Besouros gigantes que não voam vivem dos dois lados do Atlântico, e o DNA mostrou que eles não cruzaram o oceano: os continentes se separaram com eles em cima

Besouros gigantes que não voam vivem dos dois lados do Atlântico, e o DNA mostrou que eles não cruzaram o oceano: os continentes se separaram com eles em cima
Besouro-tigre-gigante (Amblycheila cylindriformis), do Texas. Foto: Anne Schultz/Insects Unlocked, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Como um besouro grande, que não voa, foi parar dos dois lados do oceano Atlântico? A pergunta intrigava cientistas que estudam os besouros-tigre gigantes, encontrados na África, na América do Sul e na América do Norte. A resposta, publicada na revista científica Proceedings of the Royal Society B, é surpreendente: eles nunca atravessaram o oceano.

O mistério

O pesquisador Grey T. Gustafson começou estudando dois grupos de besouros-tigre do oeste dos Estados Unidos: os besouros-tigre-gigantes, do gênero Amblycheila, e os besouros-tigre-caçadores-noturnos, do gênero Omus. Acreditava-se que eles pertenciam à tribo Manticorini, batizada em homenagem à mantícora, monstro da mitologia, que reúne besouros grandes e sem asas funcionais do Hemisfério Sul.

A maioria das espécies da tribo vive na África, ao sul do Saara, e o único outro parente próximo fica na América do Sul. Segundo Gustafson, a equipe queria saber como um besouro grande e incapaz de voar teria cruzado o oceano até a América do Sul e como os besouros norte-americanos se encaixavam nessa história.

DNA de museus

Durante três anos, os pesquisadores reuniram sequências do genoma inteiro de besouros coletados recentemente no oeste americano, de material congelado cedido por colegas e de exemplares de coleções de história natural nos Estados Unidos e na Europa. Com os dados, montaram uma árvore genealógica e calcularam quando as linhagens se separaram.

Mais velhos que o oceano

O resultado mostrou que o grupo é mais antigo que a separação dos continentes. Os Manticorini surgiram quando a América do Sul e a África ainda faziam parte de um supercontinente chamado Gondwana. Quando as terras se separaram e o Atlântico Sul se abriu, os besouros foram levados junto. Para Gustafson, eles não atravessaram o oceano: os continentes se separaram e levaram seus besouros gigantes.

O fenômeno se chama vicariância: uma barreira surge e divide uma população em duas. Os besouros-tigre-gigantes da América do Norte são parentes mais próximos do sul-americano, e juntos são aparentados aos do sul da África. A chegada ao norte foi mais recente, numa expansão dentro das Américas.

Como emas e avestruzes

A história lembra a das emas da América do Sul e dos avestruzes da África, aves grandes, que não voam e estão separadas por um oceano. Mas, ao contrário dessas aves, cuja origem ainda é debatida, os besouros-tigre agora são considerados um exemplo bem sustentado de vicariância de Gondwana.

Gondwana no Brasil

O Brasil guarda algumas das provas mais famosas de que a América do Sul e a África já estiveram unidas. Fósseis do Mesosaurus, um pequeno réptil aquático de cerca de 270 milhões de anos, são encontrados tanto em rochas do Sul e do Sudeste do Brasil quanto no sul da África. Como ele não poderia ter cruzado um oceano, os fósseis estão entre as evidências usadas para sustentar a teoria da deriva continental. O encaixe entre o litoral do Nordeste brasileiro e o golfo da Guiné, na África, é outra pista visível no mapa.

Perguntas frequentes

O que foi Gondwana?

Um supercontinente que reunia América do Sul, África, Antártida, Austrália, Índia e outras terras, e que se fragmentou ao longo de milhões de anos.

O que é vicariância?

Quando uma barreira, como um oceano, surge e separa populações de uma mesma linhagem, que passam a evoluir isoladas.

Com informações do estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B.

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