Cientistas reconstroem 318 genomas de bactérias a partir de fezes de leões na Namíbia e reduzem de 24,5% para 4,5% o DNA sem identificação

Cientistas reconstroem 318 genomas de bactérias a partir de fezes de leões na Namíbia e reduzem de 24,5% para 4,5% o DNA sem identificação
Foto: Christoph Strässler / Wikimedia Commons. CC BY-SA 2.0. · CC

Mapa genético do intestino dos leões do Parque Nacional de Etosha aponta possíveis espécies ainda não descritas e pistas sobre a digestão de uma dieta rica em carne.

Uma biblioteca genética incompleta escondia boa parte das bactérias que vivem no intestino dos leões. Ao analisar fezes frescas de 20 leões do Parque Nacional de Etosha, na Namíbia, pesquisadores reconstruíram 318 genomas bacterianos e encontraram indícios de várias espécies possivelmente ainda não descritas pela ciência. O estudo, publicado na revista científica BMC Animal Microbiome, também levanta pistas sobre como esses micróbios podem ajudar a processar compostos de uma dieta rica em carne.

Como os genomas foram obtidos sem cultivar as bactérias

A equipe examinou 23 amostras fecais frescas, provenientes de 20 leões de 12 bandos. Cada amostra continha uma mistura de DNA de muitos microrganismos ao mesmo tempo.

Em vez de tentar criar as bactérias em laboratório, etapa que muitas espécies intestinais não toleram, os cientistas juntaram os fragmentos de DNA como peças de um quebra-cabeça. O resultado são os chamados genomas montados de metagenoma, conhecidos pela sigla MAGs, em inglês.

A lacuna no banco de referência

Para saber quais micróbios estavam ali, os pesquisadores compararam o material genético com um banco de genomas bacterianos conhecidos. Esse tipo de biblioteca só funciona bem quando inclui os organismos procurados.

Antes de os novos genomas dos leões serem acrescentados, 24,5% dos fragmentos de DNA lidos não puderam ser classificados. Depois da inclusão, o índice caiu para 4,5%. Na prática, o banco existente carecia de grande parte da informação necessária para descrever a microbiota desses animais.

Quem domina o intestino do leão

Os gêneros Bacteroides e Phocaeicola, aparentados entre si, foram os mais abundantes, com média de 22,1% e 13,3% da comunidade bacteriana, respectivamente. Houve variação entre indivíduos, e em alguns animais outros gêneros predominaram.

Cientistas reconstroem 318 genomas de bactérias a partir de fezes de leões na Namíbia e reduzem de 24,5% para 4,5% o DNA sem identificação
Foto: Christoph Strässler / Wikimedia Commons. CC BY-SA 2.0. · CC

A análise não encontrou diferença geral clara na composição microbiana entre machos e fêmeas, nem entre os dois períodos de coleta.

Pistas sobre a digestão da carne

Os pesquisadores deram atenção especial às purinas, entre elas adenina e guanina, componentes do material genético presentes em grande quantidade em alimentos de origem animal. Os genes encontrados nas bactérias cobrem quase toda a sequência de reações que degrada essas substâncias até a ureia. Faltou uma etapa, a da degradação do ácido úrico.

Os genes, portanto, sugerem um possível papel desses micróbios no processamento de compostos da dieta. O estudo, porém, não mediu essas reações dentro do intestino dos leões, o que impede tratar a função como comprovada.

O que isso significa para a conservação

Segundo o estudo publicado na BMC Animal Microbiome, o levantamento feito no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia, oferece um ponto de partida mais sólido para investigar relações entre microbiota, alimentação e saúde de leões selvagens. Antes de usar esse tipo de informação em monitoramento e conservação, é preciso saber quais micróbios vivem normalmente nesses animais, e o trabalho ajuda a responder isso.

Para o leitor da Amazônia, a lógica é familiar. A região abriga grandes predadores, como onça-pintada e onça-parda, cuja microbiota intestinal também pode estar pouco catalogada em bancos genéticos de referência. O estudo não trata desses animais, mas mostra um método que dispensa o cultivo em laboratório e poderia, em tese, ser aplicado a outras espécies pouco estudadas.

O artigo completo está disponível na página da revista, e há também a versão em PDF do artigo aceito para publicação. Os próximos passos dependem de experimentos que meçam a atividade dessas bactérias no intestino e de novas coletas para confirmar quais espécies são de fato inéditas.

Com informações de BMC Animal Microbiome.

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