Um pequeno pedaço de proteína considerado inofensivo por décadas pode ser um culpado esquecido do Alzheimer, defende pesquisador

Um pequeno pedaço de proteína considerado inofensivo por décadas pode ser um culpado esquecido do Alzheimer, defende pesquisador
Ilustração de placas de beta-amiloide (em marrom) e emaranhados de proteína tau (em azul) num cérebro com Alzheimer. Imagem: NIH, via Wikimedia Commons, domínio público.

Por décadas, bilhões de dólares foram investidos em tratamentos para o Alzheimer voltados contra o beta-amiloide, um pedaço de proteína que forma placas no cérebro. Os resultados ficaram abaixo do esperado. Um bioquímico da Universidade da Califórnia em Santa Cruz acredita que a ciência pode ter ignorado outro suspeito: um peptídeo menor e muito parecido, chamado P3, considerado inofensivo há muito tempo.

O pesquisador Jevgenij Raskatov apresentou os argumentos num comentário publicado na revista científica ChemBioChem.

Por que os tratamentos avançam devagar

O Alzheimer é a doença neurodegenerativa mais comum do mundo, com cerca de 35 milhões de pessoas afetadas e custos anuais acima de 800 bilhões de dólares, e o número deve dobrar até 2050. Mais de 400 ensaios clínicos testaram remédios, a maioria contra o beta-amiloide. Muitos fracassaram e outros trouxeram benefícios modestos. Anticorpos recentes, como o lecanemabe e o donanemabe, ajudam a remover o amiloide do cérebro, mas o ganho ainda é limitado, e há riscos como sangramentos cerebrais.

O parente esquecido

O beta-amiloide nasce de uma proteína maior, a proteína precursora do amiloide, cortada em sequência por duas enzimas. O P3 vem da mesma proteína, mas por outro caminho de cortes, feito por uma enzima diferente. Raskatov propõe chamá-lo de amiloide alfa, para deixar clara a diferença e a capacidade de formar aglomerados.

Por anos, os cientistas supuseram que o P3 não formava depósitos, não era tóxico e se dissolvia em água. Segundo Raskatov, essas suposições nunca foram bem verificadas, mas ajudaram a tirar o P3 das pesquisas.

O que os testes mostraram

Nos últimos cinco anos, o laboratório dele publicou três estudos mostrando que o P3 forma depósitos de amiloide pelo menos tão facilmente quanto o beta-amiloide, e até mais rápido. Também há sinais de que o P3 é tóxico para neurônios, embora menos que o beta-amiloide. Um grupo independente no Reino Unido confirmou e ampliou os resultados, e outros laboratórios investigam agora como os dois peptídeos interagem.

Para Raskatov, o P3 provavelmente não é o espectador inocente que se pensava, e isso pode virar a pesquisa do Alzheimer de cabeça para baixo. Para o neurologista David Teplow, professor emérito da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a reavaliação tem consequências amplas para a pesquisa básica e clínica.

O próprio Raskatov ressalta que ainda é preciso mais pesquisa para saber se e como o P3 contribui para a doença nos pacientes.

Alzheimer no Brasil

Com o envelhecimento da população, o número de pessoas com demência cresce no Brasil, e o Alzheimer é a causa mais comum. Os primeiros sinais costumam ser esquecimentos frequentes de fatos recentes, dificuldade para encontrar palavras, desorientação e mudanças de comportamento. O diagnóstico precoce permite tratar sintomas, planejar cuidados e apoiar a família. Controlar pressão, diabetes e colesterol, manter atividade física, estudar, se manter socialmente ativo e tratar a perda de audição estão entre as medidas que reduzem o risco de demência.

Perguntas frequentes

O que é o beta-amiloide?

Um fragmento de proteína que forma placas no cérebro de pessoas com Alzheimer.

O P3 causa Alzheimer?

Ainda não se sabe. As pesquisas mostram que ele forma aglomerados e pode ser tóxico, mas o papel na doença precisa ser confirmado.

Com informações da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

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