×
Próxima ▸
Ele viu as cerejas vermelhas pendendo sobre o próprio jardim…

Palmacon mira produção em 1 milhão de hectares de Palma

A segunda edição da Palmacon quer sair da Estação das Docas com um plano concreto para transformar pasto degradado em floresta produtiva.

Belém recebe nos dias 17 e 18 de novembro a Palmacon, principal encontro brasileiro da cadeia produtiva da palma de óleo. A conferência acontece na Estação das Docas, das 9h às 18h, e foi lançada nesta quarta-feira (2) em coletiva de imprensa na capital paraense.

Realizada pela Abrapalma (Associação Brasileira de Produtores de Palma), a segunda edição reúne produtores, pesquisadores, governos e investidores em dois dias de painéis, debates e rodadas de negócios. A meta que dá o tom do encontro é ambiciosa. Levar o Brasil a 1 milhão de hectares plantados de palma sem abrir uma única nova frente sobre a floresta em pé.

Estandes e visitantes na feira da Palmacon, conferência da palma de óleo em Belém
Edição anterior da Palmacon reuniu centenas de profissionais do setor em Belém. Foto Divulgação/Palmacon

Uma conferência pensada para quem mora na Amazônia

A proposta anunciada no lançamento foge do formato tradicional de evento técnico. A ideia é aproximar o setor de quem vive no Pará e ainda conhece pouco sobre a cultura que ocupa o nordeste do estado.

“Não é uma conferência do setor para o setor, é uma conferência do setor para a população. E a ideia é que todos entendam melhor, entendam mais sobre o setor, tenha orgulho do setor como paraense, porque é um setor realmente que o Pará tem destaque, assim como o açaí, e tem potencial para ter ainda mais destaque”, afirmou Victor Almeida, presidente da Abrapalma.

O evento terá estandes de fornecedores de toda a cadeia, de máquinas e equipamentos a mudas, financiamento e empresas produtoras associadas.

O tamanho da palma no nordeste paraense

Cultivada no Brasil desde a década de 60, a palma de óleo virou uma das culturas mais estratégicas do país. Segundo a Abrapalma, 90% da produção nacional está concentrada no nordeste paraense, com 570 mil toneladas de óleo por ano, R$ 5 bilhões de faturamento anual e outros R$ 5 bilhões investidos em ativo biológico.

O óleo de palma, ou dendê, é o vegetal mais consumido do mundo. Sua reputação, porém, carrega o peso do desmatamento associado à expansão da cultura na Ásia, e é justamente esse contraste que a conferência quer enfrentar.

Pasto degradado como nova fronteira

O argumento central do setor é que a expansão brasileira não precisa disputar espaço com a floresta. Ela cabe inteira nas áreas já abertas e abandonadas pela pecuária.

“O principal foco deste ano é, de fato, destravar o setor. Até o tema geral do evento vai ser como chegamos em 1 milhão de hectares. No Brasil, até o mapeamento da Embrapa em 2010, havia 7 milhões de hectares de áreas degradadas de pastagem na região amazônica, que poderiam ter palmas plantadas. Então, o foco total nosso nesse ano é como destravar esse setor, toda essa geração de riqueza”, disse Victor Almeida.

O presidente da Abrapalma resume o desafio da edição em uma frase. Sair da Estação das Docas com um plano de trabalho assinado.

“O principal desafio desta 2ª edição é sair dela com planos concretos para o setor. O setor tem um potencial gigante aqui dentro do Estado, pode chegar a mais de um milhão de hectares plantados e a ideia do evento é mostrar os gargalos que nós temos hoje. Vamos ter a participação de membros do governo federal, do governo estadual, então é sair com um plano concreto para atingir esse potencial que nós temos”, declarou.

Produtos derivados do óleo de palma expostos em estande da Palmacon em Belém
Derivados do óleo de palma expostos na feira de negócios do evento. Foto Divulgação/Palmacon

Carbono capturado e combustível de avião

A conversa sobre sustentabilidade ganhou outro peso no ano em que o Pará sedia a agenda climática global. Para o setor, a palma é parte da resposta amazônica, e não do problema.

“Essa discussão da sustentabilidade está muito em voga por causa da COP e a participação do Pará nisso e o setor é uma solução interna para esse problema da sustentabilidade na Amazônia. O setor é uma solução de reflorestamento que gera renda. O plantio da palma é um plantio perene, é uma árvore que enquanto cresce captura carbono; o processo industrial de processamento é um processo sustentável, verde, onde tudo é reaproveitado. Não existe resíduo na produção industrial e com isso você tem uma indústria que produz óleo vegetal com uma pegada de carbono negativa e que esse óleo depois pode ser usado para produzir biocombustíveis e descarbonizar outros lugares do mundo”, pontuou Almeida.

Da matéria-prima saem biodiesel, HVO (hidrocarboneto parafínico sintético) e querosene de aviação sustentável, combustível procurado por países europeus que não conseguem descarbonizar com plantios perenes próprios.

A inovação paraense que nasceu no laboratório

Para a Embrapa Amazônia Oriental, o modelo tem valor científico e social. O chefe-geral da unidade, Walkymario Lemos, considera a palma uma das alternativas com potencial de gerar riqueza, recuperar áreas degradadas e incluir populações locais.

“Um exemplo muito recente é o desenvolvimento de um sistema de plantio associado com outras culturas, algo que não era habitual e que a ciência gerou. É uma inovação paraense, por sinal. Sistemas agroflorestais com dendê e hoje, com esses dados da Abrapalma, você percebe o aumento da inclusão social, pessoas de baixa renda, produtores familiares entrando na cadeia, melhorando o seu rendimento familiar econômico e incorporando tecnologia”, afirmou o pesquisador.

Lemos completou que a instituição acompanha experiências alinhadas a esses princípios. “Sempre falo que serei defensor de um modelo de agropecuária sustentável para o Brasil, naturalmente para a Amazônia, muito mais. E todas aquelas experiências que carregam esses preceitos, a Embrapa estará junto como uma instituição de pesquisa e de inovação para um agro sustentável”, disse.

O que está em jogo

A Palmacon 2026 acontece em 17 e 18 de novembro, na Estação das Docas, em Belém. A conferência é realizada pela Abrapalma e terá participação de convidados de outros países da América Latina, além de representantes dos governos federal e estadual. Os ingressos são vendidos pelo site oficial do evento.

Os temas que vão para o palco

Entre os assuntos já anunciados para os painéis estão “Tendências do mercado global de óleos vegetais”, “Case Colômbia, como transformar a palma em política de estado”, “Capital para a palma sustentável, crédito, equity e contratos de longo prazo”, “Economia circular na palmicultura” e “Impacto na prática, a agricultura familiar no setor da palma”.

A soma dos temas revela a aposta do setor. Transformar hectares abandonados em bioeconomia de exportação, com dinheiro novo, ciência aplicada e agricultores familiares dentro da cadeia.

Se os 7 milhões de hectares degradados mapeados na Amazônia realmente podem virar floresta produtiva, a pergunta que fica para novembro é quem vai colocar o primeiro real nessa conta.

.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA