cervos e bovídeos, grupo que inclui animais semelhantes a bois e gazelas, aparecem em grande quantidade. Também foram encontrados restos de rinocerontes, hienas e ratos-de-bambu. Marcas de corte em muitos ossos sugerem que os hominínios abateram e processaram parte desses animais. Poucos sinais indicam que os restos tenham sido roídos por outros predadores.
Para Hao Li, a seleção das presas e as marcas nos ossos apontam para uma estratégia de caça habilidosa. Os animais abatidos, em geral, estavam em boas condições físicas. A hipótese da equipe é que os denisovanos dependiam menos de ferramentas de pedra do que outros grupos humanos, usando também sete instrumentos de osso encontrados no local. Objetos de madeira ou bambu podem ter existido, mas teriam desaparecido com o tempo.

O ambiente pode explicar a diferença entre os denisovanos
O cenário de Bianfu ajuda a explicar por que seus artefatos não se parecem tanto com os de outros sítios. A análise de pólen aponta para uma mistura de floresta de coníferas e estepe, com clima temperado e abundância de animais. Na Sibéria, os denisovanos enfrentavam frio intenso. No planalto tibetano, precisavam lidar com temperaturas baixas e pouco oxigênio.
Bence Viola, pesquisador da Universidade de Toronto que não participou do estudo, classificou a descoberta como apenas o terceiro local em que há restos humanos, ferramentas, fauna e contexto ambiental associados. Para ele, a comparação entre os sítios pode mostrar que os denisovanos mudavam suas tecnologias e estratégias de sobrevivência conforme o ambiente.
Essa possibilidade também interessa à arqueologia amazônica, embora não exista ligação direta entre Bianfu e os povos antigos da Amazônia. Em estados como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, pesquisadores igualmente dependem da combinação entre restos de fauna, sedimentos, ferramentas e sinais ambientais para reconstruir modos de vida antigos. A diferença é que o clima quente e úmido da região também pode apagar DNA e materiais orgânicos, tornando ainda mais valiosos os vestígios que resistem no solo.
O que ainda falta descobrir sobre esse grupo
Os denisovanos continuam sendo um dos grupos humanos mais difíceis de estudar. Muitos restos encontrados na Ásia não têm contexto arqueológico preservado. Um exemplo são fósseis retirados do fundo do mar, cuja relação com ferramentas, animais e paisagem original é impossível de reconstruir com segurança.
Em Bianfu, a ausência de DNA impede análises genéticas mais detalhadas, como relações de parentesco ou possíveis cruzamentos com outros humanos. Ainda assim, as proteínas permitiram identificar os restos, enquanto as camadas de sedimentos ajudaram a estabelecer a cronologia da ocupação.
Os próximos estudos devem comparar os achados de Yunnan com materiais das cavernas da Sibéria e do Tibete para avaliar se a simplicidade das ferramentas era uma característica comum dos denisovanos ou uma adaptação específica ao ambiente mais favorável de Bianfu.
Com informações de Nature.
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