
Iniciativa quer aproximar universidades e empresas enquanto o Brasil tenta ocupar um mercado que pode chegar a US$ 140 bilhões por ano.
Uma casca que costuma ser descartada pode valer mais do que a fruta inteira quando os compostos certos são identificados. É essa mudança de perspectiva que orienta a AgroBioValor, plataforma lançada em 2026 por um grupo de 30 cientistas brasileiros para transformar cascas, sementes, folhas, palhas e resíduos animais em bioativos destinados às indústrias de alimentos, saúde e cosméticos.
A iniciativa é coordenada pela cientista de alimentos Glaucia Maria Pastore, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e tenta resolver um problema recorrente no país: pesquisas desenvolvidas em universidades chegam ao mercado lentamente, enquanto empresas estrangeiras conseguem aplicar parte desse conhecimento antes da indústria nacional.
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Rastreabilidade mineral ganha força no Brasil, revela origem, emissões e práticas por trás do minérioNa prática, a plataforma pretende aproximar pesquisadores, investidores e empresários. A proposta inclui o uso de recursos públicos, como os da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e de investimentos privados estimulados pela Lei do Bem, que oferece incentivos fiscais para empresas que financiam pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Quando o resíduo passa a ser o produto principal
Um dos exemplos mais avançados vem da jabuticaba. Estudos conduzidos por pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp identificaram na casca da fruta pigmentos e compostos fenólicos com potencial de aplicação em produtos voltados à saúde e ao envelhecimento saudável.
As antocianinas, responsáveis pela coloração avermelhada, e os taninos, associados à adstringência, estão entre os bioativos estudados. Segundo a pesquisa apresentada pela Unicamp, extratos da casca foram associados à redução de até 40% do ganho de peso, de até 80% do colesterol ruim e de até 40% dos níveis de açúcar no sangue, além de efeitos sobre o colesterol bom, a inflamação, o acúmulo de gordura no fígado e a preservação do tamanho adequado da próstata.
Segundo a Unicamp, os estudos com a jabuticaba começaram em 2008, o pedido de patente foi feito em 2017 e a tecnologia foi licenciada de forma não exclusiva à startup Rubian Extratos. A empresa desenvolveu a produção em escala industrial e lançou o produto MetaBody.
O caso ajuda a explicar a lógica da bioeconomia baseada em conhecimento. O fruto continua sendo importante, mas a parte que normalmente seria retirada, a casca, concentra substâncias que podem originar ingredientes de maior valor agregado. Em vez de vender apenas matéria-prima, o produtor passa a participar de uma cadeia que envolve pesquisa, processamento, patente, licenciamento e fabricação.
Café produzido em Roraima entra na busca por novos usos
A mesma lógica está sendo aplicada ao café. O empresário Luiz Augusto Pereira Monguilod, que atua há mais de 30 anos na cafeicultura, possui lavouras em Minas Gerais, Bahia e Roraima, em uma área próxima de mil hectares.
Hoje, o principal produto comercializado pelas fazendas é o café verde. A colheita, porém, também gera grandes volumes de casca e palha. Cerca de 6 mil toneladas por ano são destinadas à compostagem e retornam às propriedades como composto usado na adubação.
A participação na AgroBioValor busca encontrar uma destinação adicional para esse material. A plataforma estuda a extração de açúcares, aminoácidos, enzimas e compostos orgânicos presentes na pele e na casca do café. Esses componentes podem ser usados em antioxidantes em pó, sachês e substâncias relacionadas ao suporte neural, além de agregar funções protetivas aos produtos derivados do grão.
Para a Amazônia, a presença de uma lavoura em Roraima nesse movimento é um sinal de que a bioeconomia regional não precisa ficar restrita à exploração de espécies florestais. Cadeias agrícolas já instaladas também podem gerar novos produtos a partir de resíduos, desde que existam tecnologia, infraestrutura de processamento e compradores para os ingredientes.
Do sangue bovino à mandioca, outras cadeias entram no radar
Os resíduos de origem animal formam outra frente de trabalho. O médico veterinário José Nélio de Sousa Sales, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e vice-coordenador da plataforma, aponta oportunidades em vísceras como fígado, coração e baço, além do sangue.
Esses materiais contêm colágeno, peptídeos, gelatina e taurina. A taurina é um aminoácido associado à proteção celular por sua ação antioxidante e está presente em órgãos dos animais. A proposta em estudo é desenvolver processos para obter a substância diretamente dos tecidos, já que a taurina utilizada atualmente pela indústria é sintética.
O aproveitamento industrial de partes animais já tem exemplos em operação. A divisão de novos negócios da JBS informa que aproveita 99% de cada bovino e quase 95% de aves e suínos. Entre as iniciativas estão a Genu-in, que transforma couro bovino em peptídeos de colágeno, colágeno e gelatina, com capacidade de 12 mil toneladas por ano, e a Orygina, que utiliza soro bovino para desenvolver insumos farmacêuticos.
Na cadeia da mandioca, a água usada na lavagem durante a fabricação de farinha também pode deixar de ser apenas um efluente. A fermentação desse resíduo com a bactéria Bacillus subtilis permite produzir biossurfactantes, detergentes naturais e biodegradáveis capazes de misturar água e óleo. A alternativa pode interessar a cadeias amazônicas de produção de farinha, mas depende da validação dos processos e da implantação de unidades próximas aos locais onde o resíduo é gerado.
O tamanho da oportunidade e o gargalo brasileiro
O potencial econômico ajuda a explicar por que a plataforma tenta acelerar a conexão entre ciência e indústria. Estudo da Confederação Nacional da Indústria estima que a bioeconomia brasileira baseada em conhecimento possa gerar entre US$ 100 bilhões e US$ 140 bilhões por ano até 2032.
O mercado global de bioativos também cresce impulsionado pela busca por prevenção, alimentação funcional e envelhecimento saudável. Uma projeção da consultoria McKinsey, citada pela CNI, calcula que esse segmento pode movimentar entre US$ 2 trilhões e US$ 4 trilhões por ano nas próximas décadas.
O Brasil, entretanto, ainda captura uma parcela pequena desse valor. De acordo com o estudo da CNI, nenhum dos dez fitoterápicos mais vendidos no país utiliza espécies da biodiversidade brasileira. A participação nacional no faturamento mundial de medicamentos à base de plantas medicinais é de apenas 0,1%, o que representa uma oportunidade estimada em R$ 1 bilhão por ano que deixa de ser arrecadada.
O desafio não é apenas descobrir novos compostos. Também envolve padronizar extratos, comprovar segurança e eficácia, proteger a propriedade intelectual, obter autorização dos órgãos reguladores e criar escala industrial. Sem essa ponte, a pesquisa permanece restrita aos laboratórios e o resíduo continua sendo tratado como custo.
A AgroBioValor pretende ampliar a rede de pesquisadores e atrair empresas para que novas tecnologias avancem da bancada para a produção, com a expansão da plataforma na internet entre os próximos passos da iniciativa.
Com informações da Unicamp.
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