A Austrália tinha 2,2 milhões de indígenas quando os europeus chegaram, sete vezes mais do que se pensava, e 93% morreram em apenas 73 anos

A Austrália tinha 2,2 milhões de indígenas quando os europeus chegaram, sete vezes mais do que se pensava, e 93% morreram em apenas 73 anos
Mulheres e crianças aborígenes em Maloga, Nova Gales do Sul, em cartão-postal antigo. Imagem: autor desconhecido, via Wikimedia Commons, domínio público.

Antes da chegada da Primeira Frota britânica, em 1788, a Austrália tinha muito mais habitantes do que os livros de história costumam dizer. Uma nova pesquisa estima que cerca de 2,22 milhões de indígenas viviam no continente, até sete vezes mais do que alguns cálculos antigos. O estudo também revela a escala da tragédia que veio depois: em menos de 80 anos, 93% dessa população se perdeu.

O trabalho foi publicado na revista científica Nature Human Behaviour por pesquisadores do Centro de Excelência para Histórias e Futuros Indígenas e Ambientais, em parceria com pesquisadores indígenas.

Um número que estava errado

As estimativas mais usadas vinham de cálculos feitos nos anos 1930 pelo antropólogo Alfred Radcliffe-Brown, que chegou a cerca de 250 mil pessoas. Outras estimativas iam de 250 mil a 1 milhão. O próprio Radcliffe-Brown reconhecia que não levava em conta todo o efeito das doenças e da violência nas fronteiras coloniais.

A nova equipe combinou observações etnográficas, achados arqueológicos, reconstruções genéticas e modelos de computador, incluindo quantas pessoas cada ambiente do continente podia sustentar. O resultado, 2,22 milhões, corresponde a cerca de 0,29 pessoa por quilômetro quadrado.

Os pesquisadores acreditam que as estimativas antigas eram baixas porque, quando os primeiros censos foram feitos, a população já tinha sido devastada.

A dimensão da catástrofe

Usando o modelo e os primeiros censos, a equipe calculou cerca de 2,06 milhões de mortes a mais do que o esperado entre 1788 e 1861, uma média de 28,2 mil por ano ao longo de 73 anos. Em 1861, restavam cerca de 7% da população original.

Para o pesquisador Alan Williams, autor principal, os resultados mostram o impacto devastador da invasão sobre os povos indígenas e também sua notável sobrevivência, resistência e recuperação no último século. Para o professor Corey Bradshaw, da Universidade Flinders, conhecer o tamanho dessas populações é essencial para a verdade histórica e a reconciliação.

Uma recuperação lenta

A população indígena australiana cresce desde os anos 1950, mas ainda não voltou ao tamanho de antes da colonização. Pelo censo de 2021, ela equivalia a cerca de 37% da estimativa para 1788. Mantido o ritmo atual, só deve atingir o nível pré-colonial por volta de 2047.

Para a professora Lynette Russell, da Universidade Monash, entender essa catástrofe ajuda a compreender o trauma que passa de geração em geração e deve orientar políticas para os povos indígenas.

Uma história parecida com a do Brasil

O que aconteceu na Austrália se parece com a história das Américas. No Brasil, os povos indígenas também foram drasticamente reduzidos após 1500 por epidemias, guerras e escravidão, e os números da população original seguem em debate entre pesquisadores. Hoje, o Censo de 2022 do IBGE contou cerca de 1,7 milhão de indígenas no país, de mais de 300 povos.

Perguntas frequentes

Quantos indígenas viviam na Austrália em 1788?

Cerca de 2,22 milhões, segundo a nova estimativa.

Por que a população caiu tanto?

Por doenças trazidas pelos colonizadores, violência nas fronteiras e opressão sistemática.

Com informações da Universidade Flinders e do estudo publicado na Nature Human Behaviour.

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