Acampamento de 13.800 anos no Alasca mostra como viviam os humanos que cruzaram a ponte de terra entre a Ásia e a América: caçavam mamute e costuravam com agulhas de osso de ave

Acampamento de 13.800 anos no Alasca mostra como viviam os humanos que cruzaram a ponte de terra entre a Ásia e a América: caçavam mamute e costuravam com agulhas de osso de ave
Rio Tanana em Tanacross, no Alasca. Foto: Diego Delso, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Durante a última era glacial, a Ásia e a América do Norte estavam ligadas por uma faixa de terra que hoje está no fundo do mar, a Beríngia. Ela se formou há cerca de 35 mil anos e desapareceu sob a subida do oceano por volta de 12 mil anos atrás. Por ali passaram animais e pessoas. Um sítio arqueológico no Alasca mostra em detalhes como viviam alguns desses primeiros habitantes.

O estudo foi publicado na revista científica Science Advances por uma equipe liderada pela antropóloga Kelly Graf, da Universidade do Kansas.

Eles estiveram aqui

O sítio se chama Shég’ Xdaltth’i’, que na língua atabascana dos nativos do Alasca significa eles estiveram lá. Fica numa pequena elevação sobre o rio Tanana, um dos grandes rios da região. Hoje é cercado de pinheiros. No fim do Pleistoceno, a era do gelo, era coberto por tundra arbustiva.

O local tem três momentos de ocupação, datados de 13.800, 13 mil e 12.700 anos atrás, e revela como esses grupos chegaram e se fixaram no extremo norte do continente.

Mamute, bisão e cavalo

Segundo Graf, a Beríngia é cheia de evidências da caça à megafauna. Em Shég’ Xdaltth’i’, os moradores caçavam mamutes, bisões e cavalos, espécies hoje extintas na região, além de caribus, que ainda são essenciais para os povos indígenas do Alasca.

Graf visita o sítio desde 2013 e dirige as escavações. Foram encontradas mais de 80 mil peças arqueológicas. Entre as favoritas da pesquisadora está uma grande bigorna de pedra, encontrada dentro de uma estrutura de moradia, cercada por ossos de bisão muito quebrados e por martelos de quartzo e quartzito. Para a equipe, ali se quebravam ossos para tirar o tutano e, provavelmente, derreter gordura, perto de um grande forno de terra.

Agulhas e pontas de diamante

Outros achados incluem agulhas feitas de ossos de aves, prova de que essas pessoas costuravam roupas, essenciais para sobreviver ao frio, e muitas pontas de pedra em forma de losango, provavelmente pontas de armas.

Segundo Graf, é o único sítio do Alasca com esse formato tão claro de ponta. Os únicos outros lugares com pontas parecidas nessa época, em contexto do norte, ficam do lado russo da antiga ponte de terra. Isso sugere que pessoas atravessaram a Beríngia de um lado para o outro, e talvez de volta.

A ligação com toda a América

Os povos que passaram pela Beríngia são os ancestrais dos indígenas de todas as Américas, inclusive do Brasil. Estudos genéticos indicam que, depois de chegar, eles se dividiram em ramos que se espalharam do Alasca à Terra do Fogo. Sítios como Shég’ Xdaltth’i’ ajudam a entender o começo dessa jornada.

Perguntas frequentes

O que foi a Beríngia?

Uma faixa de terra que ligava a Sibéria ao Alasca durante a última era glacial e que hoje está submersa no estreito de Bering.

Os primeiros americanos caçavam mamutes?

Sim. Em Shég’ Xdaltth’i’ há evidências de caça de mamutes, bisões e cavalos.

Com informações da Universidade do Kansas e do estudo publicado na Science Advances.

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