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Mulheres transformam resíduos em negócio circular no RS

Mulheres transformam resíduos em negócio circular no RS
Foto: correiodopovo.com.br

Startup de Porto Alegre conecta empresas, cooperativas e tecnologia para evitar que materiais recicláveis terminem em aterros.

Amália Koefender Leite e Natália Pietzsch, fundadoras da startup Arco
Amália Koefender Leite e Natália Pietzsch lideram a Arco, startup de gestão circular de resíduos sediada em Porto Alegre. Foto: Júlia Neiva / Divulgação / Correio do Povo

E se aquilo que costuma ser chamado de lixo fosse, na verdade, o começo de uma nova cadeia produtiva? Foi com essa pergunta que as engenheiras ambientais Natália Pietzsch e Amália Koefender Leite criaram, em 2018, a Arco, startup sediada em Porto Alegre que transforma resíduos em matéria-prima por meio de reciclagem, compostagem, logística reversa e educação ambiental. A empresa já trabalhou com mais de 150 empresas e instituições, gerencia mais de 8 mil toneladas de resíduos e mantém uma equipe com gestão inteiramente feminina.

A ideia nasceu de uma dificuldade observada por Natália em uma experiência anterior, a Re-ciclo, voltada à coleta e à compostagem para pessoas físicas. Depois de dois anos de atuação, ela percebeu que organizações de diferentes portes também queriam melhorar a destinação dos resíduos, mas encontravam obstáculos para localizar parceiros licenciados, completos e financeiramente viáveis.

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“Começamos pequenos, literalmente na garagem da casa da vó da Nati, com quatro clientes e uma ambição que já era grande: mostrar que lixo não precisava ser simplesmente descartado, mas poderia voltar para ciclos produtivos e gerar valor ambiental, social e econômico”, conta Natália, cofundadora da Arco.

Da coleta à rastreabilidade dos materiais

No início, a startup estava concentrada na operação. Com o passar do tempo, ampliou o trabalho para acompanhar todas as etapas do gerenciamento de resíduos, desde o treinamento das equipes e a estruturação das lixeiras até a coleta, a triagem, a compostagem, a reciclagem e a produção de indicadores de impacto.

“A Arco nasceu de uma inquietação muito prática: saber que aquilo que chamamos de lixo pode, na verdade, ser um recurso, matéria-prima para novos processos, mas que grande parte desses materiais ainda é simplesmente descartada e enviada para aterros sanitários”, afirma Natália.

A empresa atende estabelecimentos urbanos de perfis variados, como cafeterias, hotéis, indústrias e outros empreendimentos. O modelo inclui rastreabilidade, que permite acompanhar o caminho percorrido pelos materiais, além da construção de uma rede de parceiros para encontrar a destinação adequada para cada tipo de resíduo.

Entre os projetos citados pela startup estão o programa de reciclagem de cápsulas da Três Corações, iniciativas de reciclagem de vidro realizadas com a Verallia e a Associação Brasileira de Bebidas, ABRABE, no programa Vem de Long, e ações de educação ambiental.

Entenda o caso

A economia circular busca reduzir o descarte e manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível. Na prática, isso significa substituir a lógica de extrair, produzir e jogar fora por sistemas que priorizam a redução do consumo, o reaproveitamento, a reciclagem e a compostagem.

Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2024, o equivalente a aproximadamente 384 quilos por pessoa no ano. A média diária foi estimada em cerca de 1,2 quilo por habitante.

Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, o Brasil produziu 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2024. O dado ajuda a dimensionar o desafio enfrentado por cidades, empresas, cooperativas e trabalhadores da reciclagem.

Mulheres na gestão de resíduos

A equipe da Arco tem 20 pessoas, sendo metade mulheres, segundo a empresa. A gestão é inteiramente feminina, uma característica que as fundadoras consideram relevante em um setor historicamente associado a atividades operacionais e predominantemente masculinas.

Dados citados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, apontam que existe uma divisão de gênero na gestão de resíduos. Em muitos contextos, homens ocupam funções de coordenação e tomada de decisão, enquanto mulheres ficam mais ligadas a tarefas de coleta, limpeza e separação.

No Brasil, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis estimou, em 2014, que cerca de 800 mil pessoas atuavam no setor, com participação feminina estimada em 70%. Apesar da presença expressiva das mulheres, a ocupação de cargos de liderança ainda é desigual, segundo análises do Pnuma.

Na experiência da Arco com cooperativas de Porto Alegre, Natália afirma observar uma realidade diferente em relação à liderança. “É muito mais comum encontrar mulheres em posições de liderança do que homens”, diz. Ela também relata que mais de 70% do público da empresa no Instagram é formado por mulheres.

“Uma ligação pedindo para falar com ‘o sócio’, ou comentários, às vezes sem nenhuma má intenção, do tipo: ‘Nunca vi duas mulheres tocando uma empresa de reciclagem’.”
Natália Pietzsch, cofundadora da Arco

Segundo Natália, o preconceito aparece mesmo em uma rotina que envolve caminhões, logística, galpões, máquinas, fornecedores, negociação e gestão de equipes operacionais. Para ela, a presença feminina na liderança ajuda a ampliar a discussão sobre quem pode comandar negócios ligados à infraestrutura urbana e à sustentabilidade.

Inovação que aproxima empresas e cooperativas

Além de prestar serviços para empresas, a Arco afirma trabalhar diretamente com cooperativas de triagem e com pessoas que vieram da atividade de catação. A proposta é combinar eficiência operacional com impacto social, fortalecendo os grupos responsáveis por separar e encaminhar materiais recicláveis.

Outro projeto recente coordenado pela empresa foi a criação de uma composteira capaz de tratar papel higiênico. A solução foi lançada em Porto Alegre no mês anterior à publicação da reportagem, em julho de 2026, conforme as informações divulgadas pela empresa.

A inovação também se relaciona ao acesso a recursos. Natália e Amália submeteram a startup ao Programa Realiza, da aceleradora Quintessa, em busca de apoio para desenvolver o negócio. Um relatório do Global Impact Investing Network, citado na pauta, indica que apenas 20% dos investidores adotam uma perspectiva de gênero e direcionam de forma sistemática ao menos 30% de seus ativos de impacto para negócios liderados ou majoritariamente pertencentes a mulheres.

Para as fundadoras, tornar a gestão de resíduos viável para pequenos e médios estabelecimentos é uma forma de ampliar o alcance da economia circular. O desafio envolve não apenas reciclar mais, mas também mudar a percepção sobre os materiais descartados e criar caminhos economicamente sustentáveis para que eles retornem à produção.

Os próximos passos da Arco incluem ampliar a rede de parceiros, fortalecer projetos com cooperativas e desenvolver novas soluções de rastreabilidade, compostagem e logística reversa para empresas de diferentes setores.

Perguntas frequentes

O que a startup Arco faz?

A Arco atua na gestão circular de resíduos. Entre os serviços estão treinamento, coleta, triagem, compostagem, reciclagem, rastreabilidade, logística reversa e educação ambiental.

Quem criou a Arco?

A startup foi criada em 2018 pelas engenheiras ambientais Natália Pietzsch e Amália Koefender Leite, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Por que a economia circular é importante?

Ela reduz o envio de resíduos a aterros, prolonga o uso de materiais e pode gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos para cidades, empresas e cooperativas.

Com informações de Correio do Povo.

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