Mistério de 100 anos resolvido na Flórida: cerâmicas decoradas não vieram por comércio, foram feitas por artesãos que migraram centenas de quilômetros

Mistério de 100 anos resolvido na Flórida: cerâmicas decoradas não vieram por comércio, foram feitas por artesãos que migraram centenas de quilômetros
Tigela com efígie de ave da cultura do Mississippi, de cerca de 1350 a 1550, no museu da Universidade do Arkansas. Foto: Wmpearl, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Há cerca de cem anos, arqueólogos que escavavam fragmentos de cerâmica perto da baía de Tampa, na Flórida, encontraram algo intrigante. Algumas peças tinham decoração muito parecida com a de cerâmicas encontradas centenas de quilômetros ao norte, ligadas à cultura do Mississippi. Como elas foram parar ali? Um estudo do Museu de História Natural da Flórida finalmente propõe uma resposta.

A cultura do Mississippi

Por volta do ano 1000, uma nova forma de organização surgiu no vale do rio Mississippi e se espalhou por boa parte do que hoje são o Meio-Oeste e o leste dos Estados Unidos. Comunidades indígenas se organizaram em chefaturas poderosas, plantaram grandes áreas de milho e moveram enormes quantidades de terra para construir montes com templos e casas de líderes no topo.

A baía de Tampa ficava longe desses centros. A cultura local, chamada Safety Harbor, também tinha chefaturas e montes de topo plano, mas nunca acumulou o mesmo poder e não adotou a agricultura de milho. Vivia da pesca e dos recursos do mar.

Segundo o arqueólogo Neill Wallis, curador do museu, o debate durava um século: os sítios de Tampa tinham alguns traços mississipianos, mas não outros, e a cerâmica com cara de mississipiana sempre levantou a pergunta de como tinha chegado ali.

Comércio, cópia ou migração?

Havia três possibilidades. As peças podiam ter sido trazidas do norte pelo comércio, podiam ser cópias locais dos desenhos ou podiam ter sido feitas por migrantes. Para descobrir, o pesquisador Trevor Duke e colegas reuniram 58 fragmentos simples e decorados.

Primeiro, usaram uma técnica chamada análise por ativação de nêutrons para medir a composição química das peças e compará-la com o barro da região. A química bateu: as vasilhas foram feitas ali mesmo, o que descartou o comércio de peças prontas.

Depois, examinaram fatias finíssimas das peças ao microscópio, com luz polarizada, para ver como foram feitas por dentro. Oleiros mississipianos costumavam misturar concha moída ou cacos de cerâmica velha ao barro e montar as vasilhas com rolos sobrepostos. As peças decoradas de Tampa tinham barro, misturas e métodos de fabricação diferentes dos da cerâmica comum da região.

Artesãos que se mudaram

A conclusão é que as vasilhas decoradas foram feitas por um pequeno grupo de artesãos habilidosos que provavelmente viajaram centenas de quilômetros do coração da cultura do Mississippi e se estabeleceram em Tampa. Segundo Duke, eles chegaram às comunidades locais para trabalhar e morar ali. Eles tinham conhecimento especializado e acesso a recursos que muitos moradores não tinham.

As peças decoradas provavelmente eram usadas para preparar e servir comida, talvez em ocasiões especiais.

A cerâmica da Amazônia

A história lembra como a cerâmica conta a trajetória de povos antigos também no Brasil. Na ilha de Marajó, no Pará, a cultura marajoara produziu, entre cerca de 400 e 1400, urnas e vasos com pinturas e relevos sofisticados, hoje guardados em museus como o Museu Paraense Emílio Goeldi. Análises de barro e técnicas, como as feitas na Flórida, ajudam arqueólogos a entender trocas, migrações e a organização dessas sociedades.

Perguntas frequentes

O que foi a cultura do Mississippi?

Uma cultura indígena que surgiu por volta do ano 1000 no vale do Mississippi, com chefaturas, agricultura de milho e grandes montes de terra.

Como saber onde uma cerâmica foi feita?

Comparando a química do barro com depósitos locais e examinando a técnica de fabricação ao microscópio.

Com informações do Museu de História Natural da Flórida.

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