Anfíbio de armadura óssea vivia no fundo do mar a 30 km da costa há 237 milhões de anos e quebra uma regra da biologia

Anfíbio de armadura óssea vivia no fundo do mar a 30 km da costa há 237 milhões de anos e quebra uma regra da biologia
Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool)

Fóssil achado na China mostra um anfíbio de pele blindada que caçava no oceano, algo que nenhum parente conhecido conseguiu fazer.

Se você jogar um sapo no mar, o problema não é o afogamento: é o sal. A pele fina dos anfíbios, ótima para absorver água doce, funcionaria ao contrário no oceano e faria o bicho secar por dentro. Por isso, até agora, nenhum anfíbio vivo ou extinto parecia ter se adaptado a uma vida 100% marinha. Um fóssil achado na China acaba de mudar esse quadro.

Batizado de Gerrothorax maritimus, o animal viveu há cerca de 237 milhões de anos, no Triássico, o primeiro período da Era dos Dinossauros. Ele passava a maior parte do tempo no fundo do mar, à espreita das presas, e tinha o corpo coberto por uma armadura de osso.

Um sapo com rabo e cara de tatu?

A imagem que ajuda a visualizar o bicho é a de um cruzamento de sapo com cauda e tatu, mas ela é bastante inexata. O G. maritimus pertencia aos temnospôndilos, grupo de anfíbios primitivos que foi comum antes da linhagem que deu origem às rãs, pererecas, sapos e salamandras de hoje.

Muitos temnospôndilos eram predadores de grande porte e totalmente aquáticos, mas quase sempre em água doce ou perto dela. Há indícios de que algumas espécies frequentavam estuários, a zona de encontro entre rio e mar.

O animal media pelo menos 74 cm de comprimento. O tamanho total ainda não pode ser calculado porque a maior parte da cauda não se preservou. Para um anfíbio atual, é gigante. Para os temnospôndilos, era um bicho diminuto.

As provas de que ele vivia mesmo no mar

Segundo artigo publicado em 26 de outubro de 2026 na revista Nature Ecology & Evolution, os restos vieram de rochas da província de Guizhou, no sudoeste da China. O trabalho reuniu pesquisadores de três instituições chinesas e uma americana, coordenados por Da-yong Jiang, da Universidade de Pequim, e Ryosuke Motani, da Universidade da Califórnia em Davis (EUA).

Quatro evidências sustentam a vida marinha:

  • as características geológicas das rochas batem com as de um leito marinho, a pelo menos 30 km de qualquer terra firme;
  • nas mesmas camadas havia fósseis de ictiossauros, répteis exclusivamente marinhos cuja anatomia lembra vagamente a de golfinhos;
  • os fósseis do anfíbio estão praticamente intactos, o que descarta um longo transporte do cadáver por rio até o mar;
  • a composição química dos restos, com base em variantes do elemento estrôncio, combina com a dos mares do Triássico e difere da de terra firme e de água doce da época.

Como a armadura resolveu o problema do sal

O anfíbio tem uma extensa rede de osteodermas, espécies de calombos ósseos distribuídos pelo dorso, pelos membros e pelo ventre. Outros parentes tinham reforços na pele, mas nada comparável.

Para os pesquisadores, essa couraça criou uma barreira contra a perda de água do corpo para o líquido salgado em volta. Havia ainda brânquias internas mesmo nos adultos, o que facilitaria eliminar o excesso de sal, como fazem os peixes ósseos, os mais comuns hoje. Nos anfíbios adultos, esse tipo de órgão costuma desaparecer.

Ambas as características já existiam em parentes de água doce. Do ponto de vista evolutivo, bastaram ajustes relativamente leves para o bicho colonizar o oceano.

A estrutura óssea da garganta sugere ainda um método de caça: sucção forte das presas, estratégia comum em predadores que ficam esticados no leito esperando uma vítima incauta se aproximar.

Poucos anfíbios toleram sal, e nenhum vive no mar

Entre os anfíbios modernos, só raras espécies toleram algum sal. O exemplo é a rã Fejervarya cancrivora, que caça caranguejos em manguezais do Sudeste Asiático e entra na água marinha por curtos períodos.

Esse detalhe dialoga com a realidade amazônica. A região tem uma das maiores diversidades de anfíbios do planeta e extensos manguezais no litoral do Pará, Amapá e Maranhão. Ainda assim, os anfíbios dali dependem de água doce ou de ambientes de baixa salinidade, o que mostra como a barreira do sal segue forte e como o caso chinês é raro.

Segundo a equipe liderada por Jiang e Motani, o Gerrothorax maritimus é o primeiro anfíbio com vida 100% marinha identificado, no Triássico de Guizhou, na China. Novas escavações e análises das camadas podem dizer se ele foi um caso isolado ou se outros temnospôndilos também chegaram ao mar.

Com informações de Folha de S.Paulo.

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