
As Cataratas de Sangue, uma mancha vermelha que escorre da geleira Taylor, na Antártida, guardam pistas vivas de um oceano antigo. Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Nature Geoscience encontrou, na lama vermelha ao pé da geleira, uma comunidade ativa de micro-organismos de origem marinha, como diatomáceas, num lugar hoje isolado do mar. Para os autores, a explicação mais provável é que a água do oceano entrou no vale em períodos mais quentes e ficou presa sob o gelo.
A pesquisa foi liderada por Angela Zoumplis, que fez o doutorado no Instituto J. Craig Venter (JCVI) e na Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego e hoje é pesquisadora da Universidade Yale.
Por que a cachoeira é vermelha
As Cataratas de Sangue ficam nos Vales Secos de McMurdo, um dos desertos mais frios e secos da Terra. A cor vem de uma salmoura rica em ferro, presa debaixo da geleira, que de tempos em tempos escapa para a superfície. Ao encontrar o ar, o ferro oxida, como ferrugem, e tinge o gelo e o chão de vermelho.
O que os cientistas encontraram
A equipe analisou 167 amostras de água, sedimento e material trazido pelo vento, coletadas na frente da geleira Taylor, em outros pontos dos vales e em áreas de referência no mar, no estreito de McMurdo. Com sequenciamento genético, os pesquisadores identificaram os organismos presentes.
O sinal marinho mais forte apareceu justamente perto das Cataratas de Sangue. Ali, diatomáceas de origem marinha, algas microscópicas com carapaça de sílica, representaram mais de 60% das diatomáceas, e em algumas análises cerca de 80%. Nos lagos e riachos de água doce dos vales, o padrão era outro, dominado por espécies terrestres e de água doce.
Vivos, não restos
O ponto central do estudo é que esses organismos estão ativos. A equipe analisou o RNA das amostras, que mostra quais genes estão funcionando, e encontrou algas capazes de fazer fotossíntese, com genes ligados a reparo celular, resposta a estresse e sobrevivência em ambiente salgado.
“Não estamos simplesmente vendo restos genéticos. Estamos vendo evidências de organismos respondendo a um ambiente duro e em mudança: congelamento, degelo, estresse salino, exposição ao ferro e longos períodos de inatividade”, disse Zoumplis, em comunicado do JCVI.
Trazidos pelo vento ou pelo mar?
Fósseis de diatomáceas marinhas já tinham sido achados em vários ambientes do interior da Antártida, o que gerava debate: o mar chegou até ali no passado ou o vento levou esse material? No novo estudo, sinais marinhos foram raros nas amostras coletadas do vento, e a comunidade das Cataratas de Sangue tinha diferenças genéticas em relação à do mar atual de McMurdo.
“Esses resultados apontam para persistência, não apenas para entrega”, afirmou Andrew Allen, professor do JCVI e da Scripps e autor sênior. O estudo não descarta totalmente o transporte pelo vento, mas considera improvável que ele explique o padrão encontrado.
Não é um oceano congelado no tempo
Os pesquisadores fazem uma ressalva: a descoberta não significa que exista ali uma comunidade oceânica antiga intacta. O mais provável é que os organismos de hoje descendam de espécies marinhas que chegaram em períodos de influência do oceano e foram selecionadas pelas condições extremas. Algumas formam células de repouso, cistos ou esporos, que permitem esperar anos até as condições melhorarem.
A salmoura das Cataratas de Sangue, rica em sais, ferro e sílica, funciona como um refúgio raro. Para os cientistas, isso faz do lugar uma janela para entender as antigas ligações entre oceano, gelo e terra na Antártida e para estudar como a vida resiste no limite.
Perguntas frequentes
Onde ficam as Cataratas de Sangue?
Na frente da geleira Taylor, nos Vales Secos de McMurdo, na Antártida.
Por que a água é vermelha?
Por causa do ferro dissolvido na salmoura, que oxida quando entra em contato com o ar.
O que o estudo descobriu?
Uma comunidade ativa de micro-organismos de origem marinha, como diatomáceas, na lama ao redor da cachoeira.
Onde a pesquisa foi publicada?
Na revista Nature Geoscience, em agosto de 2026, com pesquisadores do JCVI, da Scripps e de outras instituições.
Com informações do Instituto J. Craig Venter (JCVI) e do estudo publicado na revista Nature Geoscience.
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