Abelhas carregam vírus que combatem bactérias e protegem flores de cerejeira contra doenças

Abelhas carregam vírus que combatem bactérias e protegem flores de cerejeira contra doenças
Foto: Divulgação

Método testado por pesquisadores da Universidade de Warwick pode reduzir o uso de pesticidas em pomares.

Uma abelha que sai da colmeia pode levar mais do que pólen para o pomar. Pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, desenvolveram um sistema para recobrir abelhas com bacteriófagos, vírus naturais que atacam bactérias, e conduzi-los até flores de cerejeira. Nos experimentos, os insetos transferiram o tratamento para até 88% das flores avaliadas.

A proposta combina duas funções que já acontecem no mesmo espaço: a polinização e a aplicação localizada de um agente de controle biológico. Em vez de espalhar um produto por toda a plantação, a técnica usa o deslocamento das abelhas entre as flores para alcançar justamente uma das portas de entrada de doenças bacterianas.

Uma passagem pela colmeia transforma a abelha em transportadora

O método foi criado no Warwick Crop Centre durante investigações sobre o cancro bacteriano da cerejeira, doença associada ao patógeno Pseudomonas syringae pv. syringae. A equipe buscava bacteriófagos presentes naturalmente no ambiente e capazes de atingir a bactéria responsável pelo problema.

O sistema utiliza um tubo instalado na saída da colmeia. Ao atravessá-lo, as abelhas entram em contato com um pó formulado com os bacteriófagos. O material adere ao corpo dos insetos de maneira semelhante ao pólen recolhido durante as visitas às flores.

Quando as abelhas seguem para o pomar, o composto é depositado nos locais visitados. Segundo a Universidade de Warwick, o método foi testado com flores reais e artificiais de cerejeira, usando a abelha britânica de cauda amarela, identificada cientificamente como Bombus terrestris audax.

Vírus naturais reduzem a população de bactérias

Bacteriófagos, também chamados de fagos, são vírus encontrados em ambientes como solo, água e superfícies de plantas. Eles não atacam pessoas, animais ou plantas. Seu alvo são bactérias específicas, o que permite selecionar agentes voltados para um microrganismo causador de doença sem eliminar indiscriminadamente outros microrganismos benéficos.

Segundo a Universidade de Warwick, os bacteriófagos foram levados pelas abelhas até as flores de cerejeira em testes realizados no Reino Unido, onde reduziram de forma significativa as populações bacterianas. A pesquisa foi publicada na revista Biological Control, no artigo “Bee-mediated delivery of bacteriophage for biocontrol of the cherry canker pathogen Pseudomonas syringae pv. syringae”.

O estudo completo pode ser consultado no artigo científico sobre a entrega de bacteriófagos por abelhas.

Abelhas carregam vírus que combatem bactérias e protegem flores de cerejeira contra doenças
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Segundo a Universidade de Warwick, abelhas transportaram bacteriófagos para até 88% das flores de cerejeira testadas no Reino Unido, em experimento divulgado em 2026.

Por que aplicar na flor pode ser mais preciso

Flores podem funcionar como pontos de contato entre bactérias, insetos e tecidos vegetais. Ao colocar o agente biológico diretamente nesse ambiente, os pesquisadores pretendem diminuir a distância entre o tratamento e o local onde a infecção pode se estabelecer.

A estratégia também pode reduzir a dependência de produtos químicos convencionais e de antibióticos agrícolas. Como os fagos tendem a ser específicos para determinados grupos bacterianos, o controle pode ser mais direcionado. Essa mesma especificidade, porém, exige a escolha correta do bacteriófago para cada doença e cada cultura.

A pesquisa ainda está em fase experimental. A equipe informa que os resultados demonstram o funcionamento do sistema em condições de teste, mas o próximo passo é iniciar ensaios-piloto com produtores. A aplicação comercial dependerá da avaliação do desempenho em pomares, da persistência dos fagos nas flores e da compatibilidade com as práticas de manejo.

De cerejeiras a macieiras, pereiras e árvores florestais

O grupo de Warwick trabalha com a possibilidade de adaptar a técnica a outras plantas nas quais as flores sejam uma rota importante de infecção bacteriana. Entre as culturas citadas estão cerejeira, macieira e pereira. A equipe também investiga aplicações em árvores florestais e hortaliças.

A empresa Carus Animal Health financiou o projeto e participou, junto com a Universidade de Warwick, do desenvolvimento do trabalho. A pesquisadora Mojgan Rabiey, especialista em patologia vegetal e controle biológico, coordena a linha que busca usar fagos e microrganismos benéficos para diminuir a dependência de produtos convencionais.

O que a descoberta representa para a agricultura amazônica

O experimento não foi realizado na Amazônia e não demonstra, por si só, que o método funcionará nas condições de cultivo dos nove estados da região. Temperatura, umidade, espécies de abelhas, variedades agrícolas e bactérias presentes no ambiente podem alterar o resultado. Qualquer adoção local exigiria testes específicos e avaliação dos impactos sobre polinizadores e microrganismos nativos.

A conexão regional está na possibilidade de desenvolver ferramentas de controle mais seletivas para sistemas de produção que dependem da biodiversidade e de polinizadores. Em áreas amazônicas, uma tecnologia desse tipo só teria utilidade se fosse adaptada às culturas locais e validada sem comprometer abelhas nativas, outros insetos e a diversidade microbiana do solo e das plantas.

Por enquanto, o resultado mais concreto é a demonstração de que uma abelha pode funcionar como veículo de entrega de um agente biológico diretamente na flor. Os pesquisadores agora devem avançar para testes com produtores antes de avaliar a expansão da técnica para outras culturas.

Com informações da Universidade de Warwick.

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