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Incêndios florestais cortam renda por três anos, deixam metade das casas vazias e mudam bairros

Incêndios florestais cortam renda por três anos, deixam metade das casas vazias e mudam bairros
Foto: VladTeodor/iStock

Estudo da UC San Diego mostra que a perda de uma casa provoca um prejuízo médio de US$ 35 mil após o fogo.

Quando o fogo deixa uma casa inabitável, a perda não fica restrita ao imóvel destruído. A família também pode passar anos com renda menor, enfrentar uma mudança forçada e esperar pela reconstrução em um mercado que tende a selecionar quem consegue retornar. Essa é a principal conclusão de um estudo da University of California San Diego, divulgado em 31 de agosto de 2026, que acompanhou cerca de 100 mil pessoas e 50 mil residências atingidas por incêndios florestais nos Estados Unidos.

A pesquisa mostra que moradores que perderam suas casas tiveram redução nos rendimentos durante os três anos seguintes ao incêndio. O impacto foi maior no primeiro ano, quando a queda chegou a aproximadamente 10%. Somadas, as perdas equivalem, em média, a 26% da renda anual anterior ao fogo, cerca de US$ 35 mil por vítima.

O fogo acaba antes da crise financeira

O resultado desloca o foco da emergência imediata para uma etapa menos visível: a recuperação. Evacuação, abrigo temporário, transporte, documentação, procura por escola e reorganização do trabalho formam uma cadeia de custos que pode continuar mesmo quando a área já foi liberada pelas autoridades.

O estudo não apresenta a destruição como um episódio que se resolve com o pagamento de uma indenização ou com a entrega de uma nova moradia. Mesmo entre as famílias que conseguem reconstruir, os rendimentos não retornam automaticamente ao patamar anterior. A conclusão contraria a ideia de que a recuperação econômica acompanha, de forma quase mecânica, a recuperação física do imóvel.

Segundo a University of California San Diego, o trabalho analisou perdas patrimoniais provocadas por incêndios florestais nos Estados Unidos e seus efeitos sobre a renda das famílias nos três anos posteriores ao desastre.

Metade das casas ainda estava vazia quatro anos depois

A demora para reconstruir aparece em outro dado central. Quatro anos depois de um incêndio, aproximadamente metade das casas queimadas permanecia desocupada. O intervalo ajuda a medir a distância entre remover os escombros e restabelecer uma vida normal no mesmo endereço.

Entre os imóveis que voltaram a ser ocupados, os moradores apresentavam, em média, renda mais alta e idade menor do que os residentes anteriores ao fogo. Para os autores, esse padrão é compatível com relatos de uma possível “gentrificação pós-desastre”, processo em que a reconstrução ou a valorização da área acaba atraindo grupos com maior capacidade financeira.

Essa mudança de perfil é uma das questões mais relevantes do estudo. Uma comunidade pode parecer recuperada ao observar casas novas, ruas reabertas e imóveis ocupados, mas ainda assim ter perdido parte de seus moradores originais. A aparência de normalidade, nesse caso, pode esconder uma substituição social produzida pelo custo da reconstrução.

Quem perde a casa não é necessariamente quem tinha menos dinheiro

Os dados também mostram uma aparente contradição. As vítimas de incêndios florestais eram, em média, mais ricas do que pessoas atingidas por alguns outros tipos de desastre natural. Dentro das próprias zonas queimadas, porém, as famílias de menor renda tinham maior probabilidade de perder suas residências.

As duas conclusões podem coexistir. Incêndios podem atingir regiões valorizadas e moradores com patrimônio elevado, mas a exposição ao risco, a localização da casa, a qualidade da construção e a capacidade de reagir rapidamente não são distribuídas de maneira igual. O prejuízo médio, portanto, não revela sozinho quem enfrenta a recuperação mais difícil.

A pesquisa também separou situações de proprietários e ocupantes que não eram donos dos imóveis. Embora não meça diretamente se cada residência tinha seguro suficiente, o cruzamento entre dados de danos, declarações de imposto de renda e registros do Censo permitiu acompanhar a trajetória econômica das famílias depois do incêndio.

O que a pesquisa sugere para a Amazônia

O estudo foi realizado nos Estados Unidos e não calcula perdas de renda para moradores do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins. Ainda assim, seu método oferece uma lente útil para a Amazônia, onde queimadas e incêndios podem afetar propriedades rurais, bairros urbanos próximos a áreas florestais, atividades extrativistas e deslocamentos cotidianos.

A conexão regional está menos em importar o número de US$ 35 mil e mais em observar o que costuma desaparecer das estatísticas após o fogo. A contagem de hectares queimados ou de imóveis danificados registra a escala física do evento, mas não necessariamente mede o tempo sem trabalhar, a migração temporária, a interrupção escolar ou a dificuldade de voltar para a mesma comunidade.

Para estados amazônicos, esse tipo de acompanhamento poderia ajudar a distinguir duas situações que geralmente aparecem misturadas: famílias que permanecem no território com perda de renda e famílias que deixam a área porque não conseguem reconstruir. Sem essa separação, políticas públicas podem contabilizar a reocupação de um imóvel como recuperação completa, mesmo quando os antigos moradores não retornaram.

O desafio passa por seguros, crédito e planejamento

Os autores Judson Boomhower, da UC San Diego, Patrick Baylis, da University of British Columbia, Jonathan Colmer, da University of Virginia, e John Voorheis, do U.S. Census Bureau, tratam o incêndio como um problema que ultrapassa clima e segurança pública. A questão envolve também mercados imobiliários, seguros, crédito e capacidade de adaptação das cidades.

O ponto ainda não resolvido é quem arca com a conta quando a reconstrução demora ou se torna inviável. Seguradoras podem rever preços e coberturas em áreas de risco. Bancos podem endurecer o crédito. Famílias de menor renda podem vender o terreno ou simplesmente abandonar a região. Cada uma dessas respostas altera o território de forma diferente.

O trabalho, intitulado “The Distribution and Consequences of Disaster Property Losses: Evidence from Tax Returns of Wildfire Victims”, foi publicado como working paper do National Bureau of Economic Research. A pressão por novas políticas tende a crescer à medida que incêndios mais destrutivos ampliem o número de famílias que precisam reconstruir a casa e a própria fonte de renda. Com informações de University of California San Diego.

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