Estudo revela peixes na Amazônia com níveis de mercúrio 30 vezes acima do limite

Foto: Nayara Jinknss/Greenpeace
Foto: Nayara Jinknss/Greenpeace

O banquete tóxico nas águas do Baixo Amazonas

Para as comunidades que habitam as margens dos rios no oeste do Pará, o peixe não é apenas uma escolha gastronômica, mas a espinha dorsal de sua sobrevivência biológica e cultural. No entanto, um estudo contundente realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento da Universidade Federal do Oeste do Pará revela uma realidade sombria sob a superfície das águas. A investigação científica constatou que todas as espécies analisadas nos municípios de Faro, Juruti, Santarém, Porto Trombetas e Itaituba carregam uma carga perigosa de metais tóxicos, superando em até 30 vezes os limites de tolerância estabelecidos para o consumo humano.

Neste artigo
  1. O banquete tóxico nas águas do Baixo Amazonas
  2. A biomagnificação e os culpados ocultos na terra
  3. O rastro do arsênio e a correlação com a saúde pública
  4. Alternativas à proibição e a urgência do monitoramento
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A pesquisa focou em espécies icônicas da culinária local, como o pirarucu, tucunaré, piranha, acari, aracu e caparari. O diferencial metodológico foi o acompanhamento direto dos pesquisadores aos locais de captura, garantindo uma rastreabilidade sem precedentes. Os resultados apontam que o mercúrio e o arsênio são os protagonistas de uma ameaça invisível que atinge, de forma desproporcional, aqueles que consomem o pescado diariamente. Enquanto para o turista ou o consumidor esporádico o risco é diluído, para o ribeirinho, cada refeição torna-se um acúmulo de bioindicadores de degradação ambiental.

A biomagnificação e os culpados ocultos na terra

A presença desses metais não é um fenômeno isolado, mas o subproduto de uma pressão sinérgica sobre o ecossistema amazônico. O estudo estabelece um nexo causal entre a contaminação e atividades como o garimpo ilegal de ouro, que utiliza o mercúrio de forma indiscriminada, e a extração de bauxita, que gera resíduos conhecidos como lama vermelha. Somam-se a isso o desmatamento desenfreado e a expansão das fronteiras da soja. Esses processos promovem a erosão do solo, liberando metais que ocorrem naturalmente na terra, mas que, ao serem carreados para os leitos dos rios, entram em um ciclo destrutivo de bioacumulação.

 

biomagnification of mercury in food chain, gerada com IA

 

Nas cadeias alimentares aquáticas, os metais pesados seguem a lógica da biomagnificação: quanto mais alto o nível trófico da espécie, maior a concentração de toxinas. Peixes predadores e carnívoros, como o tucunaré e a piranha, funcionam como verdadeiros depósitos biológicos de mercúrio. Ao consumir esses animais, o ser humano posiciona-se no topo dessa pirâmide de contaminação. O mercúrio, em particular, é uma neurotoxina agressiva que ataca o sistema nervoso central, podendo causar danos renais crônicos, problemas respiratórios e comprometimento irreversível do desenvolvimento cognitivo em crianças.

O rastro do arsênio e a correlação com a saúde pública

Além do mercúrio, a pesquisa acendeu um sinal vermelho para o arsênio e o cádmio. Cerca de 25% das amostras coletadas apresentaram um risco considerável de desenvolvimento de câncer. O peixe acari, uma iguaria popular e acessível, destacou-se negativamente nesse quesito. A análise cruzou os dados laboratoriais com registros da Secretaria de Saúde do Pará, identificando um aumento atípico nos casos de câncer de pele entre os anos de 2022 e 2024, especialmente em Santarém e Juruti — justamente onde as concentrações de arsênio nos peixes foram mais elevadas.

Embora a correlação exija estudos epidemiológicos mais profundos para ser declarada como uma relação direta de causa e efeito, a coincidência geográfica e temporal é alarmante. O arsênio é conhecido mundialmente por seu potencial carcinogênico e por causar lesões cutâneas graves. O fato de populações tradicionais estarem expostas a esse elemento através de sua principal fonte de proteína configura uma crise de saúde pública que ultrapassa as fronteiras da preservação ambiental, atingindo o cerne da segurança alimentar e da dignidade humana na Amazônia.

Várias espécies de peixes em um único tanque
Várias espécies de peixes em um único tanque

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Alternativas à proibição e a urgência do monitoramento

Diante de um cenário tão crítico, a solução óbvia — a proibição do consumo — é descartada pelos especialistas como inviável e socialmente desastrosa. Interromper o consumo de peixe na região agravaria a insegurança alimentar de milhões de pessoas que não possuem alternativas proteicas viáveis ou acessíveis. Em vez disso, a Ufopa e outras instituições de pesquisa defendem uma mudança de paradigma na gestão governamental. A proposta foca no monitoramento contínuo e rigoroso da qualidade das águas e do pescado, integrando a vigilância sanitária às políticas de combate aos crimes ambientais.

O enfrentamento da questão exige que organizações internacionais como o Greenpeace e órgãos de controle continuem expondo as feridas abertas pelo garimpo e pela mineração predatória. A preservação da saúde dos ribeirinhos depende da integridade dos rios. É imperativo que a formulação de políticas públicas para a região amazônica deixe de tratar a saúde e o meio ambiente como gavetas separadas. Somente através de uma vigilância em saúde integrada e da contenção das atividades que liberam esses metais será possível garantir que o peixe volte a ser, exclusivamente, um símbolo de nutrição e vida para os povos da floresta.

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