
No litoral do Maranhão, o vento move as dunas sobre um lençol freático raso e a chuva transforma depressões arenosas em ambientes aquáticos sazonais.
Durante a estação chuvosa, partes do maior campo de dunas do Brasil deixam de parecer apenas areia. A água se acumula nas depressões entre os montes claros e forma lagoas que podem ocupar extensas áreas por alguns meses. Quando o período seco avança, muitas delas diminuem, desaparecem e deixam novamente o terreno exposto.
Esse ciclo acontece nos Lençóis Maranhenses, no litoral do Maranhão, uma paisagem protegida pelo Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. O fenômeno não depende de um rio atravessando o campo de dunas. Ele combina chuva, relevo arenoso, vento e a presença de um lençol freático raso, criando ambientes aquáticos temporários que mudam de uma estação para outra.
Leia também
Povoado chamado Feliz Lusitania ocupa um posto estratégico, vira capital do Grão-Pará entre dois estados e deixa espaços históricos preservados em Belém
Global Witness registra 124 defensores mortos em 2025 e mostra que sete guardas indígenas estavam entre as vítimas
Quatro horas a mais de calor extremo, em dias quentes, causados pelas mudanças climáticasA chuva ocupa as depressões entre as dunas
As dunas formam corredores, vales e áreas mais baixas entre suas cristas. Quando a chuva cai sobre esse terreno, parte da água se infiltra na areia, enquanto outra parcela se acumula nos pontos onde a depressão alcança o nível do lençol freático. É assim que surgem as lagoas interdunares, nome dado aos corpos de água localizados entre dunas.
A areia permite a infiltração, mas o lençol freático raso mantém a água próxima da superfície. Essa combinação ajuda a explicar por que a paisagem pode passar rapidamente de um campo seco para uma sucessão de lagoas. O volume e a duração de cada uma variam conforme a quantidade de chuva, a posição da depressão e a dinâmica local das dunas.
O vento redesenha o terreno e muda os lugares de acúmulo
O vento é um dos agentes responsáveis pela formação e pela movimentação das dunas. Ao transportar grãos de areia, ele altera o formato dos montes e das depressões, deslocando lentamente os pontos onde a água pode se concentrar. A paisagem, portanto, não é uma estrutura fixa que apenas recebe chuva todos os anos.
Essa ação também ajuda a explicar a variedade de formas observadas no parque. Dunas mais altas, áreas rebaixadas e passagens entre os montes produzem condições diferentes para o acúmulo de água. O resultado é um mosaico de lagoas com tamanhos, profundidades e períodos de permanência variados, sem que todas desapareçam ao mesmo tempo.
As lagoas existem apenas em parte do ano
O ciclo das lagoas está ligado à alternância entre a estação chuvosa e a estação seca. Nos meses de maior precipitação, a água se acumula nas depressões e amplia os ambientes interdunares. Depois, com a redução das chuvas, a evaporação e a infiltração diminuem o volume armazenado, fazendo com que muitas lagoas encolham progressivamente.
Por isso, uma mesma área pode oferecer imagens muito diferentes ao longo do ano. A paisagem alagada não representa uma condição permanente das dunas. Ela é uma fase do ciclo hidrológico local. Algumas lagoas podem permanecer por mais tempo do que outras, mas a duração depende do balanço entre entrada de água, perda por evaporação e infiltração no subsolo.
Um peixe reaparece quando o enchimento recomeça
Há registros de um peixe que reaparece a cada novo enchimento das lagoas. O dado seguro é a associação entre o reaparecimento do animal e o retorno da água.
As lagoas não são apenas um elemento visual da paisagem. Mesmo temporárias, elas podem funcionar como ambientes de alimentação, crescimento e reprodução para organismos adaptados à alternância entre água e seca. A composição da vida em cada lagoa pode variar.
O campo de dunas também é um experimento geográfico
Os Lençóis Maranhenses oferecem um exemplo direto de como processos físicos interagem em uma paisagem brasileira fora da Amazônia. A chuva fornece a água, o lençol freático raso sustenta o acúmulo, as depressões organizam as lagoas e o vento reorganiza continuamente o relevo que recebe essa água.
Observar o ciclo permite acompanhar, no mesmo lugar, a relação entre clima sazonal, água subterrânea e transporte de sedimentos. Não se trata de um experimento controlado em laboratório, mas de um cenário natural em que os processos podem ser vistos em sequência. O campo de dunas se transforma sem perder sua identidade, porque a mudança faz parte de sua própria dinâmica.
O fenômeno se repete, mas nunca exatamente da mesma maneira
O ciclo ocorre durante a estação chuvosa, quando a água volta a preencher parte das depressões entre as dunas. No período seco seguinte, as lagoas diminuem ou desaparecem, e o processo pode recomeçar com as chuvas do ano seguinte.
É importante não transformar esse padrão em uma promessa de que todas as lagoas estarão cheias ao mesmo tempo ou de que todos os peixes reaparecerão em cada ponto do parque. A quantidade de chuva, a evaporação, a infiltração e o desenho das dunas impõem limites ao ciclo. Ainda assim, a paisagem revela uma ideia simples e poderosa: em um terreno moldado pelo vento, a água pode existir por poucos meses e deixar sinais suficientes para reorganizar toda a leitura do lugar.
Dois peixes quase transparentes de 1,4 e 1,6 centímetro mantiveram traços de larva e reduziram ossos para caber nos rios Purus e Solimões
Restos de mandioca, espinhas de peixe e cinza são depositados, passam 1.200 anos e formam terra preta; vestígios chegam a 5.000 no Xingu
Peixe de 2,68 centímetros encontrado em Laranjal do Jari ganhou o nome da cor que domina o macho adultoGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














