O gás natural nunca foi limpo, e a indústria sabia disso há mais de 50 anos

Capa da edicao 156 da Revista Amazonia, com foto de queima de gas natural
Capa da edição 156 da Revista Amazônia

A indústria do gás natural passou mais de cinco décadas vendendo ao mundo a ideia de que havia encontrado um combustível fóssil limpo. Documentos internos de empresas, agências de publicidade e institutos de pesquisa financiados pelo próprio setor mostram que, enquanto a campanha rodava, executivos e consultores já sabiam que o metano vazava em toda a rede e que essa perda anulava a vantagem climática sobre o carvão. A edição 156 da Revista Amazônia abre com essa reconstituição documental e segue por outras frentes em que a conta ambiental está sendo recalculada.

Nesta edição, a redação reuniu reportagens sobre a governança da floresta, a corrida por metais críticos, a economia mineral do Pará e o conhecimento acumulado por quem combate incêndios em campo. São temas que se conectam por uma pergunta comum: quem paga o custo real das escolhas energéticas e produtivas que estão sendo feitas agora.

O mito do gás limpo, escrito pela própria indústria

Um relatório do Center for Climate Integrity, assinado por Rebecca John, Rebecca Leber e Davis Allen, reconstrói passo a passo como a imagem do gás natural foi construída. Já em 1907, executivos do setor discutiam internamente que a combustão incompleta do gás gera monóxido de carbono. Em 1966, um estudo interno da Shell registrou que o gás era liberado em quantidades grandes o bastante para constranger nos campos de petróleo.

A virada veio quando a percepção pública começou a pesar. Uma pesquisa de opinião de 1970 apontou que 69% das pessoas viam a eletricidade como o combustível do futuro, contra apenas 15% para o gás. A American Gas Association contratou grandes agências da época, entre elas a J. Walter Thompson e a Hill & Knowlton, e em 1972 colocou no ar a campanha “Gás, energia limpa para hoje e amanhã”. Um memorando interno da J. Walter Thompson reconhecia que faltavam fatos para sustentar a propaganda.

Para dar aparência científica à mensagem, o setor criou em 1976 o Gas Research Institute. Os 24 membros do conselho vinham todos da indústria. No mesmo ano, uma equipe da NASA liderada por Wei-Chung Wang calculou que o aumento do metano na atmosfera representava risco climático significativo. Em 1985, estudo de Veerabhadran Ramanathan, da NASA e do NCAR, estimou que gases traço como o metano poderiam responder por até 40% do aquecimento futuro do planeta.

A peça central da fraude, segundo o relatório, é de 1996: um estudo conjunto do GRI e da agência ambiental dos Estados Unidos fixou a taxa de vazamento de metano da rede de gás em 1,4%. Documentos obtidos por acesso à informação mostram que, em 1994, o gerente do projeto na EPA, David Kirchgessner, escreveu que a agência não tinha expertise para revisar o trabalho e pediu que a revisão fosse feita pela própria indústria. O estudo não usou amostragem aleatória: analisou apenas instalações de empresas que aceitaram participar.

O número virou pedra fundamental de estatísticas oficiais e do discurso do gás como solução climática. Ele começou a ruir em 2011, quando cientistas da Universidade Cornell liderados por Robert Howarth contestaram a taxa oficial. Em 2020, um estudo estimou que as emissões de redes locais de distribuição eram cerca de cinco vezes maiores que o informado pelo governo. Entre 2024 e 2025, dados da missão MethaneSAT mostraram que as emissões do setor de petróleo e gás eram 50% maiores que as reportadas no inventário oficial norte-americano.

O metano retém cerca de 80 vezes mais calor que o dióxido de carbono ao longo de 20 anos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Em 2025, sua concentração na atmosfera chegou a 1,95 parte por milhão, quase três vezes o nível pré-industrial de 0,7, de acordo com a NASA. Pela Agência Internacional de Energia, só em 2023 o metano do setor de óleo e gás dos Estados Unidos teve impacto climático equivalente a 301 usinas de carvão funcionando ao mesmo tempo. O termo “combustível ponte”, hoje usado no debate energético brasileiro, apareceu em 1988, atribuído a Michael German, então vice-presidente da AGA, em reportagem do Washington Post.

Povos indígenas ganham assento permanente na governança da Amazônia

Em abril de 2026, na sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, em Brasília, delegações de oito países aprovaram o primeiro plano de trabalho do Mecanismo Amazônico dos Povos Indígenas, o MAPI. Diferentemente das participações pontuais que marcaram décadas de cúpulas ambientais, o instrumento institui um canal fixo de diálogo entre governos e povos indígenas dentro da OTCA, organismo criado a partir do Tratado de Cooperação Amazônica, assinado em 1978.

A estrutura é paritária. O mecanismo reúne os oito países membros, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, e oito organizações indígenas, com uma copresidência rotativa que alterna representação governamental e indígena a cada ano. O arranjo busca dar voz institucional a cerca de três milhões de pessoas, de mais de 400 povos espalhados pela bacia amazônica.

“Nós vemos o mecanismo como um espaço fundamental porque garante paridade na sua composição e assegura que a participação indígena não seja apenas simbólica, mas estruturante”, afirma Angela Amanakwa Kaxuyana, copresidente indígena do MAPI pelo Brasil e integrante da diretoria da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira.

O desenho não surgiu de uma só reunião. Em 2023, a Declaração de Belém, assinada na IV Cúpula de Presidentes da OTCA, firmou o compromisso com a participação plena dos povos indígenas. A Declaração de Bogotá, aprovada na V Cúpula, reforçou a agenda. No lado brasileiro, a condução coube ao Ministério dos Povos Indígenas em parceria com a COIAB, e a ministra Sônia Guajajara definiu a tarefa da fase atual como transformar o mecanismo em influência real sobre quem vive no bioma e o protege.

Entre as prioridades da agenda está a proteção dos Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial, grupos cuja sobrevivência depende da integridade de suas terras. O MAPI integra o projeto Raízes Indígenas para a Governança Amazônica, desenvolvido no marco do programa Amazonia+ e financiado pela União Europeia. Para o secretário-geral da OTCA, Martin von Hildebrand, o mecanismo representa avanço ao consolidar um espaço de diálogo entre governos e povos indígenas em nível amazônico.

A nova mina fica dissolvida na água do mar

Uma piscina olímpica cheia de água do mar, 2,3 milhões de litros, guarda 2.980 quilos de magnésio. E apenas 0,42 quilo de lítio e 0,00095 quilo de níquel. Os números são do Pacific Northwest National Laboratory, laboratório do Departamento de Energia dos Estados Unidos, e resumem a promessa e o problema de minerar o mar sem tocar no seu fundo.

“Apenas 0,1% da água do mar contém minerais críticos como magnésio e lítio em quantidade suficiente. Se conseguirmos extraí-los por completo, para atender às necessidades da humanidade pelos próximos 50 mil anos ou mais”, afirma Jessica Cross, oceanógrafa química do PNNL. A ideia não é nova: os Estados Unidos extraíram magnésio do mar por 50 anos, até migrarem para a importação na década de 1990. O obstáculo é a diluição, que exige energia para processar volumes gigantescos de água.

A equipe, que tem a química Chinmayee Subban à frente da linha de pesquisa marinha, encurtou o processo de quatro etapas para uma: dois líquidos correm lado a lado, água do mar e hidróxido de sódio, e na fronteira entre eles precipita hidróxido de magnésio de alta pureza. A engenheira ambiental Brooke Marten estudou o acoplamento do reator a usinas de dessalinização existentes. A usina de Carlsbad, na Califórnia, processa 108 milhões de galões de água do mar por dia. Com recuperação de 100%, isso daria 524 mil quilos de hidróxido de magnésio por dia, mais do que o triplo do consumo atual do país.

Há ainda duas frentes. A salmoura residual passa por eletrodiálise com membrana bipolar e produz ácido e base. Em artigo publicado na revista RSC Sustainability, os pesquisadores mostraram que esse ácido é 37% mais eficaz que o ácido clorídrico comercial na lixiviação de níquel a partir da olivina, com ganho de US$ 24 por tonelada de minério vendida. A terceira frente dispensa reator: segundo o botânico Scott Edmundson, do laboratório de pesquisa marinha do PNNL em Sequim, algumas macroalgas concentram materiais críticos em teores até um milhão de vezes maiores que os da água ao redor.

Por que isso interessa ao Brasil. Enquanto o PNNL tenta tirar metais da coluna d’água, cresce a corrida para raspar o leito oceânico. Mais de 38 países já defendem uma moratória ou a proibição da mineração em mar profundo. O Brasil está entre eles, ainda que mantenha pesquisa autorizada na Elevação do Rio Grande, a 1.200 quilômetros da costa. E a negociação das regras está nas mãos de uma brasileira: a oceanógrafa Letícia Carvalho comanda desde 2025 a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, órgão da ONU que conduz a reta final do código que dirá se, e como, o leito do mar poderá ser explorado. Para uma região que discute a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a pesquisa desloca a pergunta: antes de decidir quanto fundo do mar se pode revolver, vale perguntar quanto do que já está dissolvido na água que passa, todos os dias, pelas usinas de dessalinização.

Carajás e a renda que a legislação quase não tributa

O minério de ferro extraído em Carajás, no sudeste do Pará, tem teor médio de 66,7%, um dos mais altos do mundo. O número, informado pela própria Vale em seus relatórios anuais, tem uma consequência prática e cara: a empresa não precisa manter usina de concentração no estado. No Sistema Sudeste, em Minas Gerais, o itabirito tem entre 35% e 60% de ferro e precisa passar por concentração antes de embarcar.

Essa diferença de teor é o ponto de partida de um artigo do economista José Raimundo Trindade, professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Pará, publicado no site A Terra é Redonda. Para o pesquisador, o que separa Carajás das demais minas brasileiras não é apenas geologia: é renda. A categoria que ele mobiliza é a renda da terra, formulada por Karl Marx a partir do exemplo do moinho movido por queda d’água. Quem controla uma força natural não reproduzível produz a custo menor que os concorrentes e fica com a diferença.

Em Carajás, segundo o artigo, esse lucro tem três origens somadas: o teor alto e o baixo nível de impurezas, que reduzem o consumo de coque nos altos-fornos dos clientes e sustentam preço-prêmio; o tamanho da mina, que permite escala; e a logística própria, com a Estrada de Ferro Carajás, 892 quilômetros de trilhos até o terminal de Ponta da Madeira, no Maranhão, que dilui a distância amazônica até a Ásia e a Europa. Trindade registra que a margem líquida média da Vale entre 2015 e 2025 ficou entre 15% e 20%.

O contraponto fiscal é modesto. A Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, o royalty da mineração brasileira, incide sobre o ferro à alíquota de 3,5% da receita bruta descontados os tributos, conforme a Lei 13.540, de 2017. É a maior alíquota da lista, acima dos 3% da bauxita e dos 2% aplicados à maioria das substâncias, e ainda assim distante do regime de participações especiais que o Brasil aplica ao petróleo.

O peso disso na economia paraense é difícil de exagerar. Em 2025, cerca de 78% dos US$ 24,33 bilhões exportados pelo Pará vieram da mineração e da transformação mineral, segundo o Comexstat. Em 2024, o minério de ferro sozinho respondeu por 75,5% da pauta de exportação do estado, seguido pelos minérios de cobre, com 21,6%. Nas contas regionais do IBGE de 2023, a indústria extrativa da Amazônia Legal representa 8,97% do valor adicionado bruto do setor no país, e o Pará responde por 7,71% desse total. A conclusão do artigo é explicitamente política: Trindade defende a reestatização da Vale como elemento vital do debate da soberania nacional brasileira.

Um manual escrito por quem enfrenta o fogo

Faltando poucos meses para o auge da estiagem na Amazônia, quatro instituições federais de meteorologia colocaram número no que as brigadas já pressentiam em campo. Em nota técnica conjunta divulgada em junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Nacional de Meteorologia, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia estimaram em mais de 95% a probabilidade de um El Niño no segundo semestre de 2026, com potencial de intensidade forte a muito forte.

É nesse cenário que chega às mãos das brigadas o livreto “Combate aos Incêndios Florestais na Amazônia: Florestas Ombrófilas Densas”, publicação de utilidade pública distribuída gratuitamente. Organizado pela pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e da Rede Amazônia Sustentável, e por João Victor P. Romano e Waira S. Machida, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o volume nasceu de dois workshops participativos realizados em Brasília e no Baixo Tapajós, que reuniram cerca de 60 autores entre brigadistas institucionais e voluntários, servidores públicos, pesquisadores e especialistas em Manejo Integrado do Fogo. É o primeiro de uma série de quatro.

As florestas ombrófilas densas são matas de copas fechadas, com árvores que alcançam em média 30 metros de altura. Pouca luz solar chega ao chão, a circulação de vento é baixa e a serrapilheira, camada de folhas, galhos e cascas que cobre o solo, permanece úmida o ano todo. Por décadas, essa umidade tornou os incêndios raros ali, mesmo em anos de seca extrema. O que mudou foi o clima: a precipitação no Baixo Tapajós caiu cerca de 34% em relação a 1979, e no norte do Mato Grosso a redução chega a 24%.

O resultado apareceu com força em 2024. A combinação das mudanças climáticas com uma seca extrema puxada por El Niño fez com que 6,9 milhões de hectares de floresta queimassem na Amazônia brasileira, de acordo com o MapBiomas Fogo, citado no livreto. É quase quatro vezes a média histórica de 1,7 milhão de hectares por ano.

Nas florestas densas, o fogo tem comportamento próprio. As chamas são baixas, entre 10 e 50 centímetros, e avançam devagar, cerca de 350 metros por dia, queimando a serrapilheira. Muitas vezes o incêndio fica inativo durante a noite e reinicia nas horas mais quentes do dia, a partir de brasas escondidas em troncos e galhos caídos. É um fogo silencioso, difícil de enxergar e ainda mais difícil de apagar por completo. Apesar de discreto, tem impacto grande: um incêndio em floresta ombrófila densa mata cerca de metade das árvores de grande porte e até 90% das menores.

O combate é dividido em cinco fases, todas consideradas essenciais: reconhecimento, ataque, controle, extinção e vigilância. Se uma etapa falha, todo o esforço pode ser perdido. No ataque, um esquadrão de seis brigadistas abre a chamada linha de defesa, uma faixa de terreno limpo que funciona como barreira ao avanço das chamas. Nas florestas densas, essa linha pode ser aberta bem perto do incêndio, a cerca de 60 centímetros dos flancos, técnica batizada de Dois Pés. Na vigilância, recomenda-se acompanhar a área de perto por 10 a 15 dias e, em seguida, de forma remota, por imagens de satélite, por cerca de 30 dias. Como resume o livreto, incêndio controlado não significa incêndio extinto.

Os brigadistas ouvidos nas oficinas relatam que os maiores riscos muitas vezes não são o fogo em si: são a fumaça, o encontro com animais peçonhentos, a queda de árvores mortas e o contato com troncos e raízes em brasa. A esses perigos somam-se o isolamento, a falta de internet e de rádio sob as copas, a escassez de equipamentos, a ausência de seguro de vida, plano de saúde e socorrista em campo, além da falta de apoio à saúde mental em combates longos.

Manguezais em recuperação e reservas que seguram o desmatamento

Entre as décadas de 1980 e 2010, o mundo perdeu mais de 12.000 quilômetros quadrados de manguezais, área do tamanho da Jamaica. Um estudo recente analisou quatro décadas de dados globais e encontrou uma inversão: desde 2010, os manguezais se expandiram em mais de 2.000 quilômetros quadrados. A análise, apresentada por Catherine Lovelock no The Conversation, credita o movimento ao fortalecimento das leis de proteção após o tsunami do Oceano Índico, em 2004, e o ciclone Nargis, em 2008, e também a um efeito inesperado da elevação do nível do mar, que permite às marés alcançarem áreas mais distantes do litoral.

Os manguezais armazenam cerca de quatro vezes mais carbono que outras florestas terrestres e protegem comunidades costeiras de inundações e erosão. No Pará, o projeto Mangues da Amazônia atua no replantio de 12 hectares distribuídos em três reservas extrativistas dos municípios de Augusto Corrêa, Bragança e Tracuateua, com participação das comunidades locais. “É preciso continuidade no longo prazo para consolidar os resultados iniciais e chegar a mais pessoas”, aponta John Gomes, gestor do projeto.

Na outra ponta da conservação, um estudo conduzido pelo ICTA-UAB apresenta a primeira avaliação sistemática da eficácia das reservas da biosfera amazônica na Bolívia, no Equador e no Peru. A pesquisa analisou quase 96.400 quilômetros quadrados em sete reservas usando métodos de análise geoespacial, com processamento em supercomputador. Em conjunto, elas evitaram a perda de mais de 7.400 quilômetros quadrados de floresta nas últimas duas décadas, em comparação com cenários semelhantes sem esse status de proteção. Yasuní, no Equador, se destacou com até 4.745 quilômetros quadrados evitados.

“Este resultado mostra que a conservação não depende apenas da restrição do uso da terra, mas também de modelos de governança participativa capazes de integrar a conservação da natureza com seu uso sustentável e o bem-estar das comunidades locais”, afirma Álvaro Fernández-Llamazares, pesquisador do ICTA-UAB e autor do estudo. Reconhecidas pela Unesco, existem hoje 797 reservas da biosfera em 145 países, lar de mais de 300 milhões de pessoas. Amaia Gonzaga-Roa, pesquisadora da Universidade de Helsinque e autora do estudo, ressalta a necessidade de contextualizar os dados geoespaciais com estudos de campo e com as perspectivas das populações locais.

A edição traz ainda uma proposta de rede de monitoramento para mais de 100 lagos rasos que se estendem por mais de 1.000 quilômetros ao longo da costa atlântica do sul do Brasil e do Uruguai. Publicado na One Ecosystem, o trabalho reúne Mariana Kluge, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, Renata Medina-Silva, da PUCRS, Christian Wurzbacher, da Universidade Técnica de Munique, e pesquisadores da UFRGS. A proposta é usar esses lagos como ecossistemas sentinela, capazes de revelar sinais precoces de mudanças ambientais antes que ocorram danos irreversíveis.

Solo, soja e dieta: as contas que decidem o uso da terra

Três reportagens da edição tratam do mesmo problema por ângulos diferentes: quanta terra o mundo precisa e em que condição ela está.

A primeira, publicada na Nature Food, quantificou um custo que costumava ficar oculto. Reverter apenas 10% da degradação do solo causada pela ação humana produziria alimentos extras suficientes para mais de 70 milhões de pessoas por ano. O inverso também vale: uma piora de 10% custa cerca de 22 milhões de toneladas de colheitas por ano, o equivalente a 52 trilhões de calorias e cerca de US$ 4 bilhões em receita agrícola. O resultado contraria a intuição, porque as maiores perdas não estão em terras marginais, e sim em algumas das regiões agrícolas mais produtivas do mundo. No Cinturão do Milho americano, a erosão que removeu a camada superficial rica em carbono reduziu a produtividade em cerca de 6%, custando aos agricultores quase US$ 3 bilhões por ano. Como resume o estudo, coordenado pelo grupo de David Wuepper, as terras mais trabalhadas costumam ser, ao mesmo tempo, as mais produtivas e as mais desgastadas.

A segunda, publicada na Science e liderada por Lisa Rausch, da Universidade de Wisconsin, mede o que a Amazônia tem a perder com o fim da Moratória da Soja. Firmado em 2006, o acordo impede a compra de grãos cultivados em áreas da Amazônia desmatadas depois de julho de 2008. Sob a Moratória, a área plantada de soja na Amazônia cresceu de 1,64 milhão de hectares na safra 2007/08 para 7,28 milhões em 2022/23, sem que o pacto estrangulasse o setor. Ao mesmo tempo, a taxa anual de desmatamento nas áreas aptas ao cultivo caiu cerca de 35%, o que representou aproximadamente 1,8 milhão de hectares de floresta que deixaram de ser derrubados nos dez primeiros anos.

Com a saída da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais em janeiro de 2026 e o abandono do compromisso por gigantes do comércio de grãos, os pesquisadores projetam até 1,4 milhão de hectares de floresta a mais no chão até 2035, área equivalente a quase dez vezes a cidade de São Paulo, com margem que vai de 740 mil a 2,07 milhões de hectares. Convertido em carbono, esse desmatamento adicional colocaria cerca de 745 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera. O levantamento identifica ainda 28,7 milhões de hectares de floresta aptos à soja dentro de terras públicas sem destinação. Um ponto do estudo costuma escapar ao debate: a produção pode se expandir em quase 20% usando apenas terras já elegíveis e degradadas, sem uma árvore a mais derrubada.

A terceira vem da Nature e foi conduzida pela Universidade Cornell com o Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático e o Projeto de Intercomparação e Aprimoramento de Modelos Agrícolas. Segundo o autor principal, Matt Gibson, pesquisador da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, todos os modelos usados apontam que uma transição para sistemas alimentares mais saudáveis até 2050 reduziria o uso global de terras agrícolas em 9% e o valor da produção pecuária em 60%, com a produção agrícola total caindo 17%. As emissões líquidas de CO2 relacionadas a mudanças no uso da terra diminuiriam 76%, enquanto as emissões diretas de gases de efeito estufa da produção agrícola cairiam em um terço. O valor econômico da produção de vegetais, frutas, nozes e leguminosas subiria em uma mediana de 23%.

“Embora as oportunidades ambientais e de saúde sejam enormes, o gerenciamento dos desafios estruturais dentro do setor agrícola exigirá políticas alimentares e agrícolas coerentes e diálogos inclusivos com as partes interessadas”, disse Felicitas Beier, cientista do PIK e coautora do estudo. Hermann Lotze-Campen, chefe do departamento de pesquisa do instituto, resume o argumento central: continuar no caminho atual é a opção mais cara. Hoje, os sistemas alimentares respondem por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa e são o principal fator de cinco transgressões dos limites planetários.

O calor que os termômetros diários não registram

Um estudo de modelagem publicado na Nature Climate Change mostra que a forma como medimos o calor extremo esconde parte do problema. Eventos de calor são normalmente avaliados por médias, máximas ou mínimas diárias, métricas que podem negligenciar períodos mais curtos e potencialmente importantes. Weilin Liao, Xiaoping Liu e colegas analisaram dados horários globais de 1981 a 2023 e os correlacionaram com projeções climáticas até o fim do século.

Nesse período, as áreas terrestres globais registraram uma média de aproximadamente 269 horas de calor extremo a cada ano, com 62 horas adicionais acumuladas por década. Cerca de 28% desses eventos ocorreram em dias que as métricas diárias não identificam como extremos. Em um cenário de altas emissões, os autores projetam que, entre 2070 e 2099, cada dia quente poderá conter mais de quatro horas adicionais de calor extremo em comparação com os níveis atuais, e que dias hoje considerados sem calor acumularão mais três horas.

A distribuição é desigual. Países de baixa e média renda representam mais de três quartos da exposição ao calor, tanto atual quanto projetada, e enfrentam os maiores aumentos ao longo da vida, entre gerações. Mais de 80% da superfície terrestre global apresentou aumento no calor extremo. Na mesma linha de observação fina, a edição traz a missão PREFIRE, da NASA, que mede a energia infravermelha que a Terra perde para o espaço. Cerca de 60% dessa energia está numa faixa do espectro que nunca havia sido medida de forma abrangente em escala global. “Agora que o invisível se tornou visível, podemos começar a aprimorar as previsões meteorológicas e climáticas das quais dependem as indústrias, nossa defesa nacional e as comunidades do Ártico”, disse Tristan L’Ecuyer, da Universidade de Wisconsin-Madison, investigador principal da missão.

O fio que une a edição

Do memorando de uma agência de publicidade nos anos 1970 à planilha de teor de ferro em Carajás, da linha de defesa aberta a facão numa mata do Baixo Tapajós à mesa paritária em Brasília, o que a edição 156 reúne são disputas sobre quem mede, quem decide e quem arca com a diferença entre o discurso e o dado. A Revista Amazônia é publicada pela Editora Cirios, em Belém, e pode ser lida na íntegra de forma gratuita.

Perguntas Frequentes

Como ler a edição 156 da Revista Amazônia?
A edição está disponível de graça no leitor online do portal e também em PDF para download, sem cadastro. O arquivo completo fica na banca virtual, junto com todas as edições publicadas desde 2013.

O que o relatório sobre o gás natural revela?
O levantamento do Center for Climate Integrity reúne documentos internos mostrando que a indústria do gás conhecia o problema do vazamento de metano enquanto promovia o produto como energia limpa, e que o número oficial de 1,4% de vazamento, fixado em 1996, veio de um estudo sem amostragem aleatória e sem revisão independente da agência ambiental norte-americana.

O que é o Mecanismo Amazônico dos Povos Indígenas?
É uma estrutura paritária criada dentro da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica que reúne oito países amazônicos e oito organizações indígenas, com copresidência rotativa, para dar assento permanente aos povos indígenas nas decisões sobre a floresta.

Por que Carajás gera uma renda diferente das outras minas?
Porque o teor médio de ferro de 66,7% dispensa usina de concentração, reduz impurezas e sustenta preço-prêmio, e porque a mina soma escala e logística ferroviária e portuária próprias. Sobre essa receita incide um royalty de 3,5%, conforme a Lei 13.540, de 2017.

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