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Estudo com satélites mostra que notas ESG refletem mais imagem pública que perda real de floresta em 13.841 empresas

Estudo com satélites mostra que notas ESG refletem mais imagem pública que perda real de floresta em 13.841 empresas
Foto: National University of Singapore

Pesquisa internacional aponta falhas na avaliação ambiental corporativa e defende o uso sistemático de dados geoespaciais.

Uma empresa pode aparecer bem avaliada em critérios ambientais mesmo quando seus ativos ou fornecedores estão próximos de áreas com perda de floresta. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado em 2026 que cruzou imagens de satélite, localização de ativos, cadeias globais de commodities e classificações ESG de 13.841 companhias entre 2013 e 2024.

Conduzida por pesquisadores da National University of Singapore, a pesquisa examinou se as notas ambientais, sociais e de governança realmente medem a exposição empresarial ao desmatamento. A análise encontrou pouca evidência de que os ratings acompanhem de forma consistente a perda de cobertura florestal observada no território.

Quando a reputação pesa mais que o mapa

Os ratings ESG são usados por investidores para comparar empresas e direcionar recursos para negócios considerados mais responsáveis. Na prática, essas avaliações combinam informações divulgadas pelas próprias companhias, dados financeiros, políticas corporativas, notícias e critérios definidos por diferentes provedores comerciais.

O problema apontado pelo estudo é que a avaliação pode refletir melhor o que uma empresa declara ou o que se publica sobre ela do que a transformação efetivamente registrada no solo. Notícias positivas sobre medidas de controle ambiental e reportagens negativas relacionadas a escândalos de desmatamento tiveram associação mais forte com as notas do que as medidas independentes de perda florestal.

Segundo a National University of Singapore, o estudo analisou 18 notas ESG gerais e 12 subnotas relacionadas ao desmatamento, produzidas por cinco grandes provedores internacionais, com dados de perda florestal e exposição a cadeias de fornecimento entre 2013 e 2024.

Como a pesquisa mediu a exposição das empresas

Os pesquisadores observaram a perda de floresta no entorno dos ativos corporativos e também rastrearam a participação de 210 empresas em cadeias de produtos associados ao risco de desmatamento. A segunda frente considerou informações entre 2013 e 2020 e incluiu óleo de palma, soja, carne bovina, carne suína, frango e produtos de madeira.

Essa combinação é importante porque uma companhia pode não desmatar diretamente, mas ainda assim estar exposta ao problema por meio de fornecedores, compradores, processadores ou propriedades vinculadas à sua operação. Sem dados espaciais, essa relação tende a desaparecer dentro de médias, declarações genéricas e indicadores de gestão.

O uso de satélites não resolve sozinho a atribuição de responsabilidade. Uma imagem registra a mudança na cobertura do solo, mas não identifica automaticamente quem causou a derrubada, quem se beneficiou dela ou se a área fazia parte de uma cadeia de fornecimento específica. Por isso, a proposta dos pesquisadores é integrar as imagens a registros de ativos, rastreabilidade e informações empresariais.

O viés entre commodities também apareceu

A pesquisa identificou diferenças entre setores. Empresas ligadas ao óleo de palma tinham maior probabilidade de receber notas mais baixas relacionadas ao desmatamento do que companhias associadas às cadeias de soja, carne suína ou frango.

Esse resultado não prova que uma commodity seja sempre mais ou menos responsável pela perda florestal. Ele sugere que a forma como o risco é percebido e documentado varia entre produtos. Uma cadeia mais exposta a campanhas, denúncias ou cobertura internacional pode ser mais penalizada nas avaliações, enquanto impactos menos visíveis podem receber menor peso.

O achado ajuda a explicar por que duas empresas com riscos territoriais semelhantes podem receber classificações diferentes. Também indica que a transparência pública, embora relevante, não deve substituir a verificação independente da paisagem.

Por que isso interessa à Amazônia

Para a Amazônia brasileira, a discussão envolve atividades presentes ou conectadas aos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. Soja, pecuária, madeira e infraestrutura fazem parte de cadeias que podem ser analisadas por localização, origem da produção e alteração da cobertura vegetal, ainda que o estudo internacional não tenha apresentado uma classificação específica para cada estado brasileiro.

Na região, imagens de satélite já são fundamentais para detectar mudanças na floresta e orientar fiscalização. O passo adicional sugerido pela pesquisa é vincular essas evidências a empresas, contratos, propriedades e fluxos comerciais. Isso pode dar aos investidores uma visão mais precisa do risco e ajudar compradores a separar compromissos verificáveis de promessas sem confirmação territorial.

Para comunidades, órgãos públicos e fornecedores amazônicos, a mudança também teria efeitos práticos. Uma avaliação baseada em dados geográficos pode aumentar a pressão sobre empresas associadas a áreas críticas, mas também reduzir acusações genéricas contra cadeias inteiras quando houver comprovação de origem regular e controle efetivo.

O que os ratings podem melhorar

Os autores não defendem o abandono das notas ESG. O argumento é que elas possuem ampla cobertura empresarial e, por isso, poderiam influenciar uma parcela maior do capital investido. O ponto considerado insuficiente é a ausência de informação espacial detalhada na composição dos índices.

Com dados de satélite incorporados de maneira padronizada, os ratings poderiam acompanhar indicadores como proximidade de áreas com perda florestal, evolução temporal da cobertura vegetal e exposição indireta por fornecedores. Ainda seria necessário definir regras para lidar com diferenças entre biomas, escalas de análise, autorizações legais e erros de interpretação das imagens.

Também existe uma dificuldade de governança. Os provedores comerciais usam metodologias próprias, e a falta de transparência sobre pesos, fontes e critérios pode impedir que investidores compreendam por que uma nota mudou. A adoção de dados geoespaciais precisaria vir acompanhada de auditoria, atualização frequente e possibilidade de contestação pelas empresas e comunidades afetadas.

O estudo foi liderado pelo professor associado L. Roman Carrasco, com participação da pesquisadora Yingtong Zhu e do professor Johan Sulaeman, do NUS Sustainable and Green Finance Institute. Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o trabalho coloca a integração entre finanças e monitoramento territorial como próximo passo para tornar o investimento sustentável mais verificável.

A incorporação dessas bases aos sistemas de avaliação dependerá agora de mudanças metodológicas dos provedores ESG, de maior abertura dos dados corporativos e de testes que mostrem se as novas métricas conseguem distinguir risco real de reputação ambiental.

Com informações da National University of Singapore.

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