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Nos Lençóis Maranhenses, chuvas de seis meses enchem lagoas entre dunas, enquanto peixes reaparecem a cada novo ciclo

Nos Lençóis Maranhenses, chuvas de 6 meses enchem lagoas entre dunas, enquanto peixes reaparecem a cada 1 novo ciclo
Ilustração: IA

No litoral do Maranhão, o vento move as dunas sobre um lençol freático raso e a chuva transforma depressões arenosas em ambientes aquáticos sazonais.

Durante a estação chuvosa, partes do maior campo de dunas do Brasil deixam de parecer apenas areia. A água se acumula nas depressões entre os montes claros e forma lagoas que podem ocupar extensas áreas por alguns meses. Quando o período seco avança, muitas delas diminuem, desaparecem e deixam novamente o terreno exposto.

Esse ciclo acontece nos Lençóis Maranhenses, no litoral do Maranhão, uma paisagem protegida pelo Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. O fenômeno não depende de um rio atravessando o campo de dunas. Ele combina chuva, relevo arenoso, vento e a presença de um lençol freático raso, criando ambientes aquáticos temporários que mudam de uma estação para outra.

A chuva ocupa as depressões entre as dunas

As dunas formam corredores, vales e áreas mais baixas entre suas cristas. Quando a chuva cai sobre esse terreno, parte da água se infiltra na areia, enquanto outra parcela se acumula nos pontos onde a depressão alcança o nível do lençol freático. É assim que surgem as lagoas interdunares, nome dado aos corpos de água localizados entre dunas.

A areia permite a infiltração, mas o lençol freático raso mantém a água próxima da superfície. Essa combinação ajuda a explicar por que a paisagem pode passar rapidamente de um campo seco para uma sucessão de lagoas. O volume e a duração de cada uma variam conforme a quantidade de chuva, a posição da depressão e a dinâmica local das dunas.

O vento redesenha o terreno e muda os lugares de acúmulo

O vento é um dos agentes responsáveis pela formação e pela movimentação das dunas. Ao transportar grãos de areia, ele altera o formato dos montes e das depressões, deslocando lentamente os pontos onde a água pode se concentrar. A paisagem, portanto, não é uma estrutura fixa que apenas recebe chuva todos os anos.

Essa ação também ajuda a explicar a variedade de formas observadas no parque. Dunas mais altas, áreas rebaixadas e passagens entre os montes produzem condições diferentes para o acúmulo de água. O resultado é um mosaico de lagoas com tamanhos, profundidades e períodos de permanência variados, sem que todas desapareçam ao mesmo tempo.

As lagoas existem apenas em parte do ano

O ciclo das lagoas está ligado à alternância entre a estação chuvosa e a estação seca. Nos meses de maior precipitação, a água se acumula nas depressões e amplia os ambientes interdunares. Depois, com a redução das chuvas, a evaporação e a infiltração diminuem o volume armazenado, fazendo com que muitas lagoas encolham progressivamente.

Por isso, uma mesma área pode oferecer imagens muito diferentes ao longo do ano. A paisagem alagada não representa uma condição permanente das dunas. Ela é uma fase do ciclo hidrológico local. Algumas lagoas podem permanecer por mais tempo do que outras, mas a duração depende do balanço entre entrada de água, perda por evaporação e infiltração no subsolo.

Um peixe reaparece quando o enchimento recomeça

Há registros de um peixe que reaparece a cada novo enchimento das lagoas. O dado seguro é a associação entre o reaparecimento do animal e o retorno da água.

As lagoas não são apenas um elemento visual da paisagem. Mesmo temporárias, elas podem funcionar como ambientes de alimentação, crescimento e reprodução para organismos adaptados à alternância entre água e seca. A composição da vida em cada lagoa pode variar.

O campo de dunas também é um experimento geográfico

Os Lençóis Maranhenses oferecem um exemplo direto de como processos físicos interagem em uma paisagem brasileira fora da Amazônia. A chuva fornece a água, o lençol freático raso sustenta o acúmulo, as depressões organizam as lagoas e o vento reorganiza continuamente o relevo que recebe essa água.

Observar o ciclo permite acompanhar, no mesmo lugar, a relação entre clima sazonal, água subterrânea e transporte de sedimentos. Não se trata de um experimento controlado em laboratório, mas de um cenário natural em que os processos podem ser vistos em sequência. O campo de dunas se transforma sem perder sua identidade, porque a mudança faz parte de sua própria dinâmica.

O fenômeno se repete, mas nunca exatamente da mesma maneira

O ciclo ocorre durante a estação chuvosa, quando a água volta a preencher parte das depressões entre as dunas. No período seco seguinte, as lagoas diminuem ou desaparecem, e o processo pode recomeçar com as chuvas do ano seguinte.

É importante não transformar esse padrão em uma promessa de que todas as lagoas estarão cheias ao mesmo tempo ou de que todos os peixes reaparecerão em cada ponto do parque. A quantidade de chuva, a evaporação, a infiltração e o desenho das dunas impõem limites ao ciclo. Ainda assim, a paisagem revela uma ideia simples e poderosa: em um terreno moldado pelo vento, a água pode existir por poucos meses e deixar sinais suficientes para reorganizar toda a leitura do lugar.

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