
Depressão encontrada entre pegadas pode registrar um comportamento raro de dinossauros há 67 milhões de anos.
Uma depressão circular com cerca de quatro metros de largura e mais de meio metro de profundidade pode registrar uma tentativa de escavação feita por titanossauros há aproximadamente 67 milhões de anos, no atual território da Bolívia. A estrutura foi identificada na região de Maragua, perto de Sucre, em depósitos fluviais do Cretáceo Superior, entre trilhas fossilizadas deixadas por esses dinossauros gigantes. O estudo, publicado na revista Fossil Record, aponta que o local pode ter sido usado para construir um ninho, embora ainda não existam ovos, cascas ou embriões que confirmem essa hipótese.
Uma depressão escondida entre pegadas
A descoberta ocorreu durante a análise de uma superfície rochosa exposta no Sinclinal de Maragua, uma formação geológica conhecida por preservar rastros de dinossauros. As pegadas diagonais atravessam o antigo leito de rio e foram associadas a titanossaurídeos, grupo que reunia alguns dos maiores animais terrestres conhecidos pela ciência.
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Nanofertilizante de açaí aumenta crescimento de milho e sorgoNo meio dessas trilhas, os pesquisadores encontraram uma cavidade em forma de tigela, com bordas irregulares e aparência incomum. O formato levantou uma dúvida inicial: seria apenas resultado do desgaste natural das rochas ou teria sido produzido por um animal que viveu naquela paisagem?
“Uma boa história de mistério sempre começa com uma pista de algo que existiu ou não deveria estar ali”, relatam os autores Lara Sciscio e Christian A. Meyer na apresentação da pesquisa. A investigação começou justamente pela tentativa de eliminar as explicações mais comuns, como erosão, intemperismo e ação recente da água.
Marcas nas paredes afastam hipótese de erosão
Depressões criadas por correntes de água costumam apresentar paredes lisas e orientação relacionada ao fluxo. Já as cavidades produzidas pelo intemperismo geralmente exibem texturas específicas e aparecem em grupos menores. A estrutura de Mullurina Mayu não apresentava essas características.

Em vez disso, os cientistas encontraram conjuntos de sulcos paralelos, com cerca de um centímetro de largura e alguns centímetros de comprimento. As marcas estavam concentradas nas paredes e na base da depressão, em duas direções principais. A distribuição sugere movimentos repetidos de um animal sobre o sedimento ainda úmido.
Segundo a revista Fossil Record, a depressão de Mullurina Mayu, na Bolívia, apresenta sulcos compatíveis com escavação por um sauropodídeo em sedimentos fluviais do Cretáceo Superior. A interpretação é baseada na forma, na orientação e na distribuição das marcas, e não apenas no formato da cavidade.
Entenda o caso
Os pesquisadores estudaram uma cavidade preservada em uma antiga superfície de rio, próxima a trilhas de titanossauros. A estrutura tem aproximadamente quatro metros de largura e mais de meio metro de profundidade.
As marcas semelhantes a arranhões indicam que um animal movimentou os pés sobre o barro. A hipótese mais provável envolve um titanossauro, mas o objetivo do comportamento ainda não foi determinado.
A possibilidade de ninho existe porque a depressão tem borda definida e foi preenchida por sedimentos diferentes dos originais. No entanto, a ausência de ovos, cascas ou embriões impede uma conclusão definitiva.

Os “dedos” de um gigante
Os sulcos lembram marcas produzidas quando um pé coberto por escamas se arrasta sobre o solo. Estudos anteriores já identificaram rastros semelhantes associados a sauropodes em áreas dos Estados Unidos, da Espanha e da Mongólia.
Esses sinais são importantes porque podem preservar detalhes da pele queratinizada e do movimento dos pés. Na área boliviana, a orientação das marcas sugere que o animal raspou o sedimento diversas vezes, em vez de apenas deixar uma impressão acidental ao caminhar.
A proximidade entre a depressão e as pegadas de titanossaurídeos reforça a associação. Ainda assim, os autores tratam a identificação com cautela. Outros animais poderiam, em tese, ter produzido marcas parecidas, e o registro fóssil raramente permite reconstruir um comportamento com certeza absoluta.
Um possível ninho, mas não a única explicação
A construção de um ninho é uma das interpretações consideradas pelos especialistas. Depressões escavadas no sedimento, com uma borda diferenciada e preenchimento posterior por material distinto, podem corresponder a estruturas de reprodução.
O principal problema é que não há evidência direta de ovos no local. Sem esse material, a pesquisa não pode afirmar que o titanossauro estava preparando uma área para depositar a ninhada. Por isso, a conclusão é apresentada como uma possibilidade, e não como uma prova de nidificação.

Outra alternativa é que o animal estivesse procurando água doce ou sais minerais. Elefantes atuais, por exemplo, escavam o solo em busca de recursos. Também não está descartada a hipótese de que a depressão tenha sido produzida por uma atividade ainda não reconhecida no registro fóssil.
Fósseis que mostram comportamento
O achado amplia o valor científico das chamadas icnofósseis, estruturas deixadas pela atividade de um organismo, como pegadas, tocas, marcas de alimentação e escavações. Ossos ajudam a mostrar a aparência de um animal. Os rastros revelam como ele se deslocava. Já uma depressão com marcas de raspagem pode indicar o que ele fazia.
Essa diferença é especialmente relevante para entender os titanossauros. Esses animais são conhecidos por seus corpos enormes e pescoços longos, mas registros como o de Mullurina Mayu permitem observar uma interação direta com o ambiente. A descoberta transforma uma superfície rochosa em um instantâneo de uma atividade ocorrida pouco antes do fim da Era dos Dinossauros.
O estudo também reforça a importância paleontológica da Bolívia e da América do Sul. Na Amazônia brasileira, afloramentos desse período são menos conhecidos do que em outras regiões, mas pesquisas em todos os estados amazônicos ajudam a reconstruir antigos rios, planícies e áreas ocupadas por animais pré-históricos. Cada novo registro amplia a compreensão sobre os ambientes que existiam no continente antes da transformação climática e ecológica que marcou o fim do Cretáceo.
Novas escavações, análises tridimensionais e a busca por ovos ou outros vestígios no entorno poderão testar a hipótese de ninho e esclarecer o comportamento registrado em Mullurina Mayu.
Perguntas frequentes
O que foi encontrado na Bolívia?
Uma depressão em forma de tigela, com cerca de quatro metros de largura, mais de meio metro de profundidade e marcas de raspagem em suas paredes e na base.
A estrutura é comprovadamente um ninho de dinossauro?
Não. A hipótese de nidificação é possível, mas ainda não foi confirmada porque não foram encontrados ovos, cascas ou embriões.
Que dinossauro pode ter produzido as marcas?
Os pesquisadores apontam um titanossauro como o provável responsável, devido à proximidade com trilhas atribuídas a titanossaurídeos e à semelhança das marcas com rastros de seus pés.
Com informações de Fossil Record.
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