Cães treinados para farejar cocô de um lagarto do tamanho de um dedo descobriram por que quase nunca achavam nada: as formigas chegavam primeiro

Cães treinados para farejar cocô de um lagarto do tamanho de um dedo descobriram por que quase nunca achavam nada: as formigas chegavam primeiro
Dragão-sem-orelhas-dos-campos (Tympanocryptis pinguicolla). Foto: John Wombey/CSIRO, via Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0.

Ele tem o corpo do tamanho de um dedo mindinho, três listras brancas nas costas e o costume de dormir dentro de tocas de aranhas. O dragão-sem-orelhas-dos-campos de Victoria, um lagartinho australiano, é hoje considerado o réptil mais ameaçado do país. Para protegê-lo, cientistas treinaram cães para farejar suas fezes. E descobriram um problema inesperado.

Redescoberto depois de 50 anos

Depois de escapar dos cientistas por mais de 50 anos, o lagarto foi redescoberto em 2023 num pasto de ovelhas no oeste do estado de Victoria. É a única população conhecida no mundo. A destruição dos campos nativos onde ele vive é a principal causa do declínio.

Encontrar um animal tão pequeno e raro é quase impossível. Mas, para saber se uma espécie vive num lugar, nem sempre é preciso ver o bicho. As fezes revelam a presença, a dieta e a saúde da população.

Os cães-dragão

Desde 2023, o esquadrão de cães farejadores do zoológico Zoos Victoria trabalha com especialistas em répteis. Sete cães já foram treinados, entre border collies, labradores, kelpies e até um lagotto romagnolo. Todos foram escolhidos pela motivação para buscar em troca de recompensas e pela capacidade de trabalhar com segurança perto de animais.

O estudo, liderado pela pesquisadora La Toya Jamieson, acompanhou dois deles: Sugar, mestiça de pointer alemão, e Moss, um labrador. A palavra que dá início à busca é dracarys, inspirada na série Game of Thrones. Os dois aprenderam a distinguir com segurança as fezes do lagarto, parecidas com um grão de arroz marrom, das de outros répteis do mesmo tamanho. Conseguiam até diferenciar fezes de lagartos de cativeiro e da natureza.

Cadê o cocô?

Em campo, porém, veio a frustração. Em mais de 100 buscas em áreas onde se sabia que os lagartos viviam, os cães encontraram uma única amostra. Para resolver o mistério, a equipe levou 44 amostras de lagartos do zoológico de Melbourne para o campo e acompanhou quanto tempo elas duravam.

Antes mesmo de colocá-las no lugar, os pesquisadores viram formigas carregando algumas. Em 24 horas, mais de um terço das amostras tinha sumido, provavelmente levadas por formigas e outros insetos. Somado ao número baixo de lagartos, isso explicava por que quase nada sobrava para os cães acharem.

Nova estratégia

Com o resultado, os cães agora são treinados para localizar os próprios lagartos com segurança, inclusive em tocas de aranhas e touceiras de capim. O trabalho é considerado essencial para proteger a espécie e os campos onde ela vive.

Faro a serviço da natureza

Cães farejadores são usados em projetos de conservação no mundo todo para encontrar plantas, animais, fungos e fezes, como as de orcas boiando no mar e de pequenos marsupiais em encostas rochosas. No Brasil, a análise de fezes também é uma ferramenta importante para estudar a dieta e a genética de animais difíceis de ver, como onças, lobos-guarás e jaguatiricas.

Perguntas frequentes

Qual o réptil mais ameaçado da Austrália?

O dragão-sem-orelhas-dos-campos de Victoria, redescoberto em 2023 com uma única população conhecida.

Por que procurar fezes em vez do animal?

Porque as fezes revelam presença, dieta e saúde da espécie sem precisar capturar ou perturbar os animais.

Com informações do Zoos Victoria.

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