
Pesquisa encontrou a Lei de Zipf em cantos de manons e reforça pistas sobre como aves aprendem e transmitem seus sons.
O que um gorjeio de pássaro pode ter em comum com palavras como “o”, “a”, “e” e “de”? Mais do que parece. Um estudo publicado na revista Science Advances identificou no canto do manon (Lonchura striata domestica) um padrão estatístico conhecido como Lei de Zipf, observado em praticamente todos os idiomas humanos. A pesquisa analisou centenas de amostras de vocalizações para mostrar que alguns sons aparecem com muita frequência, enquanto outros são usados cada vez menos, uma distribuição que pode facilitar o aprendizado dos cantos por aves jovens e a transmissão entre gerações.
O que é a Lei de Zipf
A Lei de Zipf recebeu esse nome em referência ao linguista norte-americano George Kingsley Zipf, que identificou o padrão ao estudar a frequência das palavras em diferentes línguas. A lógica é simples: a palavra mais usada tende a aparecer aproximadamente duas vezes mais do que a segunda colocada, três vezes mais do que a terceira e assim por diante.
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Vida na Terra pode ter surgido duas vezes, sugere estudoNa língua inglesa, por exemplo, o artigo “the” costuma ocupar o primeiro lugar entre as palavras mais frequentes. Termos equivalentes a “e” e “de” também aparecem muitas vezes em português. O resultado é uma curva estatística bastante característica, com poucas palavras muito comuns e um grande número de palavras raras.
Esse padrão não significa que as palavras mais frequentes sejam necessariamente as mais importantes em uma frase. Ele descreve a maneira como os elementos de um idioma se distribuem ao longo de um texto. Por isso, os pesquisadores puderam procurar uma organização semelhante em sons de animais, mesmo sem atribuir a eles o mesmo significado encontrado na comunicação humana.
O que os pesquisadores encontraram nos manons
Para investigar os cantos, a equipe fragmentou gravações em unidades menores, como gorjeios e pios, e calculou quantas vezes cada unidade aparecia. O procedimento foi inspirado em hipóteses sobre a forma como bebês humanos identificam padrões e começam a separar palavras durante a aquisição da linguagem.
Os resultados indicaram que os cantos dos manons apresentam uma distribuição compatível com a Lei de Zipf. Em vez de uma sequência em que todos os sons aparecem com a mesma frequência, algumas unidades funcionam como elementos recorrentes, enquanto outras surgem ocasionalmente.
Segundo a Science Advances, o estudo encontrou a Lei de Zipf no canto do manon, uma ave canora, em pesquisa baseada em centenas de amostras analisadas por algoritmo. A identificação do padrão não prova que os pássaros tenham uma linguagem com significado equivalente à humana, mas revela uma semelhança matemática entre sistemas de comunicação separados por milhões de anos de evolução.
Entenda o caso
O manon é uma ave conhecida por aprender e reproduzir cantos. Em aves canoras, os filhotes não dependem apenas de um repertório totalmente programado ao nascer: eles podem ser influenciados pelos sons de adultos e do ambiente.
A hipótese dos pesquisadores é que a repetição de poucas unidades muito frequentes ajude os jovens a encontrar referências dentro de uma sequência sonora. Essas unidades poderiam indicar onde um padrão termina e outro começa, de modo parecido com as palavras mais reconhecíveis em uma frase de um idioma desconhecido.
Ainda não está comprovado que a distribuição estatística tenha surgido especificamente para facilitar a aprendizagem. O estudo apresenta essa possibilidade como uma explicação a ser investigada, e não como uma conclusão definitiva sobre a intenção ou a capacidade cognitiva das aves.
Uma pista sobre o aprendizado dos cantos
Simon Kirby, cientista cognitivo e um dos autores do estudo, afirmou à Scientific American que a descoberta amplia as formas de comparar a comunicação entre espécies. “De repente, temos espécies não relacionadas que fazem algo semelhante ao que os humanos fazem”, disse. “Isso nos dá uma nova divisão, uma nova maneira de classificar os sistemas de comunicação no mundo.”
O raciocínio é que sons muito comuns poderiam servir como pontos de referência para um ouvinte inexperiente. Ao reconhecer essas unidades, uma ave jovem teria mais facilidade para organizar o restante do canto e memorizar sequências menos frequentes.
Algo semelhante ocorre com pessoas que escutam um idioma que não dominam. Mesmo sem compreender todas as palavras, é possível identificar termos recorrentes, pausas e combinações que ajudam a separar trechos da fala. A comparação, porém, deve ser feita com cuidado: os pesquisadores não afirmam que o manon possua gramática ou vocabulário equivalente aos humanos.
O padrão também apareceu em baleias
A relevância do resultado aumenta porque a mesma distribuição estatística já havia sido identificada no canto das baleias-jubarte. Manons e jubartes pertencem a grupos muito diferentes, o que sugere que padrões semelhantes podem surgir de forma independente quando uma espécie precisa aprender e transmitir sequências sonoras.
Essa possibilidade interessa especialmente aos estudos sobre comunicação animal. Na Amazônia, onde vivem centenas de espécies de aves e outros animais capazes de produzir vocalizações complexas, pesquisas desse tipo podem ajudar a compreender como o ambiente, a convivência entre indivíduos e a transmissão cultural influenciam os repertórios sonoros.
Isso não significa que todos os cantos de aves amazônicas sigam a Lei de Zipf. Cada espécie tem repertório, comportamento e história evolutiva próprios. A contribuição do estudo está em oferecer uma ferramenta matemática para comparar sistemas de comunicação e investigar se certas estruturas favorecem a aprendizagem.
Próximos passos da pesquisa
Os autores planejam procurar outros paralelos entre a linguagem humana e os sistemas de comunicação de animais. A intenção é descobrir se há padrões que aparecem repetidamente em espécies que precisam aprender vocalizações ao longo da vida.
As próximas análises deverão ajudar a separar duas possibilidades: a de que a Lei de Zipf seja apenas um efeito estatístico comum em sequências complexas, ou a de que ela cumpra uma função prática, como tornar o aprendizado mais eficiente. Os pesquisadores devem ampliar a comparação para outras espécies e investigar de que maneira aves jovens respondem às unidades mais frequentes de seus cantos.
Perguntas frequentes
O que é a Lei de Zipf?
É um padrão estatístico no qual poucas palavras ou sons aparecem muitas vezes, enquanto a maioria ocorre com menor frequência. Ele é observado em diversos idiomas humanos e agora também foi identificado no canto de manons.
Os manons têm uma linguagem como a dos humanos?
Não há evidência disso. O estudo encontrou uma semelhança na distribuição dos sons, mas não demonstrou que as aves usem palavras com significados ou uma gramática equivalente à humana.
Por que a descoberta é importante?
O padrão pode ajudar a explicar como aves jovens reconhecem e aprendem cantos transmitidos por indivíduos adultos. Também cria uma nova forma de comparar a comunicação entre espécies distantes.
Os próximos estudos deverão testar se a Lei de Zipf realmente facilita a aprendizagem ou se representa apenas uma característica estatística comum a diferentes tipos de comunicação animal.
Com informações da revista Science Advances.
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