
Relatório da Global Witness mostra como comunidades criam redes próprias diante de ameaças, criminalização e ausência do Estado.
Em vez de esperar por uma proteção que muitas vezes não chega, comunidades indígenas da Amazônia peruana passaram a organizar patrulhas, monitorar seus territórios e criar rotas de resposta a ameaças. A iniciativa dos povos Kakataibo e Shipibo aparece como um dos exemplos centrais de um relatório publicado pela Global Witness em 16 de setembro de 2026, que registrou 124 defensores da terra e do meio ambiente mortos em 2025.
Esses grupos atuam diante do avanço de atividades ilegais, da presença de organizações criminosas e da pressão sobre florestas e territórios tradicionais. Os guardas indígenas não substituem as instituições públicas, mas funcionam como uma forma coletiva de vigilância, comunicação e reação quando líderes e comunidades se tornam alvos.
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O relatório descreve uma rotina que vai além das rondas. Lideranças ameaçadas deixam de viajar sozinhas, casas seguras são preparadas e veículos podem ser usados para facilitar uma retirada emergencial. Advogados e profissionais de saúde também integram alianças destinadas a responder a processos judiciais, agressões e outras formas de intimidação.
A necessidade de criar essa estrutura está ligada ao enfraquecimento das garantias oferecidas pelo Estado. Em diferentes países, defensores são apresentados como obstáculos ao desenvolvimento, enquanto projetos de mineração, energia, infraestrutura ou expansão agropecuária avançam sobre áreas ocupadas por comunidades tradicionais.
Segundo a Global Witness, 124 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados em 2025, e o Brasil aparece entre os países com vítimas identificadas, com 26 nomes listados no relatório.
O Brasil e a Amazônia no retrato da violência
A presença brasileira entre os países citados aproxima o levantamento da realidade dos estados amazônicos. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins concentram territórios indígenas, florestas públicas, áreas de uso comunitário e zonas de expansão econômica nas quais a disputa pela terra pode envolver ameaças a lideranças e comunidades.

O dado não significa que todas essas unidades federativas estejam representadas da mesma maneira no relatório. Ele mostra, porém, que a defesa ambiental na Amazônia brasileira faz parte de um problema internacional, no qual quem denuncia desmatamento, invasão ou apropriação de recursos pode ficar exposto sem uma resposta rápida e adequada.
Na lista de pessoas homenageadas pela publicação estão 26 brasileiros, além de quatro peruanos. A relação também reúne vítimas da Colômbia, Honduras, Filipinas, México, Guatemala, Equador, Nicarágua, Tanzânia, República Democrática do Congo, França, Índia, Indonésia e Turquia. A Colômbia aparece com o maior número de nomes, 39.
Da resistência local à chamada colonização verde
O documento também questiona a ideia de que toda iniciativa apresentada como solução climática produz benefícios para as populações locais. A expansão de energias renováveis e a busca por minerais necessários à transição energética podem resultar em desapropriação, perda de áreas tradicionais e conflitos quando as comunidades não participam das decisões.
Joan Carling, diretora executiva da Indigenous Peoples’ Rights International e autora do prefácio, relaciona esse processo ao que chama de “colonização verde”. A avaliação apresentada no relatório é que povos indígenas são frequentemente excluídos de decisões sobre projetos que afetam suas terras, apesar de seus conhecimentos contribuírem para práticas de agricultura sustentável e gestão da água diante da crise climática.
O texto lembra a resistência contra a barragem do rio Chico, nas Filipinas, ocorrida a partir dos anos 1980. O projeto, apoiado pelo Banco Mundial, ameaçava inundar territórios ancestrais e deslocar 100 mil pessoas Kalinga e Bontoc. A mobilização foi acompanhada por militarização, prisões em massa e o assassinato do líder Kalinga Macli-ing Dulag.
Peru e Indonésia mostram caminhos diferentes de ameaça
Na Amazônia peruana, a criação das guardas Kakataibo e Shipibo está associada à necessidade de proteger áreas pressionadas por grupos envolvidos com atividades ilícitas, incluindo o cultivo ilegal de coca. As equipes patrulham as comunidades, registram ocorrências, confrontam agentes ilegais e procuram coordenar ações com órgãos estatais.

Na Indonésia, o relatório descreve outro tipo de conflito. Comunidades Dayak se organizaram contra a destruição de áreas agrícolas e florestas consuetudinárias, além da perda de turfeiras ricas em carbono e de habitat de orangotangos. Locais usados em rituais também foram atingidos pela abertura de áreas corporativas.
Em vez de receber apoio, um líder comunitário foi acusado de extorsão por aplicar práticas tradicionais de responsabilização contra a empresa apontada como responsável pela destruição ambiental. O caso é apresentado pela Global Witness como exemplo de criminalização de métodos comunitários de defesa do território.
As mortes indígenas e o que ainda precisa mudar
O relatório afirma que pelo menos 44 indígenas, entre eles sete integrantes de guardas indígenas, foram mortos em 2025 por defenderem terras, culturas e recursos. Nas Filipinas, 12 defensores foram assassinados no mesmo ano, e a Global Witness relacionou cinco desses casos às forças armadas. A publicação ressalta que a atribuição de responsabilidade deve ser compreendida dentro das evidências reunidas em sua investigação.
Além da segurança física, a entidade defende apoio jurídico e atendimento em saúde mental. A pressão prolongada, o medo e a perda de colegas podem afetar profundamente quem permanece na linha de frente. A proteção, portanto, não se resume a escolta ou patrulhamento, mas inclui condições para que as comunidades continuem participando das decisões sobre seus territórios.
A Global Witness dedica o relatório às pessoas, comunidades e organizações que defendem o direito à terra e a um ambiente limpo, saudável e sustentável. A entidade também reconhece que a lista de mortos pode estar incompleta, porque muitos casos não são registrados ou jamais chegam ao conhecimento público.
Como consultar o relatório
A publicação reúne dados globais, estudos de caso sobre Peru e Indonésia, atualizações de situações específicas, recomendações para governos e empresas e a metodologia usada na apuração. O relatório completo da Global Witness pode ser baixado em PDF.
Para a Amazônia, a principal mensagem é que a proteção ambiental depende também da segurança de quem vive nos territórios e denuncia sua destruição. O próximo passo indicado pela publicação é transformar redes comunitárias de emergência em políticas permanentes de proteção, com participação indígena e responsabilização de empresas e autoridades.
Com informações de Global Witness.
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