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Tecnologias sociais nascidas nas comunidades apontam caminhos para o Brasil

Realizado pela Fundação Banco do Brasil em parceria com o CCBB, em Brasília, o Festival de Soluções Sociais para o Brasil reuniu iniciativas de todo o país e anunciou os vencedores do 13º Prêmio FBB de Tecnologia Social. Da energia solar indígena do Rio Negro às línguas registradas em Belém, a Amazônia esteve no centro das soluções.

Vista geral do festival no CCBB Brasília, com a feira de sociobiodiversidade e o público circulando entre os estandes dos projetos. Buscar imagem oficial que transmita a diversidade de iniciativas reunidas.Crédito: Fundação Banco do Brasil / divulgação
Vista geral do festival no CCBB Brasília, com a feira de sociobiodiversidade e o público circulando entre os estandes dos projetos. Buscar imagem oficial que transmita a diversidade de iniciativas reunidas.
Crédito: Fundação Banco do Brasil / divulgação

Por três dias, no fim de maio, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, virou vitrine de um Brasil que costuma ficar fora dos holofotes. Entre 27 e 29 de maio de 2026, o Festival de Soluções Sociais para o Brasil reuniu projetos que enfrentam, no dia a dia, problemas como a fome, a desigualdade, a falta de água e energia e a perda de saberes tradicionais.

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Realizado pela Fundação Banco do Brasil em parceria com o CCBB, o evento teve entrada gratuita e juntou mesas de debate, oficinas, exibições audiovisuais e uma feira de sociobiodiversidade. A abertura contou com a presidenta do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e a programação foi transmitida pela internet. No último dia, um show com as cantoras Letícia Fialho e Luedji Luna encerrou a celebração.

Mas o coração do festival estava nas soluções. Foi ali que a Fundação anunciou as iniciativas reconhecidas no 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, e parte expressiva delas carrega o DNA da Amazônia.

O que é uma tecnologia social

O termo pode soar técnico, mas a ideia é simples. Tecnologia social é toda solução criada junto com a comunidade para resolver um problema concreto, usando poucos recursos e de um jeito que possa ser copiado em outros lugares.

Não se trata de inventar do zero, e sim de organizar e dar escala ao que já dá certo no território. Um grupo de mulheres que mantém viva uma técnica de bordado. Uma comunidade que aprende a cuidar do próprio sistema de energia. Um bairro que transforma óleo de cozinha em sabão. Cada um desses arranjos vira método quando passa a ser documentado, ensinado e replicado.

É justamente esse esforço de transformar boas práticas locais em modelos que o festival se propôs a reconhecer. As soluções premiadas conversam com temas caros à Revista Amazônia, como sustentabilidade, bioeconomia, saberes ancestrais e preservação cultural.

Energia e autonomia nos territórios indígenas

Em comunidades isoladas da Amazônia, é comum que sistemas de energia cheguem e parem de funcionar pouco tempo depois, por falta de quem saiba operar e consertar. O Centro de Aprendizagem Indígena do Rio Negro nasceu para mudar essa rotina.

Desenvolvida pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a iniciativa instala sistemas de energia solar e, ao mesmo tempo, forma moradores das próprias comunidades para cuidar deles. Os painéis fotovoltaicos funcionam como sala de aula. Os participantes aprendem a operar os equipamentos, diagnosticar falhas e fazer a manutenção, sem depender de socorro externo.

A energia não é um fim em si. Ela mantém vacinas e remédios refrigerados, abastece água, sustenta a segurança alimentar, liga escolas e conexões de internet e dá força a cadeias produtivas locais. Cada painel que substitui o gerador a diesel também significa menos combustível fóssil queimado dentro da floresta, uma resposta direta à crise climática.

O modelo se apoia na estrutura da própria Foirn, organizada em cinco coordenadorias, e nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das comunidades. A noção de Bem Viver, central para muitos povos indígenas, orienta as decisões. A energia é tratada como assunto coletivo, e não apenas técnico.

Painéis solares instalados em comunidade indígena do Alto Rio Negro, com moradores fazendo a operação ou manutenção do sistema. A cena deve mostrar a tecnologia integrada à vida da aldeia, e não equipamento isolado.Crédito: Foirn / Agência Brasil / acervo institucional do projeto
Painéis solares instalados em comunidade indígena do Alto Rio Negro, com moradores fazendo a operação ou manutenção do sistema. A cena deve mostrar a tecnologia integrada à vida da aldeia, e não equipamento isolado.
Crédito: acervo institucional do projeto

O alcance potencial impressiona. Segundo a iniciativa, o sistema pode ser replicado em mais de 750 comunidades. É como imaginar uma rede de pequenas usinas espalhadas pela floresta, cada uma cuidada por quem mora ali. A energia deixa de ser um insumo trazido de fora e passa a ser uma capacidade da própria comunidade.

 

Línguas, leitura e identidade

Quando uma língua morre, levam junto formas inteiras de enxergar o mundo. É contra esse risco que trabalha o Dicionário Multimídia de Línguas Indígenas, desenvolvido no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.

Ancião ou professor indígena durante o registro de palavras para o dicionário, em diálogo com pesquisadores do Museu Goeldi. Valorizar o gesto da fala e a troca entre gerações.Crédito: Museu Paraense Emílio Goeldi
Ancião ou professor indígena durante o registro de palavras para o dicionário, em diálogo com pesquisadores do Museu Goeldi. Valorizar o gesto da fala e a troca entre gerações.
Crédito: Museu Paraense Emílio Goeldi

A tecnologia registra idiomas indígenas em áudio, vídeo e texto, guardando pronúncia, entonação, narrativas e o contexto cultural de cada palavra. O trabalho é conduzido com anciãos, professores e falantes nativos, que decidem o que registrar e como. O conhecimento não é extraído da comunidade, é produzido por ela.

Mais do que um arquivo, o dicionário funciona como ambiente vivo, usado na educação escolar indígena e no ensino bilíngue para formar novas gerações de falantes. A língua deixa de ser peça de museu e volta para a boca das crianças, fortalecendo a identidade e a autonomia dos povos.

No oeste do estado, outra iniciativa paraense foi reconhecida. A Afroteca, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), transforma o acervo de uma biblioteca em infraestrutura de educação antirracista. Reúne livros e materiais afrocentrados, promove rodas de leitura e mediação crítica e ocupa o território como espaço de formação política e cultural.

A proposta enfrenta uma exclusão histórica, a de narrativas e produções negras dos circuitos formais de ensino e cultura. Ao colocar esse acervo no centro da comunidade, a Afroteca trata o acesso ao conhecimento como ferramenta de equidade racial, e não como detalhe.

Roda de leitura ou atividade de mediação na Afroteca, com participantes jovens em torno do acervo afrocentrado. Mostrar o uso vivo da biblioteca como espaço de encontro.Crédito: Ufopa / divulgação
Roda de leitura ou atividade de mediação na Afroteca, com participantes jovens em torno do acervo afrocentrado. Mostrar o uso vivo da biblioteca como espaço de encontro.
Crédito: Ufopa / divulgação

Da floresta à farmácia e ao óleo reaproveitado

A relação entre meio ambiente, saúde e renda apareceu também em projetos de fora da Amazônia que dialogam diretamente com a pauta ambiental.

O Projeto Fitoterápicos, da Humana Brasil, organiza a produção de plantas medicinais em hortos comunitários e consórcios agroflorestais. A iniciativa começa por um levantamento das espécies e dos saberes locais sobre o preparo, feito junto com quem detém esse conhecimento. Depois, estrutura o cultivo coletivo e a transformação das plantas em chás, extratos e pomadas, com cuidado sanitário.

O resultado é sociobioeconomia na prática. A mesma cadeia que gera renda preserva espécies medicinais, mantém vivo o saber tradicional e amplia o acesso a cuidados básicos de saúde no território.

Já a Óleo no Ponto, da Associação Saber e Socializar, no Rio de Janeiro, ataca um problema urbano. O óleo de cozinha jogado na pia entope esgotos e contamina rios. A iniciativa organiza pontos de coleta, mobiliza moradores e converte o resíduo em sabão e biodiesel. Um passivo ambiental difuso vira renda, em um exemplo claro de economia circular conduzida pela própria comunidade.

Mobilidade, renda e saberes de mulheres

Outras duas tecnologias mostraram como a inclusão produtiva pode começar por gestos simples.

A Oficina Locomover, da Casa da Criança Paralítica de Campinas, ensina manutenção de bicicletas e recondiciona equipamentos descartados. Em territórios onde se deslocar custa caro e tira oportunidades, a bicicleta vira ao mesmo tempo ferramenta de trabalho e meio de acesso. A formação técnica se traduz em renda e em autonomia para jovens e adultos.

O Rendar Saberes, da Oca Escola Cultural, parte da renda renascença, técnica artesanal feita por mulheres. A iniciativa registra o saber das mestras, forma novas rendeiras e organiza a produção de forma cooperativa. Cultura e economia caminham juntas, com atenção ao tempo e ao cuidado que marcam o trabalho dessas mulheres. O resultado é renda sem descaracterizar a tradição.

Debates que explicam por que isso funciona

Entre uma premiação e outra, o festival promoveu mesas de debate que ajudaram a explicar a lógica por trás dessas soluções.

A primeira, “Finanças, Território e Justiça Social: soluções para um Brasil sustentável”, girou em torno de como construir alianças capazes de fortalecer pessoas e territórios e superar desigualdades históricas. A influenciadora Nath Finanças, criadora de conteúdos de educação financeira para pessoas de baixa renda, colocou o acesso ao conhecimento como ponto de partida. “Educação é que transforma e faz a gente sair do campo da desigualdade para questionar, para olhar. A educação me trouxe a possibilidade de aprender. E foi justamente na faculdade que eu entendi que não adianta você querer administrar um negócio ou empreender se você não tem educação financeira”, afirmou.

O educador Douglas Belchior, fundador do movimento de educação popular UNEAfro Brasil, reforçou a ideia. “Quase toda história de superação individual, familiar e comunitário tem a ver com a educação. A educação é importante para ter oportunidades, para ter acesso. Uma casa que tem livros, mesmo quando a mãe não estuda, ela incentiva o filho. Ela corta todos os gastos, mas mantém o filho na escola. Ela sabe que isso é necessário para o futuro dele”, disse.

Para José Alves Cardoso, executivo de ambiental, social e governança (ASG) do Banco do Brasil, manter essa agenda é uma decisão estratégica. “A gente usa a nossa capilaridade, a nossa presença como uma força motriz da nossa atuação, para a gente se conectar com as pessoas, se conectar com os territórios. E fazemos isso, via Fundação Banco do Brasil, há 40 anos. É o nosso compromisso público com a agenda 30”, reforçou.

Mesa de debate do festival no CCBB Brasília, com a ministra Margareth Menezes e o escritor e ativista Daniel Munduruku entre os participantes. Buscar imagem oficial que mostre os debatedores e o público.
Mesa de debate do festival no CCBB Brasília, com a ministra Margareth Menezes e o escritor e ativista Daniel Munduruku entre os participantes. Buscar imagem oficial que mostre os debatedores e o público.
Crédito: Fundação Banco do Brasil / divulgação

A segunda mesa, “Cultura e Educação: Saberes que Transformam Territórios”, reuniu a ministra da Cultura, Margareth Menezes, os escritores Socorro Acioli e Itamar Vieira Junior e o professor e ativista Daniel Munduruku. A conversa tratou de como a cultura, ligada à educação e enraizada nos territórios, pode ampliar direitos e gerar oportunidades.

A ministra lembrou o peso de ter arte na escola e o papel de um professor em sua trajetória. “Em cinco, seis anos de aulas de teatro eu tive a possibilidade de ter alguém na escola que me conscientizou em relação ao meu potencial artístico”, revelou.

Daniel Munduruku resumiu o elo entre território e identidade. “A pedagogia do pertencer, grafado assim, desta forma, é um pertencer que é mais do que fazer parte do território, é saber-se à própria terra, que está na terra. Que é a própria terra, portanto isso cria mais comprometimento e mais respeito”, explicou.

Itamar Vieira Junior, que abriu sua fala citando o crítico Antônio Cândido, ampliou a noção de educação para além do que está escrito. “As tradições orais transmitidas de geração em geração dentro de uma família, de uma comunidade. É o canto do indígena. Aquele canto conta uma história, é uma forma de se posicionar no mundo. E isso é uma forma de tornar a educação brasileira mais inclusiva”, reforçou.

De prêmio a política de reaplicação

As iniciativas reconhecidas integram o 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, anunciado no encerramento do festival, em 29 de maio. Criado em 2001, o prêmio já destinou mais de R$ 22 milhões em premiações e, segundo a Fundação, ajudou a mobilizar cerca de R$ 1 bilhão em investimentos para que tecnologias sociais fossem reaplicadas em diferentes territórios do país.

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O Festival de Soluções Sociais para o Brasil é uma realização da Fundação Banco do Brasil, com apoio do CCBB Brasília, da BB Asset, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e da Associação Brasileira de Ensino, Pesquisa e Extensão em Tecnologia Social (Abepets).

O que Brasília mostrou é que as respostas para a desigualdade, a crise climática e a perda cultural muitas vezes já existem dentro das comunidades, e que boa parte delas vem da Amazônia. Resta a pergunta que o próprio festival deixa no ar. O país vai tratar essas soluções como exceções premiadas uma vez por ano ou como base de uma política permanente, capaz de chegar às 750 comunidades do Rio Negro antes que a próxima língua indígena se cale?

 

Com informações dos releases da Fundação Banco do Brasil sobre o Festival de Soluções Sociais para o Brasil
e os vencedores do 13º Prêmio FBB de Tecnologia Social, e de Agência Brasil, CCBB Brasília e GIFE.

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