
Uma planta que estava guardada em herbários com o nome errado acaba de ganhar identidade própria. Botânicos brasileiros descreveram a Chamaecrista marinasilvae, uma nova espécie de leguminosa, a família do feijão e do pau-brasil, encontrada no Jalapão, no Tocantins. O estudo foi publicado em 19 de outubro de 2026 na revista científica Nordic Journal of Botany, com um título que já resume o problema: a planta é apresentada como uma espécie nova e ameaçada da fronteira do desmatamento do Cerrado brasileiro.
Como a planta foi descoberta
Segundo o resumo do artigo, a espécie foi coletada durante uma expedição de campo ao Jalapão. Ao revisar coleções de herbários, os pesquisadores encontraram outros exemplares do Tocantins que tinham sido identificados como Chamaecrista juruenensis, uma espécie parecida. A comparação mostrou que se tratava de outra planta.
A nova espécie se diferencia da parente pela cor e pelos pelos dos ramos, pelo tamanho de estruturas na base dos folíolos, pelo padrão das nervuras e pela posição dos folíolos, além dos pelos do ovário e do fruto. O artigo traz ainda uma chave de identificação para as espécies do mesmo grupo no Tocantins, ferramenta que ajuda outros botânicos a reconhecer cada uma no campo e nos herbários.
Quem fez o estudo
O trabalho é assinado por Késia Ramos Miranda, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB); Raiana Rocha de Souza, da Universidade de Brasília (UnB); Marcelo Fragomeni Simon, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia; e Juliana Gastaldello Rando, da UFOB, com vínculos com a Universidade Estadual de Feira de Santana e o Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido. O artigo é de acesso aberto.
O nome
O nome científico, marinasilvae, homenageia a ambientalista Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente. Dar a uma espécie o nome de uma pessoa é uma tradição antiga da botânica e da zoologia, usada para reconhecer cientistas, coletores ou figuras ligadas à conservação.
Chamaecrista, um gênero do Cerrado
O gênero Chamaecrista reúne centenas de espécies de leguminosas, muitas delas arbustos de flores amarelas, e tem no Brasil um de seus principais centros de diversidade, especialmente nos campos e cerrados de altitude. Várias espécies vivem em áreas pequenas, o que as torna vulneráveis à perda de habitat.
Por que já nasce ameaçada
O Jalapão fica no leste do Tocantins, na região conhecida como Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia e concentra a expansão recente da agricultura sobre o Cerrado. Segundo o MapBiomas, o Cerrado perdeu 34% da sua vegetação nativa entre 1985 e 2025, e o Matopiba respondeu por cerca de dois terços da perda entre 2015 e 2025.
Espécies descritas agora, em regiões que perdem vegetação rapidamente, correm o risco de desaparecer pouco depois de ganhar nome. Por isso, os pesquisadores destacam a condição de ameaça já no título do trabalho, um alerta para a proteção das áreas onde a planta ainda vive.
Entenda
- Espécie: Chamaecrista marinasilvae, da família das leguminosas.
- Onde: Jalapão, no Tocantins, no Cerrado.
- Publicação: Nordic Journal of Botany, 19 de outubro de 2026.
- Situação: descrita pelos autores como ameaçada, na fronteira do desmatamento do Cerrado.
Com informações do artigo de Miranda, Souza, Simon e Rando no Nordic Journal of Botany e do MapBiomas.
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