
Resposta direta: menos de 25% das florestas tropicais remanescentes no mundo são de alta integridade ecológica — condição decisiva para abrigar mais de 16 mil espécies de vertebrados terrestres, sendo que apenas 8% do habitat disponível para espécies ameaçadas ainda preserva essa qualidade. Brasil, República Democrática do Congo, Canadá, Papua Nova Guiné e Austrália concentram os últimos grandes blocos de floresta intacta do planeta. Em 2026, após a COP30 de Belém, a agenda global passou a contar com um novo mecanismo financeiro para sustentar essas áreas: o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
Há muito se sabe que florestas nativas intactas, não perturbadas e de alta integridade são indispensáveis para sustentar a biodiversidade tropical. Mas que fração da cobertura de floresta tropical permanece intacta e não perturbada para a biodiversidade? Para 16.396 espécies de vertebrados terrestres em todo o mundo, mostramos que menos de um quarto da cobertura de floresta tropical remanescente é de alta integridade. Preocupantemente, espécies ameaçadas de extinção, com populações em declínio e com pequenas áreas geográficas têm quantidades desproporcionalmente baixas de habitats florestais de alta integridade restantes. Nossas descobertas destacam a necessidade urgente de esforços de conservação aprimorados globalmente para preservar áreas de florestas tropicais de alta integridade que estão atualmente desprotegidas.
Uma nova pesquisa revelou que menos de um quarto das florestas tropicais restantes ao redor do mundo podem proteger milhares de espécies ameaçadas da extinção.
A pesquisa, coautorada pelo Professor James Watson da Universidade de Queensland, avaliou a disponibilidade global de florestas tropicais estruturalmente intactas e minimamente perturbadas para mais de 16.000 espécies de mamíferos, pássaros, répteis e anfíbios. A pesquisa foi publicada em PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences.
“Usando sensoriamento remoto e indicadores de integridade florestal, analisamos a qualidade das florestas tropicais em todas as áreas de distribuição dos vertebrados dependentes da floresta”, disse o professor Watson.

“No geral, até 90% da cobertura florestal ainda permanece dentro das áreas de distribuição dessas espécies, mas apenas 25% dela é de alta qualidade, o que é um fator crítico na redução do risco de extinção.
“Sabíamos que florestas tropicais de alta integridade eram vitais para a biodiversidade, mas ninguém havia quantificado o quão limitados esses habitats essenciais se tornaram.
“Nossa pesquisa mostra que florestas tropicais estruturalmente intactas — que são essenciais para muitas espécies dependentes de florestas — são assustadoramente raras, especialmente em regiões mais afetadas por pressões humanas, como exploração madeireira e desenvolvimento de infraestrutura.”
O estudo também revelou contrastes na qualidade do habitat com base no estado de conservação de diferentes espécies.
“Apenas 8% do habitat da floresta tropical para espécies classificadas como ameaçadas ou com populações em declínio é de alta integridade”, disse o professor Watson.
“Mostramos o quão essenciais são alguns países, incluindo Canadá, Brasil, República Democrática do Congo, Papua Nova Guiné e Austrália, na manutenção das últimas grandes florestas intactas do mundo.
“Em comparação, espécies não ameaçadas têm áreas de distribuição com cerca de 25% de habitat de floresta tropical de alta integridade, destacando como a degradação do habitat afeta desproporcionalmente espécies que já estão em risco”.

O pássaro-jardim-dourado (Prionodura newtonia), cuja população é classificada como decrescente nos trópicos úmidos de Queensland, foi incluído no estudo que descobriu que, embora 84% de seu habitat permanecesse, apenas 36% é floresta tropical de alta integridade.
O Dr. Rajeev Pillay, da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, que liderou a pesquisa, disse que os resultados apontam para a necessidade urgente de estratégias de conservação que vão além da preservação da cobertura florestal e que devem manter a qualidade da floresta.
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“Simplesmente ter cobertura florestal não é suficiente se a complexidade estrutural e a baixa perturbação humana necessárias para a biodiversidade desaparecerem”, disse o Dr. Pillay.
“Para proteger as florestas tropicais de alta integridade restantes, a coordenação global para minimizar a perturbação humana é fundamental, especialmente em florestas desprotegidas que continuam vitais para a biodiversidade.
“Como as metas internacionais de conservação enfatizam a integridade do ecossistema, este estudo fornece uma linha de base crítica.

“Proteger florestas tropicais de alta integridade é essencial para cumprir as metas de 2030 da Convenção sobre Diversidade Biológica e evitar mais perdas de biodiversidade.
“À medida que as pressões humanas aumentam, preservar essas florestas remanescentes pode ser a melhor esperança de garantir um futuro sustentável para a biodiversidade do planeta”.
Atualização 2026: o que mudou após a COP30 de Belém
O cenário descrito pela pesquisa do professor James Watson e do Dr. Rajeev Pillay, publicada no PNAS, ganhou um contexto político novo com a realização da COP30 em Belém do Pará, em novembro de 2025. Pela primeira vez, uma Conferência do Clima da ONU foi sediada na Amazônia, e a integridade das florestas tropicais tornou-se tema central das negociações sobre clima e biodiversidade.
O principal resultado operacional foi o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposta encabeçada pelo Brasil e formalizada durante a cúpula. O mecanismo prevê mobilizar cerca de US$ 4 bilhões por ano para remunerar países tropicais que mantenham a cobertura florestal intacta, com pagamento por hectare conservado e desconto por hectare desmatado. A previsão do Ministério da Fazenda é que 2026 seja o ano de captação inicial dos recursos entre governos, bancos multilaterais e investidores privados.
Paralelamente, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) apresentou na COP30 o Mapa das Paisagens Sinérgicas, ferramenta que cruza dados de clima, biodiversidade e desertificação para orientar onde o investimento em conservação tem maior retorno ecológico. A proposta dialoga diretamente com o achado da pesquisa do PNAS: não basta manter cobertura florestal — é preciso preservar florestas estruturalmente intactas, com baixa perturbação humana.
Estudos recentes confirmam a gravidade do quadro: cerca de 25% das florestas tropicais do mundo já foram destruídas, segundo a Wildlife Conservation Society, e mais de 80% da biodiversidade terrestre do planeta depende desses biomas. Para 2026, o desafio é converter o compromisso político firmado em Belém em redução real de perda de habitat, especialmente nas áreas que a pesquisa original identificou como “florestas de alta integridade atualmente desprotegidas”.
Perguntas frequentes
O que é uma floresta tropical de “alta integridade”?
É uma floresta estruturalmente intacta, com baixa perturbação humana, extração de madeira mínima e ausência de fragmentação significativa. Segundo o estudo do PNAS, menos de 25% das florestas tropicais remanescentes se enquadram nesse critério e apenas 8% do habitat de espécies ameaçadas mantém essa qualidade.
O que é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) lançado na COP30?
É um mecanismo financeiro proposto pelo Brasil e formalizado na COP30 de Belém, em novembro de 2025, que pretende mobilizar cerca de US$ 4 bilhões por ano para remunerar países que mantenham florestas tropicais preservadas, com base em métricas de cobertura e integridade florestal.
Quais países concentram as maiores florestas tropicais intactas?
De acordo com a pesquisa do professor James Watson (Universidade de Queensland), cinco países reúnem os maiores blocos de floresta tropical de alta integridade ainda existentes: Brasil, República Democrática do Congo, Canadá, Papua Nova Guiné e Austrália.





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