Fungo que nasceu como praga no Paraná em 1985 hoje ameaça trigo e arroz em três continentes; cientistas reprogramam a imunidade das plantas para enfrentá-lo

Fungo que nasceu como praga no Paraná em 1985 hoje ameaça trigo e arroz em três continentes; cientistas reprogramam a imunidade das plantas para enfrentá-lo
Lavoura de trigo madura. Foto: Hans Hillewaert, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

A brusone é considerada a pior doença fúngica dos cereais. Causada pelo fungo Magnaporthe oryzae, ela destrói todos os anos uma quantidade de arroz suficiente para alimentar cerca de 60 milhões de pessoas, e passou a ameaçar também o trigo e a cevada em partes da Ásia e da África. Um estudo publicado na revista científica Science Advances apresenta uma nova forma de defesa: reprogramar o próprio sistema imunológico das plantas.

A pesquisa foi liderada pelo John Innes Centre, no Reino Unido, com colaboradores da Universidade de Kobe, no Japão.

Uma doença com raiz brasileira

O Brasil tem um papel incômodo nessa história. A brusone do trigo foi identificada pela primeira vez no Paraná, em 1985, e se espalhou pelas lavouras da América do Sul. Em 2016, apareceu em Bangladesh, na Ásia, e depois chegou à Zâmbia, na África. No arroz, a brusone é conhecida há muito mais tempo e é uma das principais doenças da cultura também no Brasil.

Em anos de clima quente e úmido na época do espigamento, a doença pode derrubar a produção de trigo, porque ataca a espiga e impede a formação dos grãos.

Como o fungo invade a planta

O fungo injeta nas células das folhas e dos caules moléculas especializadas, chamadas efetoras. Elas bagunçam o funcionamento normal da planta e abrem caminho para a infecção.

As plantas têm defesa. Receptores imunológicos reconhecem essas moléculas estranhas e disparam uma reação: as células infectadas morrem de forma controlada, em uma área pequena, o que impede o fungo de avançar. O problema é que cada receptor costuma reconhecer só um tipo de efetor, e o fungo evolui rápido para escapar.

Uma nova família de sentinelas

Por mais de 30 anos, a pesquisa sobre imunidade de plantas se concentrou em uma família de receptores conhecida pela sigla NLR. Mais recentemente, os cientistas passaram a estudar outro grupo presente nos cereais, as proteínas quinase em tandem, ou TKPs.

Algumas TKPs têm uma região chamada domínio HMA, semelhante à usada por certos NLRs para reconhecer os efetores do fungo. Segundo o professor Mark Banfield, do John Innes Centre, isso despertou o interesse da equipe: se fosse possível modificar essa região com pequenas trocas de aminoácidos nos pontos onde os efetores se encaixam, os receptores poderiam ganhar a capacidade de reconhecer novas ameaças.

O que os cientistas conseguiram

A equipe descobriu como essas proteínas reconhecem o fungo e mostrou que elas podem ser modificadas para detectar vários efetores diferentes. Na prática, é como trocar a fechadura de um alarme para que ele dispare com mais de uma chave. Para Banfield, o resultado pode levar a uma intervenção contra a pior doença fúngica dos cereais.

O trabalho ainda é experimental. Transformar a descoberta em variedades de trigo, arroz e cevada resistentes no campo exige anos de testes. Mas a estratégia aponta para uma resistência mais duradoura, difícil de ser quebrada pelo fungo.

Por que isso importa para o prato

Arroz e trigo estão entre os alimentos mais consumidos do planeta. A brusone obriga produtores a usar fungicidas e a escolher épocas de plantio menos arriscadas, e ainda assim causa perdas. Uma defesa embutida na própria planta reduziria custos, uso de químicos e risco de quebra de safra.

Perguntas frequentes

O que é brusone?

É uma doença causada pelo fungo Magnaporthe oryzae que ataca arroz, trigo e cevada e pode destruir a produção de grãos.

Onde surgiu a brusone do trigo?

Foi identificada pela primeira vez no Paraná, em 1985, e depois se espalhou pela América do Sul, Ásia e África.

Com informações do John Innes Centre e do estudo publicado na Science Advances.

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